Crónica do Olheirão de Mário Pereira

Impaciências

Há alguns dias uma pessoa amiga dizia-me que estou a ficar muito impaciente. Sem dúvida que alguma dessa impaciência se deve aos transtornos causados nas nossas vidas pelo COVID 19

De facto, já não tenho paciência para algumas coisas.

Há algumas semanas, calhou estar com o Presidente da Câmara de Oliveira de Frades  quando lhe telefonou a Delegada de Saúde para comunicar a existência de um novo caso positivo para o COVID 19 no concelho.

O Sr. Presidente da Câmara tentou obter alguma informação mais concreta, nomeadamente em que freguesia reside essa pessoa, mas a Delegada de Saúde foi perentória em recusar dar qualquer indicação.

Foi um telefonema completamente inútil, porque é óbvio que sem o mínimo de informação nem a Câmara nem a proteção civil local podem fazer alguma coisa para ajudar a controlar um eventual surto que pudesse estar a desenvolver-se.

Esta posição da Delegada de Saúde pode ser compreendida à luz do seu dever de proteção dos dados pessoais.

O que me tira do sério é chegar a casa e nesse mesmo dia ver a televisão a mostrar imagens de lares de idosos onde havia pessoas infetadas. Aliás à hora em que escrevo está a passar uma reportagem numa aldeia alentejana onde há alguns caso positivos…

Fico curioso como é que as televisões podem mostrar  estas imagens, com autoridades de saúde a comentar, quando, segundo as regras, nem as autoridades locais deveriam ter conhecimento.

Estas situações fazem-me lembrar o segredo de justiça, que toda a gente invoca ou viola conforme  as conveniências do momento.

Outra coisa que me tira a paciência é a suspensão das consultas médicas presenciais.

Aceito que em alguns casos as consultas por telefone ou vídeo conferência possam funcionar, mas fazer disso a regra geral, é um absurdo, que iremos pagar caro em doenças que não são tratadas.

Faz sentido reforçar os cuidados e as proteções nos serviços de saúde, mas ver médicos e enfermeiros a esconderem-se, com medo de uma doença, é a última coisa que eu esperaria ver.

Os médicos têm o direito e o dever de minimizarem os riscos de contágio e proteger a sua saúde, mas isso não pode por em causa o direito das outras pessoas aos cuidados de saúde.

Também não vejo porque razão os serviços públicos não retomam os atendimentos presenciais normais, tanto mais que há umas proteções em acrílico baratas e fáceis de aplicar que permitem  criar uma separação eficiente entre o público e os funcionários.

Alguém me contava que estando num serviço púbico, onde tinha um atendimento marcado, chegaram algumas pessoas idosas, que provavelmente se tinham deslocado de uma aldeia à vila, a quem foi recusado o atendimento porque não tinham marcado por telefone ou online.

Sei que essas marcações são um pesadelo. Os telefones dos serviços quase nunca funcionam   e a marcação de um atendimento através da internet é uma operação complexa e inacessível a quem não tiver um domínio bastante razoável dessas tecnologias.

Tudo isto me irrita, porque é quem tem o poder  que define as regras que lhe convêm sem ter, minimamente, em conta os direitos dos utilizadores dos serviços nem as suas necessidades.

Também me irrita ver tanta gente a protestar de forma furiosa, porque há cães e gatos em asilos com poucas condições e não ver ninguém indignado com o facto de haver milhares de idosos a viverem em lares sem condições mínimas, muitos deles ilegais.

Só para comparar diga-se que morreram muito mais idosos em lares, vítimas de COVID 19, do que cães no incêndio de Stº Tirso.

Poderíamos acrescentar aos idosos alguns milhares de pessoas com doença mental que vivem em asilos com condições desumanas e que, com o apoio adequado, poderiam viver na sua comunidade.

Além de me faltar a paciência doí-me ver a resignação das pessoas afetadas por estas situações.

Mário Pereira   Julho de 2020

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