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Quando fecho os olhos…

No final do segundo período é altura de se começar a fazer o balanço do ano, do trabalho desenvolvido e das aprendizagens. Quando trabalhamos com alunos que revelam dificuldades em ter sucesso na escola de hoje, é comum ouvirmos coisas como: “Ele não consegue”, “Não atingiu o objetivo”, “Não teve aproveitamento”. E estas palavras erguem-se como barreiras à sua volta, atribuindo à avaliação o peso da penalização e da frustração, enquanto deveria servir para identificar as áreas de melhoria e ajudar a planear o caminho a seguir.
Por outro lado, quantas e quantas vezes temos alunos que, não sendo capazes de acompanhar o currículo de língua portuguesa, por exemplo, são ótimos a estudo do meio ou a desporto? E nessas situações, o que acontece? Os alunos são pressionados para se esforçarem mais nas áreas em que têm “dificuldades”, empenhando-se e gastando o seu tempo em melhorar uma área para a qual, à partida, não têm naturalmente apetência, deixando de lado as áreas em que têm um maior sucesso.
Acabamos por ter alunos que passam a trabalhar para obterem resultados medianos a tudo, perdendo-se pelo caminho, grandes talentos, escravos da ideia de que, a escola tem de dar a todos o mesmo, da mesma forma e que todos devem atingir, em todas as áreas o mínimo.
Penso em mim própria há uns anos… Eu que sempre gostei de música, se tivesse tido a oportunidade de investir nesta área na minha infância (por exemplo, nos tempos em que – não voluntariamente – fui encaminhada para aulas de apoio a matemática, para ter a tão almejada positiva), hoje poderia trabalhar nessa área e, quem sabe, ser uma ótima profissional.
Não faria muito mais sentido que, a matemática pudesse ter sido trabalhada a partir do meu interesse inato pela música, sendo esta uma área em que a matemática é também tão necessária, aproveitando assim o meu gosto e motivação?
Estas questões levam-nos a outras reflexões, como: Estará a escola de hoje a preparar as nossas crianças para o futuro? Enquanto adultos, quantas das coisas que aprendemos na escola aplicamos no nosso dia a dia atual? Quantos dos conteúdos nos servem enquanto profissionais, enquanto cidadãos, enquanto pais e mães? Realmente não é a raiz quadrada que nos vale… sem querer ofender a operação matemática.
Mas não faria mais sentido que, nas escolas fossem trabalhadas competências como a inteligência emocional, a resiliência, a empatia, a criatividade e outras como a educação ambiental, financeira… Não deveria ser a educação integral e preocupar-se em formar Seres Humanos completos? Afinal não se forma o cérebro sem se educar o coração também.
Isto faz-me pensar… pensar e inevitavelmente fechar os olhos e imaginar… Se a escola fosse capaz de responder à diversidade? Se fosse capaz de estar atenta e identificar os dons e os talentos de cada aluno, criando respostas específicas para que cada um pudesse desenvolver-se, tendo em conta o que gosta de fazer, colocando verdadeiramente o aluno no centro do processo educativo, não teríamos adultos mais felizes e realizados? E professores mais felizes também? Não teríamos uma sociedade melhor e verdadeiramente inclusiva?
Continuo ainda a sonhar… com a certeza de que nada do que hoje existe, exista sem antes ter sido sonhado por alguém.
30/03/2023

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