Crónica do Olheirão de Mário Pereira

Crises

Estamos num tempo em que há muitas crises em desenvolvimento. Tínhamos o COVID, depois veio a guerra na Europa e agora a crise das urgências.

Uma das conclusões, mais vezes, retirada das notícias sobre a crise das urgências é que a ministra da saúde é a grande culpada da situação. Não conhecendo a ministra, estou à vontade para dizer que se ela tem alguma culpa é pequenina, os grandes responsáveis são, a meu ver, a Ordem dos Médicos e as Faculdades de Medicina.

Os governos são responsáveis na medida em que têm deixado estas entidades decidirem coisas como quantos cursos de medicina há e quantos alunos entram. Acresce que deixam a Ordem fazer o exame de acesso às especialidades e decidir quantas vagas abrem em cada especialidade.

Os médicos que agora estão a reformar-se começaram os seus cursos entre 1975 e 1980, anos em que entraram muitos estudantes, contudo logo que, nos anos de 1980, a Ordem dos Médicos e os catedráticos de medicina recuperaram o poder, que o 25 de Abril diminuíra, a grande preocupação foi reduzir o número de estudantes que entravam em medicina.

As condições nas faculdades poderiam não ser as melhores, mas a escolha não foi investir nas faculdades nem criar novos cursos, lembro-me como foi difícil criar novos cursos de medicina na Covilhã, em Braga ou no Algarve.

Os sucessivos governos têm levado porrada, mas estão de pés e mãos atadas, por estes interesses

Interessaria também perceber qual a razão pela qual os hospitais privados não formam médicos especialistas. Não têm condições ou não querem esse encargo?

Na prática funcionam como os clubes de futebol ricos que não gastam na formação e depois chegam aos clubes portugueses e levam os jovens que estes formaram. Reconheça-se que neste caso ainda pagam alguma coisa, o que não acontece no caso dos médicos.

A solução milagrosa muito reclamada pela direita passaria por dar mais negócios aos privados, mas há problemas que vale a pena considerar.

Enquanto os hospitais públicos e o SNS em geral funcionam numa lógica que pressupõe recursos e obrigações infinitos, o que significa disponibilidade permanente e recursos terapêuticos infinitos para todos, os hospitais, clínicas e laboratórios privados, primeiro garantem que alguém paga e depois é que tratam do caso e dentro das suas disponibilidades.

Por muito respeito que mereçam os negócios privados na saúde, prefiro ser tratado num sistema que me trata sem fazer contas, a ser tratado noutro em que o tratamento ou cirurgia só podem ser feitos depois de autorizados e garantido o pagamento, sendo, na maioria das vezes, o SNS quem autoriza e paga ou então é um funcionário da seguradora, cuja função é gastar o menos possível.

Não é honesto comparar a eficiência do serviço público com os serviços privados, porque os privados podem planear os seus atos de acordo com as suas disponibilidades pois não tem obrigações universais.

Nunca ouvimos dizer que um hospital privado deu prejuízo ou que tem listas de espera. Serão todos gestores ótimos ou o modelo de negócio está montado à medida dos seus interesses e conveniências?

Junho de 2022          Mário Pereira

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