CRI – ASSOL

Sou mais do que as minhas notas escolares

• Mario do Carmo Pereira

Quantas vezes ouvimos partilhas da frustração, sentida por alguns dos alunos que apoiamos, relativamente aos seus resultados académicos? Ora porque não conseguem, ora porque não entendem a utilidade de algumas disciplinas e desmotivam.

Habitualmente, sentem-se incapazes, inferiores aos outros, apresentam um autoconceito académico negativo, assumindo que apenas os conteúdos escolares lhes poderão garantir uma profissão de sucesso.

No entanto, quando procuramos explorar com eles outros domínios da sua vida, encontramos, quase sempre, diversas áreas nas quais mostram competência e empenho.

Na nossa região de atuação, é muito comum existirem crianças e jovens que se levantam mais cedo para cuidar dos animais ou para se dedicarem à agricultura antes de irem para a escola. Do mesmo modo, acompanhamos alunos que, nos tempos livres, ajudam os pais nas suas profissões, tais como a venda de fruta, outros que se dedicam à reparação de máquinas e veículos e outros até que mostram talento para a dança, para a música ou para o futebol. Outros ainda há que participam ativamente nas tarefas domésticas, aprendendo a cozinhar e a organizar a casa.

Será que estas competências valem menos do que o português ou a matemática? Serão menos importantes para o futuro destas crianças e adolescentes?

Quando lhes damos oportunidade de falar sobre estes aspetos da sua vida, notamos que grande parte deles não os valoriza, dada a forma enraizada de como o sucesso pessoal está intimamente ligado ao sucesso escolar. Além disso, estas competências não surgem espelhadas nas suas notas, reduzindo-os aos seus resultados escolares.

Também é parte do nosso trabalho promover, junto deles, a valorização destas competências que não estão relacionadas com a escola, mas que, em muitas situações, são as únicas nas quais eles se sentem capazes, valorizados, felizes e com a perceção de sucesso.

Nas conversas com estes alunos, percebemos que nem sempre há a preocupação em olhar e ver se a criança ou o adolescente sabe partilhar, se é ‘humana’, se tem amigos, se colabora nas tarefas em?casa ou se tem projetos futuros. Para muitos pais e professores, existe ainda a ideia de que o jovem pode não ter nada disto, mas se tiver 18 e 19, o futuro está garantido. Estará mesmo?

Será que estamos a dar o devido valor aquilo que existe para além da escola?

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