Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Haja saúde e uma boa morte

As questões relacionadas com a saúde, que têm vindo à discussão pública nos últimos tempos, davam assunto para muitas crónicas, mas vamos tentar um exercício de síntese.
O ano de 2020 começou com uma série de notícias de agressões a profissionais de saúde, nomeadamente, médicos. Neste início de ano calhou-me acompanhar uma pessoa às urgências de Viseu por algumas vezes. Essa experiência permitiu-me compreender que o modo como aquele serviço lida com as pessoas é um fator que potencia vários problemas.
Logo à entrada as pessoas são recebidas por dois seguranças, escolhidos pelo tamanho, e os doentes esperam pela chamada, juntamente com as pessoas que acompanharam os doentes que estão lá dentro. Regra geral há demasiada gente para tão pouco espaço.
A regra base das urgências é que os doentes não podem entrar com um acompanhante, incluindo as pessoas incapazes de comunicarem ou de explicarem a sua situação ao médico.
Esta proibição só por si, cria um imenso stress aos doentes, que ficam sozinhos num ambiente desconhecido, e também aos acompanhantes, que se acumulam num espaço sem o mínimo de condições e sem informações sobre os seus familiares ou amigos.
Estando na situação, rapidamente, percebi que é preciso muito auto-controlo para que não ocorram incidentes e problemas em tal ambiente.
A presença de acompanhantes poderia ajudar a evitar casos de pessoas que morrem nas urgências sem assistência ou, pelo menos, os casos de pessoas que não conseguem ir à casa de banho ou ficam horas sem comer ou sem beber, porque ninguém lhe levou água ou comida.
Acresce que os atos médicos carecem do consentimento informado da pessoa ou de alguém que a represente. Não me parece que este funcionamento das urgências garanta essa condição.
Seria mais inteligente enquadrar devidamente os acompanhantes. É óbvio que os bombeiros, que passam horas e horas à porta das urgências a matar o tempo, seriam mais úteis lá dentro a ajudar os seus doentes.
Também é estanho que na “sala de espera”, onde muitas pessoas estão doentes com gripes e outras infeções, não exista um dispensador de desinfetante para as mãos.
O problema tem origem numa organização dos serviços pensada em função dos profissionais e não dos doentes. A solução passa por inverter essa lógica.
As opiniões da Ordem dos Médicos sobre a eutanásia deixaram-me curioso sobre o que pensa das condições em que as pessoas morrem em Portugal, nomeadamente da enorme quantidade de pessoas que morrem sozinhas nos hospitais, sem ninguém a seu lado?
Conheço uma pessoa, cujo marido estava moribundo num hospital, que foi posta fora por ter terminado a hora da visita. Ainda não tinha chegado a meio do caminho de casa quando lhe telefonaram a dizer que ele tinha morrido. Consideram que é isto o que deve ser feito?
Acham bem que pessoas idosas em condições de saúde terminais seja levadas para os hospitais em vez morrerem sossegadas em sua casa e na companhia dos familiares e devido apoio médico ou de enfermagem?
O que pensará a Ordem dos Médicos desta cultura, que faz com que morrer em casa seja uma coisa tão mal vista, que se alguém optar por deixar uma pessoa moribunda morrer em casa sossegada, em vez de chamar o INEM, para vá morrer ao hospital, pode ter problemas.
Reagimos tão mal à morte que hoje, por regra, as pessoas que morrem no hospital já não voltam a casa e acabam por dormir a sua última noite numa capela ou casa mortuária.
Têm sido ditas muitas coisas sobre a eutanásia nos Países Baixos (Holanda), mas nós não conseguimos compreender o modo como os holandeses lidam com a eutanásia porque também não compreendemos o modo como lidam com a morte em geral.
Na Holanda é comum as pessoas viverem os seus últimos dias e morrerem em casa acompanhadas pelo seu médico de família e por uma equipa de enfermagem, tal como é normal as pessoas serem veladas em casa e que o funeral se realize apenas 5 dias após a morte.
Passei pela experiência, inconcebível para um português, de viver uma semana numa casa com um morto no seu quarto, transformado em câmara ardente.
Mesmo para mim, que tenho algum contacto com aquela cultura, continua a ser impressionante o respeito que a sociedade holandesa tem pelas pessoas no momento da sua morte.
Mário Pereira 27 Fevereiro 2020
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