Crónica do Olheirão de Mário Pereira

A mentira como arma política

As mentiras ou formulações distorcidas da realidade são um elemento do nosso quotidiano, presente nas nossas interações e transações e por isso também na atividade política

Tendemos a pensar que a mentira na política é uma coisa deste tempo das redes sociais, mas no tempo em que as comunicações eram feitas sob a forma de comunicados escritos com ajuda de assessores e especialistas, o poder político e militar tinha muito maior controlo sobre as mentiras que contava e o seu escrutínio era muito mais difícil e demorado.

Embora as redes sociais potenciem a difusão de muita mentira e muitos disparates, também proporcionam muito maior controlo sobre a informação e os processos de tomada de decisão. De facto também são as redes sociais que nos ajudam a desmontar muitas dessas mentiras.

Nos últimos quatro anos, quem acompanha um pouco a política americana viu imensos exemplos da utilização da mentira como arma política. O que é novo, neste caso, é a utilização deliberada e sistemática das redes sociais, pelo presidente Trump, para difundir mentiras e a sua visão distorcida da realidade, além de ameaças várias.

Muito provavelmente, alguns antigos presidentes dos Estados Unidos, se tivessem ferramentas como o Twitter, agiriam de modo semelhante ao usado por Trump. O presidente Reagan que tinha sido ator, gostava de comunicar diretamente com as pessoas e não era muito preocupado com a verdade é apenas um exemplo.

Oliver Stone e Peter Kuznick, autores do livro “A História não Contada dos Estados Unidos” publicado em Portugal pela 20|20 editora, referem algumas decisões da história dos Estados Unidos tomadas com base em mentiras, deixando bem claro que Trump pode ter sido o mais mentiroso, mas não foi o único, nem aquele cujas mentiras tiveram piores consequências.

É impressionante a lista de eventos marcantes da história dos Estados Unidos que resultaram de mentiras deliberadas, da qual tomei emprestados os exemplos que se seguem.

Em Fevereiro de 1898 os Estados Unidos declararam guerra à Espanha acusando-a de ter causado a explosão do seu navio Maine, em que morreram 254 marinheiros, quando a causa da explosão tinha sido o rebentamento das caldeiras devido ao excesso do calor.

Nas décadas de 1920 e 1930 grandes empresas americanas tinham grandes negócios na Alemanha e continuaram a cooperar em segredo com o regime nazi até 1941, quando a Alemanha já tinha ocupado a Europa e atacava a Inglaterra que era um grande aliado dos Estados Unidos

Depois da segunda guerra mundial o orçamento militar dos Estados Unidos cresceu continuamente, com a alegação de que a então União Soviética teria uma grande superioridade em número de soldados e armamento, o que nunca foi verdade.

Os Estados Unidos começaram a envolver-se no Vietname dando apoio técnico ao exército do Sul, mas em 1964 o presidente Johnson decidiu o envolvimento directo e em larga escala na guerra depois de um incidente fabricado pelos militares americanos.

Nos anos de 1980 o presidente Reagan montou um esquema de encobrimento da venda de armas aos “contras” da Nicarágua, que o Congresso tinha proibido.

A guerra do Afeganistão que se seguiu ao ataque terrorista contra as torres gémeas no 11 de Setembro de 2001 foi justificada com o apoio do Afeganistão aos atacantes. Acontece que dos cerca de 20 envolvidos nos ataques 15 eram cidadãos da Arábia Saudita e nenhum era afegão ou tinha estado no Afeganistão.

A segunda invasão do Iraque foi justificada com a mentira de que os EUA tinham provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque, operação em que Durão Barroso, então primeiro-ministro, teve uma colaboração entusiástica.

A estes casos mais famosos poderíamos juntar invasões e o apoio a golpes de estado em diversos países da América Latina onde mentiras descaradas serviram para justificar o apoio militar aos interesses das grandes empresas americanas.

Seria interessante fazer um levantamento dos eventos da nossa história em que a mentira planeada teve um papel decisivo, só para não pensarmos que a mentira como arma política é uma criação ou um exclusivo americano.

Mário Pereira Dezembro 2020

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