Crónica do Olheirão por Mário Pereira

O tempo da política

Uma coisa estranha nesta crise, foi o modo como de repente Portugal ficou inundado de especialistas em epidemiologia e ciências afins. Fico curioso por perceber o que andavam eles a estudar para que um vírus, que os apanhasse a todos desprevenidos.

Apareceram também uns especialistas em matemática dos vírus, com cálculos espetaculares, se calhar feitos com recurso à inteligência artificial, em meados de março, um matemático dizia que tinha feito uns cálculos segundo os quais em abril haveria 12 milhões de infetados em Portugal.

Ao mesmo tempo, que estes apareciam, desapareceram os peritos em economia, que, como os peritos em futebol, costumavam ter, nas televisões, um tempo de antena desproporcionado.

O Vírus trouxe para a ribalta quem deveria lá ter estado sempre: os políticos.

Quando as coisas apertaram os pequenos poderes, que há uns meses mostravam a sua soberba e a pretensão de controlarem o poder político, reduziram-se à sua insignificância.

Os juízes e procuradores encerraram os tribunais e fecharam-se em casa com medo do vírus e o poder económico o mais que tem feito é aparecer a pedir ajuda do estado.

De facto quando as coisas apertam o único poder que importa é o poder político.

Este é o tempo dos políticos e da política a sério.

É a política que pode ajudar-nos a passar esta crise e também será a política que pode ajudar-nos a reconstruir a vida quotidiana.

Nestes dias importa começar a pensar na que vida queremos depois da crise e por isso seria muito estimulante ouvir os políticos falar do futuro.

Aos políticos da oposição não basta dizer que apoiam o governo e fingir-se de mortos enquanto durar a crise para depois tentarem aproveitar do desgaste do governo que com o tempo vai acabar por vir à superfície.

Precisamos de escolher entre o regresso à sociedade do sec. XX ou avançar para uma sociedade do sec. XXI, com liberdade, mais solidariedade e capaz de aproveitar a internet para mudar a forma como vivemos, desde logo, permitindo a muitas pessoas trabalhar e estudar a partir de casa. Sobre isto, até agora, os partidos disseram nada.

É nestes tempos que precisamos de políticos que nos inspirem e não de políticos que se assumam apenas como bons gestores da crise.

Os políticos têm se ser capazes de nos inspirarem e de nos fazerem acreditar numa utopia e num futuro, porque valha a pena lutar.

De igual modo, às empresas, nesta crise, não basta ter bons contabilistas ou bons executores, as que vão sair-se melhor serão as que tiverem líderes capazes de imaginar o futuro.

O futuro será, também, melhor se os empresários  acreditarem que a vida em sociedade é mais do que a soma dos negócios de cada e não olharem para o estado apenas como alguém encarregado de lhes facilitar os negócios e assegurar a existência de mão de obra bem qualificada e, de preferência, barata.

Um outro tipo de especialistas que está a surgir é gente com grandes soluções para a retoma da economia depois da crise.

Ao que me parece já será muito difícil aguentarmos a quarentena sem problemas sérios se a vida não readquirir alguma normalidade no mês de maio, por isso é com alguma desconfiança que olho para os grandes pacotes de apoio à economia que estão a ser anunciados na Europa e na América.

A pergunta óbvia é: se tínhamos esses recursos todos, porque não os usámos, nomeadamente para melhorar os hospitais?

Parece-me que estamos a distribuir dinheiro que não existe ou que é fabricado. Como estamos na Páscoa isso faz-me lembrar o milagre de multiplicação dos pães de Jesus Cristo. Contudo, não me parece que a multiplicação dos euros possa acontecer assim tão facilmente como alguns acreditam, ou querem que nós acreditemos.

Abril 2020     Mário Pereira

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