Crónica do Olheirão de Mário Pereira

Coisas que já andavam por cá

A situação de isolamento em que vivemos é muito desagradável e vai ter consequências imprevisíveis. No imediato a maioria delas serão negativas, desde logo, porque muitas pessoas vão perder os seus empregos e muitos pequenos negócios não conseguirão resistir.

Contudo, todas as crises trazem oportunidades para aprendermos alguma coisa e mudarmos algo na forma como vivemos. As ferramentas para algumas dessas mudanças, possíveis e positivas, já existiam, mas só agora começaram a ser usadas em larga escala.

Alguém, finalmente, deu conta da possibilidade de uma pessoa que precise de medicação crónica não de ir ao  Centro de Saúde nem ao médico, porque pode falar com o médico através telefone  e ele enviar a receita diretamente para o telemóvel.

Esta tecnologia já estava instalada, mas só agora com a crise está a ser aproveitada em pleno. Daqui a muito pouco tempo todos os telemóveis permitirão fazer vídeo chamadas o que tornará a consulta cada vez mais segura.

É impossível contabilizar as vantagens desta medida para os serviços de saúde, nomeadamente, para os médicos de família que assim podem ter muito mais tempo para quem está doente, igualmente são incontáveis as deslocações, por vezes 10 ou 15 Km, que todos deixaremos de fazer.

As tecnologias que permitem a muitas pessoas trabalhar a partir de casa já por aqui andavam há vários anos, só que muitos dos gestores das empresas e diretores dos serviços públicos não confiavam nas pessoas para as deixarem trabalhar a partir de casa. Felizmente, aprenderam, em 8 dias, que isso é possível. Espero que não se esqueçam, logo que a crise passe.

Os hábitos de trabalho não se mudam de repente, mas agora vemos que há um imenso potencial nessa tecnologia, que permite que muitas coisas continuem a funcionar apesar das pessoas estarem cada uma em sua casa.

Mesmo em Lafões poderão ser poupadas imensas deslocações para ir fazer um trabalho que afinal pode ser feito em casa. Em Lisboa será um número brutal.

Espero que estes dias com os filhos em casa possam ter convencido muitos pais que é melhor estar com os filhos em casa mais tempo do que andar a correr para o trabalho e a enfiar os miúdos à pressa numa creche, num jardim de infância ou numa escola.

Trabalhar a partir de casa não dá para toda a gente, mas se esta possibilidade for usada em pequena escala terá um grande impacto, na qualidade de vida das pessoas e no ambiente.

A ideia de que a escola é ter os alunos todos juntos numa sala, também foi fortemente abalada pelo COVID 19. Hoje algumas escolas, incluindo universidades, já descobriram que muitas das coisas que ensinavam nas salas de aula podem ser ensinadas usando as tecnologias de comunicação que estão disponíveis.

Esta é uma oportunidade para adequar as escolas às tecnologias já existentes. Idealmente, no início do próximo ano letivo poderia ser possível que os alunos não tenham de se deslocar todos os dias à escola. No limite será possível que as aulas sejam presenciais para alguns alunos e que outros participem desde casa.

Nestes dias ouvi histórias que vão desde alunos do primeiro ciclo que  recebem no seu telemóvel os trabalhos de casa a alunos de doutoramento que passaram a ter aulas online.

Se fizermos um uso mais eficiente destas tecnologias, poderemos ter menos necessidade de viajar de carro e de avião e com isso reduzir o consumo de energia, poupando o ambiente.

Acresce que se as pessoas estiverem mais tempo em casa tenderão a fazer mais uso dos serviços de proximidade, porque podem ir mais vezes e pela necessidade de terem contactos sociais.

A crise económica, que aí está, não será resolvida apenas injetando dinheiro para que tudo volte, rapidamente, ao que era antes. Acredito que os países que apostarem nas novas formas de organização do trabalho, dos serviços públicos e da vida em geral vão sair melhor da crise. Espero que Portugal esteja entre eles.

Mário Pereira         Março 2020

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