Crónicas do Olheirão de Mário Pereira
Serão as mesmas pessoas?
Desde que me lembro os economistas, comentadores e jornalistas de direita defendem uma política orçamental baseada em menos impostos para as empresas e menos apoios do estado para as pessoas mais frágeis e mais pobres.
Não será preciso fazer uma contagem para saber que, até ao mês de março, a crítica mais frequente da direita a todos os governos do partido socialista, terá sido a de que fazem uma gestão pouco rigorosa dos orçamentos e, nos últimos anos, a crítica mais repetida foi que o governo está dominado pelos interesses do BE e do PCP e não controla as despesas nem o endividamento do país.
A questão não é se essas criticas têm algum fundamento.
O ponto é que essas mesmas pessoas, logo no dia em que o governo anunciou que o défice de 2020, apesar de ser gigantesco, ficou umas décimas abaixo do previsto no orçamento, passaram a criticar o governo por não ter gasto todo o dinheiro que estava previsto no orçamento.
Esta inversão nas críticas feitas por tanta gente que fala na televisão e escreve nos jornais revela um pensamento incoerente, pois há meia dúzia de anos, no tempo da troika, as mesmas pessoas, que agora dizem que o défice devia ser maior e que os apoios do estado são essenciais para economia, defendiam os cortes nas pensões e nos salários como forma de salvar a economia.
A coisa é tão ostensiva que às vezes fico na dúvida se ainda serão as mesmas pessoas ou se terão sofrido alguma clonagem, tal como me preocupa o que terá acontecido ao PSD para agora exigir ao governo que faça o contrário daquilo que fez há meia dúzia de anos.
O pensamento destes “especialistas” pode resumir-se à seguinte ideia: os apoios do estado são bons se forem para as empresas, mas são maus se forem para ajudar as pessoas pobres e os trabalhadores.
Assim, se uma empresa ou um empresário estiver em dificuldades o estado pode abrir os cofres, com o argumento de que são as empresas e os empresários que criam riqueza, mas se for preciso reduzir a despesa para equilibrar as contas do estado deve cortar-se nos salários e pensões e nos apoios aos mais pobres.
Neste modelo de pensamento um ser humano se for o empresário tem um valor, mas se for o empregado dele tem outro, do mesmo modo que uma pessoa coletiva (uma empresa) tem um valor muito acima de uma pessoa singular como eu e você.
A aceitação destas desigualdades está tão entranhada nas nossas elites económicas, financeiras e até políticas que me causa a maior preocupação.
Sei que na direita há pessoas que defendem a economia de mercado e o conservadorismo dos costumes, mas acreditam na igualdade entre as pessoas como a base do nosso sistema de governo democrático e faz-nos falta ouvi-las fazer a defesa destes valores.
15/04/2021

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