Crónica do Olheirão por Mário Pereira

TAP ou TAPPP (Transportes aéreos pagos pelos portugueses)

A TAP sempre foi uma empresa com problemas de saúde, que a infeção do COVID 19 veio agravar. Parece que na sua longa vida terá dado lucros dois anos.

Aconteceu à TAP o mesmo que às pessoas com doenças graves que foram contaminadas, muitas tiveram de ser hospitalizadas e algumas foram parar aos cuidados intensivos.

Eu não sei se é melhor o estado meter dinheiro na TAP para que ela continue ligada às máquinas ou se teria sido preferível deixá-la ir à falência.

Contudo, gostei de ouvir um comentador, de quem não gosto, dizer, claramente, que o Estado devia ter deixado falir a TAP, porque na sua visão liberal é assim que as coisas devem funcionar.

De todo, não tenho paciência  para os grandes “especialistas” que dizem que o governo estava numa posição muito difícil e que todas as hipóteses  seriam más, mas não dizem qual, no seu entendimento, seria a menos má.

Parece que eles e elas não se querem comprometer para, daqui a alguns meses ou anos, poderem voltar com as suas sábias, mas insípidas opiniões sem que alguém os possa lembrar do que disseram nesta fase. Por certo, nem eles se lembrarão.

Em todo o mundo as empresas de transporte aéreo têm grandes problemas e mesmo as maiores da Europa e dos Estados Unidos receberam enormes quantias de dinheiro em apoios dos estados. Sem esse apoio é óbvio que a TAP nunca mais voaria.

A questão de haver uma companhia aérea portuguesa pode ter o seu valor simbólico, mas, que me lembre, nunca ouvi alguém dizer que escolheu voar na TAP, em vez de voar numa companhia estrangeira, apesar do bilhete custar mais 50 ou 100 euros.

Uma das razões da crise da TAP é a competição entre as companhias aéreas, que faz com que mesmo voando os aviões cheios e contando com apoios dos governos dos seus países, elas tenham prejuízos que têm levado várias à falência.

É giro poder comprar um bilhete barato, mas a verdade é que se não o pagamos agora acabaremos por pagá-lo mais tarde ou alguém pagará por nós.

Mesmo em tempos normais os transportes aéreos, apesar de altamente poluentes, são  financiados pelos estados sob a forma de isenções fiscais, pois os combustíveis dos aviões não pagam imposto sobre os produtos petrolíferos e os bilhetes de avião não pagam IVA. Assim, desta forma indireta quem não viaja está a pagar as viagens de quem anda de avião.

Pagando estes impostos os bilhetes de avião teriam aumentos de mais de 30%, a que deveríamos somar mais 20% para assegurar a rentabilidade da operação e a cobertura dos custos.

Assim, com isenções fiscais e injeções de capital os estados  estarão a subsidiar cerca de 50% do custo real das viagens aéreas na TAP e nas companhias estrangeiras, o que é objetivamente uma forma de subsidiar os grupos sociais mais favorecidos, que são quem mais viaja.

Há muitos bons liberais, grandes críticos dos apoios do estado a pessoas sem rendimentos, que por via destas isenções e apoios do estado embolsam, por ano, muito mais dinheiro do que recebe a larga maioria das pessoas pobres que vivem do RSI.

Hoje, não faz sentido que quem não viaja comparticipe os salários dos trabalhadores da TAP e os bilhetes dos passageiros, para que uns tenham bons salários e outros viagens baratas.

Como cidadão, estou cansado de pagar para salvar empresas portuguesas que eram indispensáveis ao país.

Talvez seja uma má comparação, mas ainda não percebi o que era melhor quando a PT era portuguesa do que é agora com a Altice.

Só para termos uma, ideia diga-se que os 1 200 milhões de euros que são precisos para manter a TAP viva é mais do que gastou a Segurança Social para pagar o layoff de mais de 100 000 trabalhadores de fevereiro a junho, e o que gastámos a salvar o BES dava um grande jeito agora para a retoma da economia.

A ideia de uma TAP portuguesa pode ser interessante para muitas pessoas que ligada a esta atividade e também para os governos e partidos da oposição, mas feitas as contas talvez não fosse má ideia os portugueses voarem em companhias financiadas por outros estados.

Mário Pereira – Julho 2020

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