Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Muitas Américas
Nos dias que correm há dois temas que nos tocam a todos: o COVID 19 e as eleições nos Estados Unidos, sendo neste momento mais fácil escrever sobre as eleições americanas, porque estão a chegar ao fim e já temos uma ideia dos resultados, enquanto do COVID não sabemos o tempo que vai durar nem quais as consequências que poderá ter.
A vitória de Biden nos Estados Unidos é muito bem-vinda por todos os que defendem a democracia, mas, por si só, não garante a paz dentro dos Estados Unidos e ainda menos no resto do mundo.
Contudo, é importantíssimo que no lugar mais poderoso do mundo esteja uma pessoa comprometida com o cumprimento das regras e com os valores da democracia.
Em conversa com uma pessoa amiga ela dizia-me que os discursos de Tump nos comícios lhe faziam lembrar os sermões dos pastores evangélicos radicais, em que o objectivo principal é mais reforçar nos fiéis a crença de pertença a um grupo de escolhidos, do que uma análise racional dos problemas.
O exacerbar destes instintos tribais, que foram muito úteis aos nossos antepassados, é muito perigoso numa sociedade em todos somos cada vez mais interdependentes e em que a verdadeira tribo é toda a humanidade.
Os textos, que o companheiro António Bica tem vindo a publicar na Gazeta, são ilustrativos dos problemas que os grupos tribais podem causar aos membros da própria tribo e à sua convivência com as outras pessoas.
O presidente Biden tem pela frente uma tarefa gigantesca, para reduzir estes sentimentos tribais. Digo reduzir, porque eles continuarão a existir de forma mais ou memos exuberante.
As tribos são muitas e variadas, desde logo a ideia de que a América é uma tribo à parte do resto da humanidade e daí se justificarem todas as políticas isolacionistas e a negação de auxílio a outros países com mais problemas.
Os partidos Republicano e Democrata começam a constituir-se como verdadeiras tribos, que, praticamente, não cooperam na solução dos problemas do país, o que é reforçado pelo facto de só existirem estes dois partidos com dimensão nacional.
Dentro da América, olhando para os mapas eleitorais de alguns estados que compõem os Estados Unidos, vê-se, claramente, uma divisão entre os territórios rurais republicanos e as grandes cidades democratas, mesmo em estados onde Biden ganhou.
Essa divisão, uma vez que há círculos eleitorais em que a maioria das pessoas vive em pequenas cidades e aldeias, fez com que o partido democrata, apesar da vitória de Biden, tenha perdido meia dúzia de lugares na Câmara dos Representantes.
A situação nos Estados Unidos e o que tem acontecido pela Europa deveriam levar-nos a pensar no que andam a ensinar as universidades.
É estranho que um homem como Trump que mentia todos os dias e que parece não conhecer valores morais tenha a adesão de quase metade dos americanos, tal como é estranho que na Europa os movimentos populistas assentes na exploração dos medos irracionais encontrem tantos aderentes entre jovens e menos jovens com formação superior.
É crucial que as universidades revejam os seus programas de modo a ensinarem as pessoas a pensar de forma crítica e não apenas a memorizarem e repetirem “conhecimentos”.
Precisamos de debater os valores morais e filosóficos em que assenta a nossa sociedade, pois sem esse debate deixamos de ter segurança nesses mesmos valores e ficamos muito mais expostos ao risco de nos esquecermos deles em situações de tensão, o que depois nos leva a eleger lideres que sabemos não serem os melhores, mas achamos serem os mais capazes de fazerem mal a quem consideramos nossos inimigos.
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