Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Espaços públicos e desigualdades

Há tempos, em Lisboa, estive num bairro onde foram realojadas muitas famílias que viviam em barracas, o qual fica perto duma zona chique e dei comigo a pensar porque razão as ruas e os espaços públicos das zonas chiques são cuidados e limpos e naquele bairro as ruas são degradadas e sujas e os terrenos envolventes são baldios onde as ervas e arbustos crescem em plena liberdade, ao ponto de podermos ver cavalos e cabras a pastar.
A argumentação mais comum dirá que é assim porque as pessoas deste e outros bairros são porcas, deixam o lixo na rua e não têm cuidado com os espaços públicos.
Acontece que nas minhas andanças por Lisboa desde 1974, vivi lá alguns anos e volto com frequência, nunca vi nenhum morador no Restelo, do Campo Grande ou da Avenida da Liberdade a cuidar dos jardins ou a limpar a rua.
Por isso a explicação para estas diferenças no aspeto dos espaços públicos não estará no cuidado das pessoas que lá moram, que em qualquer dos casos é pouco, mas no facto da Câmara Municipal cuidar de uns e dos outros não.
Poderia perguntar porque razão as ruas do bairro de realojamento e do vizinho bairro antigo são espaços nada convidativos e porque razão não há espaços para as crianças brincarem ou para os idosos se sentarem a conversar.
Dirão que é porque há tráfico de droga e até consumo, mas o que vemos são espaços acanhados e degradados sem o mínimo de condições para os idosos estarem a conversar ou para uma criança brincar.
Se os moradores do bairro e da vizinhança quiserem levar uma criança a um espaço onde possa brincar em liberdade ou a um parque infantil têm de se meter no carro e ir ao território dos finos.
Nas nossas vilas e cidades da província também é fácil perceber que o cuidado com o espaço público é muito desigual. Regra geral diminui à medida que nos afastamos do centro.
Mesmo nos espaços urbanos das nossas vilas há ruas que são aspiradas vezes sem conta e outras próximas que raramente são varridas.
Estas desigualdades, no cuidado com o espaço público têm consequências sérias que vão desde o desenvolvimento das crianças ao modo como os idosos vivem, agravando também as desigualdades no acesso à educação e ao emprego.
Eu percebo que nos municípios pobres e com áreas grandes o problema seja difícil de resolver, mas nos municípios ricos é uma opção política.
Não é por falta de dinheiro que os bairros de Lisboa onde moram os pobres, não são cuidados. Isto é um problema político e social que vai muito para lá dos partidos, pois a Câmara de Lisboa já teve presidentes do CDS, PS e do PSD e vereadores do PCP, Bloco e independentes, sem que esta realidade tenha mudado.
Tendemos a olhar as desigualdades sociais como algo abstrato e esquecemos que elas são construídas e reforçadas por situações como esta. O modo como as câmaras tratam as diferentes ruas traduz o valor que reconhecem ou não a quem lá mora.
29/07/2021

Comentários recentes