Crónicas do Olheirão de Mário Pereira

Uma missão impossível

A nossa região é o exemplo acabado de como nem depois de um incêndio arrasador conseguimos fazer algo realmente significativo para proteção da floresta.

A ideia mais comum é que temos de limpar as florestas, mas como me disse o Padre João Rodrigues a floresta não precisa de ser limpa, mas apenas cuidada.

Aliás, a limpeza da floresta é uma missão impossível.

Não tenho a certeza de quantas equipas de sapadores florestais existem em Lafões, com o objetivo de manter as florestas limpas, mas admitindo que são 10, e apesar do esforço notável dos seus trabalhadores, o seu impacto é mínimo.

Há dias, ao analisar os dados da atividade de duas equipas de sapadores, com 4 trabalhadores cada, verificamos que cada uma não chega a limpar 100 hectares por ano o que equivale a 1 Km2. Se forem 10 equipas conseguirão limpar por ano cerca de 10 km quadrados.

Acontece que o concelho de Oliveira de Frades tem uma área de 147 km2, Vouzela 193 e S. Pedro do Sul 348, o que somado dá 688 Km2, descontando as áreas urbanas e agrícolas, que também precisam de ser limpas, teremos, seguramente, 500 quilómetros quadrados com aptidão florestal ou a mato que precisam de ser cuidados para evitarmos incêndios de dimensões catastróficas.

Se tudo correr muito bem as 10 equipas de sapadores precisarão, a 10 Km2 por ano, de 50 anos para darem uma volta pela área florestal da região; entretanto é muito provável que nesses 50 anos o fogo tenha dado várias voltas.

Embora todas as ações de limpeza e controle da vegetação sejam importantes, estes números demonstraram que teremos de fazer algo de diferente se não quisermos que uma grande parte da nossa região se torne improdutiva e inabitável.

Não basta dizermos, no Verão, que é uma pena o abandono da floresta e da agricultura e que o agravamento das condições climatéricas aumenta o risco de incêndios. A bem a ou mal teremos de alterar a estrutura da propriedade para que seja possível uma gestão economicamente viável da floresta e da agro pastorícia.

Na nossa região foram criadas diversas ZIF – Zonas de Intervenção Florestal, cujo objetivo seria associar os pequenos proprietários para uma gestão conjunta da floresta, mas até agora não têm nenhuma intervenção visível na gestão da floresta. Basicamente as ZIF são mapas no papel, mas poderiam ser o canal preferencial para apoio do estado às florestas, evitando-se que esse dinheiro vá todo para as celuloses, para os fabricantes de material de combate a incêndios e para as operações de combate.

Os sucessivos governos são os grandes responsáveis, mas as câmaras na nossa região têm-se limitado a assistir sentadas e não têm dado à floresta a atenção necessária. O espaço nos discursos pode ser algum, mas seria um exercício interessante e, seguramente, deprimente comparar o dinheiro gasto na floresta com outras áreas da atividade municipal.

28/07/2022


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