Crónicas do Olheirão de Mário Pereira

Enjoativo

Anda por aí uma grande polémica em torno de um livro da autoria do anterior governador do Banco de Portugal, onde ele se queixa de eventuais pressões do primeiro-ministro.

Penso que ainda existe uma coisa chamada segredo bancário e que, acima de todos, isso obrigará o Governador do Banco de Portugal. Agora que o ex-governador do Banco de Portugal veio contar as conversas que teve no âmbito da sua atividade, porquê razão não poderá qualquer bancário fazer o mesmo?

Quando comecei a ouvir notícias sobre este livro a primeira coisa que me veio à memória foram as memórias de Cavaco Silva e, por coincidência, antes de começar a escrever esta crónica ao fazer zapping na televisão, passei por um canal de notícias que nesse momento interrompeu o que estava a passar para dar imagens do Professor Cavaco Silva a sair da sessão de apresentação do dito livro.

Além de outras coisas, pareceu-me mal que a Gulbenkian aceitasse fazer a apresentação no seu auditório, pois o objetivo era só associar a Fundação ao livro.

A grande notícia é que o primeiro-ministro terá pressionado o Governador do Banco de Portugal em algumas situações. Não vejo que isso seja notícia, parece-me óbvio e natural que na relação entre o Governo e o Baco de Portugal existam pressões.

Aliás todos os governadores do Banco de Portugal costumam pressionar os governos, nomeadamente, através das suas intervenções públicas sobre política económica, entrevistas ou relatórios.

O problema foi muito bem colocado pelo presidente do BCP que disse que a questão não é se há pressões, mas se somos independentes para lhes resistir.

Não sei o que está escrito no livro, mas ver associadas a ele pessoas como Cavaco Silva e Marques Mendes, o grande especialista nacional em influências, é suficiente para perceber a intenção.

Faz-me pena ver o PSD a, tão prontamente, tentar usar esta história para atacar António Costa. Convenhamos que não diz grande coisa sobre a sua capacidade de iniciativa política.

O jogo de pressões entre o Banco de Portugal, o governo, o sistema financeiro e os grandes advogados, Bruxelas e o BCE  faz parte da vida e é natural que cada um tente fazer prevalecer os seus pontos de vista.  É por isso que pagamos 15 000€ por mês ao Governador. Se fosse para estar sentado dentro de um redoma de vidro com ar condicionado podíamos lá por um boneco. Se, como parece, o Dr. Carlos Costa ficava tão incomodado com as pressões, claramente, não estava à altura do cargo.

Subscrevo, por inteiro, uma reação do Santana Lopes em que ele, basicamente, disse que se o ex-governador do Banco de Portugal tinha alguma coisa a dizer, tinha a obrigação de o ter dito na altura e em tempo útil e se não teve coragem para o fazer então, agora não tem mais do que ficar calado.

Eu acrescentaria, que a sua atuação e os aproveitamentos a que se tem prestado, são um tanto enjoativos e confirmam que não prestava para Governador do Banco de Portugal.

24/11/2022


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