Cronicas do Olheirão
A Praxe é só o princípio
Em Portugal tudo se discute por ondas, atualmente são as praxes nas universidades que estão a dar motivo de conversa.
Agora que se diz que as praxes poderão ter ligação à morte de seis jovens na Praia do Meco. Ao ligarmos a televisão ou lermos o jornal, encontramos tantos peritos e especialistas que sabem do assunto, que se torna difícil compreender como chegamos a este ponto.
As praxes eram uma instituição de Coimbra que foram abolidas depois do 25 de Abril e que, por coincidência ou não, foram sendo recuperadas à medida que a direita retomou o controlo político da situação.
As praxes têm tido um papel importantíssimo na criação de gerações de jovens conformistas e submissos e é muito estranho que os partidos de esquerda, não considerando para este efeito o PS, se tenham deixado ir neste barco e nunca tenham tomado posições firmes contra as praxes.
A praxe tem funcionado como um sinal dado aos jovens de que, se quiserem sobreviver, têm de aprender a submeterem-se a poderes que não conhecem nem controlam.
A praxe é só uma primeira etapa desse processo de domesticação e o primeiro ano na universidade acaba por funcionar como a recruta na tropa. Garantir a acomodação e a aceitação sem crítica das regras.
Este método sempre foi usado pelos grupos dominantes.
O filme “12 Anos Escravo” conta a história verídica, ocorrida nos anos de 1850, de um homem que foi raptado e escravizado. Depois do rapto o primeira ato dos raptores foi bater-lhe, sem nenhum motivo, até que ele deixasse de dizer que era um homem livre e aceitasse a condição de escravo.
De certo modo esta foi uma praxe.
O problema da praxe é que constitui apenas o princípio dum processo de formação dos jovens, que os prepara para aceitarem sem revolta uma série de coisas que não deveriam aceitar.
A primeira dessas coisas é um modelo de ensino universitário baseado na memorização de conhecimentos, em que o importante continua a ser marrar para os exames.
Como observador distanciado não entendo que os semestres, na generalidade dos cursos, tenham três meses de aulas e a seguir dois para exames.
Este esquema aberrante demonstra que na universidade mais importante que aprender é marrar umas tretas e acertar no exame, ainda que se esqueça tudo logo a seguir.
Acresce que, além deste modelo que não favorece a aprendizagem, há professores que tratam os jovens como seres inferiores e como se fossem detentores de um poder emanado de algo superior e incontestável.
As associações académicas limitam-se a organizar a venda da cerveja e entregam os jovens estudantes a uns, auto denominados, doutores da praxe que, na prática, se comportam como os sargentos que vemos nos filmes americanos a obrigarem os recrutas a cantarem umas coisas estúpidas e a rastejar na lama.
Os jovens depois de domesticados nas universidades e politécnicos vão trabalhar para as empresas onde aceitam horários e salários indignos sem que sejam capazes de se organizarem em comissões de trabalhadores, sindicatos ou mesmo nos partidos políticos para contestarem essa exploração.
Aqueles que pretendem aceder a profissões controladas por ordens enfrentam também dificuldades, criadas pelos colegas mais velhos, que constituem autênticos abusos.
Do meu ponto de vista as praxes são tudo menos brincadeiras inocentes. Na realidade são um passo fundamental num projeto social que visa formar pessoas sem capacidade crítica e fáceis controlar pelos interesses dominantes
Os partidos de esquerda deveriam, promover leis que proíbam as praxes ou, pelo menos, informar e organizar os jovens para que recusem tais práticas.
Do mesmo modo, entendo que as famílias devem deixar de ter uma atitude complacente e até encorajadora para com essas práticas e recomendarem aos seus jovens que não se envolvam nessas práticas.
• Mário Pereira
Redação Gazeta da Beira
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