Crónica de uma adolescente

João Pedro Coelho

Manhã de frio. O Inverno chegou.

Ela vai para a escola vestida com uma saia e um “polo” de mangas compridas. Polo justo, saia curta, roupa moldada ao corpo.

A roupa parece insuficiente para conter a eminente explosão corporal que acompanha cada passo da Vanessa.

É esse o seu nome… Vanessa

Frequenta o sétimo ano, embora já tenha dezasseis anos.

Tem teste hoje. Não estudou. Não está preocupada.

Resiste, o mais possível, para entrar na sala de aulas.

A campainha toca e ela dirige-se, em passos lentos.

É a primeira hora. Boceja. Tem sono.

Senta-se e aguarda, ausente, que lhe seja distribuída a folha da “tortura”.

Ouve, ao longe, a professora na sua voz irritante…

O espírito abandona o seu corpo. Vagueia…

A Vanessa viaja pelo mundo, pelo mundo que não conhece.

O “balão” que a transporta leva-a a visitar mares, ilhas, praias, montanhas, planícies…como é bonito o mundo visto de balão.

Um barulho trá-la de volta à sala.

O frenesim histérico de alguns colegas que rabiscam “violentamente” a folha de teste, incomoda-a.

O cheiro intenso e desagradável a hormonas, existente na sala e que já não é o seu, leva-a a escapar-se de novo.

Regressa ao exterior.

Sonha, agora, em ser cabeleireira, manicure como a mãe ou, até mesmo, modelo.

Não precisa da escola para isso.

O tempo passa.

Vanessa é acordada por um grito da professora:

-O que se passa? Porque ainda não escreveste nada? O tempo está a terminar.

Como a Vanessa não esboça reacção, a professora continua:

-E que preparos são estes? Em pleno Inverno e vens vestida como se de Verão se tratasse. Não tens um casaco em casa?

Prefere não responder. Aprendeu que não vale a pena discutir com quem exerce a autoridade. Conhece-os bem.

Os professores na escola, a mãe e o padrasto e casa, os rufias no bairro.

Nunca mais acaba…

Só quer que o tempo do teste chegue ao fim.

Continua ausente.

Pensa no que se passará, logo à noite, em casa.

O que vai fazer de jantar?

O avô doente e acamado. Vai lavá-lo, fazer a cama, arrumar o quarto e dar-lhe de jantar.

Depois do avô jantar, provavelmente e como é hábito, tomará a sua refeição sozinha. É um dos melhores momentos do dia…Jantar em frente à TV a ver a novela.

Entretanto, o seu padrasto, tio como ele gosta de ser tratado, já terá chegado a casa, e encontrar-se-á refugiado no seu portátil. Sites de pornografia e chats preenchem-lhe o serão. Jantará quando tiver fome.

Vanessa sente-se aliviada por não jantar com ele.

Este padrasto, terceiro companheiro da mãe, é melhor que o anterior. Este não está sempre a abraçá-la. Ainda bem que tem um computador.

A Vanessa na rua gosta de mostrar os seus atributos físicos. Em casa anda desleixada. Não quer que o padrasto repare muito nela.

E, ultimamente, ele tem olhado muito

A mãe é manicure de unhas de gel. Trabalha num centro comercial e termina o trabalho por voltas das dezanove horas.

A mãe tinha quinze anos quando a Vanessa nasceu, e afirma que essa foi a razão porque nunca conseguiu realizar o sonho de ser cantora.

No fim do trabalho, a mãe frequenta clubes de Karaoke, na secreta esperança que alguém do meio artístico a veja.

Normalmente chega a casa antes da meia noite e nunca janta.

A Vanessa, diariamente, leva um chá ao avô, antes deste adormecer. É o miminho que dispensa ao avô, que retribui com um caloroso aperto de mãos e uma montanha de beijos de amor….amor de avô.

Muitas vezes, e porque está cansada, adormece antes da mãe chegar.

Quando sai de manhã, a mãe ainda dorme.

Arrumar a casa, fazer almoço e jantar, cuidar do avô, estar atenta ao padrasto e rezar para que a mãe chegue bem a casa, não lhe deixa tempo para estudar.

Se na escola ensinassem algo útil, a cortar cabelos, pôr unhas de gel ou desfilar, iria gostar de lá estar.

Assim não…

Não a preocupa o futuro. Sabe que não será médica, engenheira ou advogada.

Mas irá “virar-se”.

Hoje vai ficar acordada até a mãe chegar.

Vai-lhe pedir um casaco. Tem muito frio de manhã a caminho da escola.

Afinal, estamos no Natal e o casaco será a sua prenda.

João Pedro Coelho

Dez de 2015Redação Gazeta da Beira

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