Crónicas do Olheirão de Mário Pereira
Olhares distorcidos
Foto de LEONOR FERREIRA
Na sessão comemorativa do 40º aniversário da Gazeta da Beira ouvi o jornalista Adelino Gomes, entre muitas outras coisas interessantes, dizer que, tendo voltado a morar na sua terra de origem perto de Leiria, devido ao COVID, descobriu uma realidade que não fazia ideia que existisse.
Acontece que Adelino Gomes é um dos melhores jornalistas da sua geração, pelo que o desconhecimento assumido do que se passava na sua região é ainda mais surpreendente.
Dizia ele que tendo ido para Lisboa estudar e depois trabalhar continuou a olhar para Leiria e a região com a imagem que tinha de como era a vida há 50 anos atrás. Este olhar, enviesado por memórias e preconceitos, fez com que sempre visse Leiria como uma região com uma vida muito limitada, muito fechada e desagradável para se viver.
Ao voltar começou, por deformação profissional, a ler os jornais locais e descobriu uma vida e uma realidade ricas e complexas, com muitas atividades culturais, atletas com grandes sucessos a nível internacional, empresas com tecnologias de ponta, etc. que não conhecia nem suspeitava que existissem.
As nossas elites dirigentes, influentes e importantes são formadas por pessoas que nasceram na província, ou cujos pais e avós ainda têm “uma terra” nessa província.
Até o nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa nascido, criado e vivido entre Lisboa e Cascais sempre fez questão de dizer que tinha uma terra, Celorico de Bastos, de onde era originária uma avó, exibindo isso como um elemento da sua imagem política.
A declaração de Adelino Gomes fez-me pensar que o problema dele será comum a muitas pessoas com poder e influência na capital, que se relacionam com as suas “terras” e com o interior em geral a partir das suas experiências de décadas atrás ou das histórias que lhes foram contadas pelos pais e avós e não do que é hoje a vida nessas terras.
Esta idealização positiva ou negativa das terras de origem tem também consequências no modo como avaliam a vida nas grandes cidades, em geral pintada como muito mais rica e interessante do que nas pequenas vilas e cidades da província.
Embora a uma outra escala, estes movimentos também acontecem ao nível local e regional, pois são muitas as pessoas que migraram das aldeias para as nossas vilas e destas para a cidade de Viseu.
Isto faz com que seja muito frequente encontrar pessoas que odeiam o “atraso” em que vivemos na província e outras, em menor número, que idealizam uma vida sem problemas nem confusões.
Se conseguíssemos ultrapassar estas complexos talvez fosse possível desenhar a aplicar políticas mais adequadas à nossa realidade e capazes de tornarem a vida no interior mais agradável.
Esta observação do jornalista Adelino Gomes leva-me a pensar na necessidade de refletirmos sobre a relação das pessoas com a sua “terra” de origem e claro também sobre o papel da Gazeta e dos outros jornais locais na criação de uma imagem realista do que é a vida que por aqui vamos vivendo.
14/07/2022

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