Crónica do Olheirão por MárioPereira
Experts e espertos
Expert é uma palavra inglesa, que tem vindo a ser usada com crescente frequência entre nós, e que podemos traduzir por perito
Esperto, por sua vez, é uma palavra portuguesa sinónimo de inteligente e capaz, mas que também pode tomar o sentido negativo de pessoa capaz de agir sem escrúpulos para ganhar alguma vantagem.
Vem isto a propósito das inúmeras opiniões sobre as melhores medidas para contenção da pandemia gerada pelo COVID 19. Cada vez que o governo toma uma medida surge um coro de peritos que sabe sempre que aquela não era a melhor medida a tomar, que ela já vem tarde ou que ainda não se justifica, etc.
Acreditando que o governo se aconselhe junto de alguns peritos, fica a ideia que há peritos com opiniões para todos os gostos.
Algumas das pessoas que aparecem a dar opiniões e a fazerem comentários serão realmente “experts” no assunto, mas muitas outras deixam a ideia de que são apenas “espertos” com umas ideias sobre o assunto, que aproveitam a ocasião para se mostrarem.
A comunidade científica tem uma grande responsabilidade em ajudar a tornar as coisas mais claras ou então deve assumir que o seu conhecimento, de tão limitado, não é grande ajuda e que o melhor será confiarmos na intuição dos políticos e na experiência da história.
Fica-nos o sentimento de que muitos cientistas estão a cair na tentação de procurarem os seus 5 minutos de fama, proporcionados pelas televisões, jornais ou redes sociais. Seria bom que alguns peritos, em vez de aparecerem tantas vezes nas televisões, aparecessem mais vezes nos seus laboratórios para estudarem os problemas.
Acontece que os resultados de qualquer estudo, sobre a pandemia, são tomados como definitivos, o que, além de dificultar a nossa compreensão, desvirtua o método científico, o qual recomenda que a seguir a um estudo com resultados promissores se façam dois a tentar provar que os resultados do primeiro estão errados e não outro com a intenção de reafirmar os resultados. Apenas se ninguém conseguir destruir os resultados do primeiro estudo se pode afirmar que há uma boa probabilidade de estar correcto.
Aos cientistas somam-se os jornalistas, que se acham grandes experts na matéria e adoptam opiniões pessoais ao abordar o assunto. No sábado passado vi na RTP 3 uma jornalista começar a conversa com um convidado, perguntando-lhe se ele não achava as medidas tomadas, pelo governo, desajustadas.
No sentido de reduzir este ruído, que é muito prejudicial, sugiro ao governo que alugue um navio de cruzeiro, agora há muitos parados, e o encha com experts, espertos, jornalistas, comentadores, alguns políticos da oposição e do PS e outras pessoas que acreditam ter a solução certa e depois sigam para o mar, com a condição de só voltarem a terra quando, pelo menos, 75% dos passageiros estiverem de acordo com as medidas a tomar.
Para a coisa ser mais realista, não se fariam testes de COVID à entrada, pois alguns casos entre os passageiros ajudariam a uma melhor reflexão.
Esta seria também uma boa solução para o congresso de Partido Comunista que parece encarar o COVID 19 como um inimigo da classe operária perante o qual não pode haver cedências.
Não sei se é mais triste a atitude negacionista em relação ao vírus ou a incapacidade de perceber os problemas que a realização do congresso lhe causará.
A insistência em fazerem o congresso agora e presencialmente está de acordo com a história dos países onde os partidos comunistas governaram. O partido e os seus membros estavam acima do povo e do estado gozando de privilégios inacessíveis ao povo.O PC parece não ter consciência de que esse foi o maior problema do comunismo e arrisca-se a, num momento de crise social, fazer uma triste figura que só pode acelerar a sua queda.
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