Crónicas do Olheirão de Mário Pereira

Fortes com os fracos

Hoje em dia é moda bater no governo, sendo um dos motivos mais invocados que o governo não está interessado em combater a inflação, porque está a ganhar com o aumento dos preços que tem como consequência o aumento do IVA cobrado.

A ideia é que o governo está a roubar os cidadãos com o fito de reduzir a dívida do estado e o défice do orçamento, que durante anos foram o principal lema dos partidos da direita, mas agora, por uma qualquer razão que me escapa, passaram a ser considerados pelos mesmos uma coisa má.

As televisões, rádios e jornais de âmbito nacional e os seus comentadores têm formado um coro de apoio a essa ideia de que o governo nos está a roubar.

Aceitando que eles têm razão, eu gostaria de ouvir o que têm a dizer agora que o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, que não são organizações clandestinas nem comunistas, vieram dizer que 66%, ou seja dois terços da inflação, resultam das margens e dos lucros das empresas, que estão a aproveitar-se da conjuntura para aumentarem os preços e enriquecerem os seus acionistas e gestores, pois não consta que tenham aumentado os trabalhadores na mesma proporção e algumas delas até estão a despedir.

Se o governo, a guerra e o Covid são responsáveis por um terço da inflação e as margens de lucro das grandes empresas são responsáveis por dois terços é caso para dizer que as empresas podem fazer pior que a guerra, o Covid e os governos em conjunto.

Se os dados objetivos mostram que são as empresas que estão a causar a inflação e não os governos, causa-me alguma confusão que o coro que diz que o governo nos anda a roubar não diga nada sobre as empresas.

O problema é que as empresas têm hoje muito mais poder que os governos, os parlamentos e os presidentes todos juntos e não falo dos nossos, porque em todo o mundo ocidental a situação é similar.

Sendo o governo o mais fraco dos poderes é muito fácil à comunicação social criticá-lo, pois sabe que o governo não tem nenhuma forma de a pressionar ou controlar, pelo que a coragem necessária para dizer mal do governo está ao nível da que é precisa para chamar nomes ao árbitro num jogo de futebol.

Eu gostava era de ver e ouvir as televisões, rádios e jornais de âmbito nacional a dizer das empresas o que dizem do governo.

Certamente, não vou ver nem ouvir, porque essa comunicação depende dos anúncios pagos pelas grandes empresas, nomeadamente das que mais lucram com a inflação: hipermercados, telecomunicações, eletricidade, combustíveis, bancos, etc…

Neste momento a comunicação social está capturada pelos interesses dos grandes negócios de quem depende e por isso nunca a ouviremos criticar as empresas que lhe pagam os anúncios.

A atuação da comunicação social pode definir-se como ser forte com os fracos e subserviente perante os poderosos.

25/05/2023


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