Crónica do Olheirão por Mário Pereira

O Princípio da Precaução

A gestão da pandemia é um desafio para o governo, os cientistas e as autoridades de saúde pública, que basicamente só pode ser resolvido se cada pessoa e cada organização social assumir as responsabilidades pelos seus atos e deixarmos de atribuir a responsabilidade pelas nossas decisões aos nossos pais, ao governo ou ao nosso deus.

As restrições às atividades só poderão ser minoradas se cada um de nós ao fazer as suas escolhas assumir as suas consequências.

A propósito da COVID 19,um exemplo típico são os festejos do campeonato pelos sportinguistas. A culpa do ajuntamento foi do governo, da polícia e da câmara de Lisboa, mas não foi das pessoas que, voluntariamente e contrariando as orientações do governo, se envolveram nos ajuntamentos.

Aliás, se eu for, nas próximas semanas, a um casamento para que estou convidado e a coisa correr mal a culpa vai ser do governo, que não proibiu os casamentos, mas nunca será minha…

Se cada um de nós não assumir as suas responsabilidades, as autoridades de saúde pública continuarão a recorrer ao “princípio da precaução” que faz com que o primeiro-ministro, por ter estado junto de uma pessoa positiva, tenha de ficar 10 dias em isolamento, apesar de estar vacinado com as duas doses e ter um teste negativo.

Isto não faz obviamente sentido, porque põe em causa a confiança nas vacinas e pelos imensos prejuízos na vida das pessoas e nas atividades sociais e económicas.

Para as autoridades de saúde o mais fácil é agir pelo princípio da precaução, mas na verdade estão apenas a precaver-se a si próprias contra a possibilidade de algo correr mal e alguém vir dizer que não foram suficientemente cautelosas.

A aplicação do princípio da precaução em todas as nossas atividades faria com que ninguém saísse de casa para coisa nenhuma, porque todos podemos ter um acidente ao por o pé fora e se ficarmos em casa também.

É completamente ridículo que se eu tiver estado em contacto com uma pessoa positiva e contatar as autoridades de saúde tenha de ficar em isolamento, mas se não o fizer, porque tenho um certificado digital de vacinação, nada me impede de me meter no carro ou no avião e ir de férias para Espanha.

O princípio da precaução levado ao extremo dispensava as autoridades de saúde. Por precaução as restrições aplicavam-se a todos e só seria precisa a polícia para controlar quem andasse nas ruas.

Há a tendência para as autoridades de cada setor tomarem decisões considerando apenas a sua própria posição. A grande dificuldade é tomarem decisões equilibradas considerando o princípio da precaução mas também o direito de cada pessoa a correr alguns riscos, que afinal é o que torna a vida um pouco mais interessante.

Às autoridades pede-se que equilibrem a precaução com o risco que é viver num tempo em que anda por aí uma pandemia.

15/07/2021


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