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A Educação em Pequenas Histórias - Até para o ano… se calhar

A Educação em Pequenas Histórias

Até para o ano… se calhar

gentle and stylish couple are having a walk in the autumn park

Comecei a trabalhar contigo em setembro de 2021.

Todas as semanas vou à escola, trabalho contigo dentro da tua sala, o que me dá grande satisfação. Sinto-me bem ali, a tua professora faz-me sentir parte integrante e não uma intrusa itinerante que só aparece por ali uma vez por semana. Estamos a fazer um trabalho conjunto. Ela põe-me a par da letra que está a ensinar e eu levo material que permita trabalhar palavras com essa letra, ou como nós chamamos, fonema. Sinto que estamos ambos a remar para o mesmo lado e que tu estás feliz com os progressos que estás a fazer. Já consegues ler algumas palavras e frases e orgulhas-te muito disso.

Pelos vistos, a matemática está a ser mais difícil, mas tu não desistes. És daqueles miúdos resilientes, que não deita a toalha ao chão. Todos os dias tentas ser um bocadinho melhor do que ontem. Admiro isso em ti e já te disse. Porque sim, estas são as coisas que não podem mesmo ficar por dizer. Também disse o mesmo à tua mãe, que ficou radiante por saber que o incentivo e ajuda que te dá em casa está a contribuir para a tua evolução e sobretudo que não deixaste que um diagnóstico de autismo definisse quem és. Ela costuma dizer que és um super menino. E és mesmo! Provavelmente não imaginas o quanto me inspiras, de verdade!

Naquele dia cheguei à escola mais leve e bem-disposta. Enchi-me de coragem, porque afinal todos dizem que ele (o vírus) ainda anda por aí, mas eu decidi arriscar. Entrei e sentei-me ao teu lado, como era habitual. Olhaste para mim, de olhos arregalados, como nunca o tinhas feito antes e disseste, tal e qual: “- Eu não conheço-te sem máscara!”.

Não consegui conter o riso, aquele que todo este tempo camuflei por detrás de uma máscara, que funcionou como barreira entre nós. Não foi nada fácil o meu trabalho de te ajudar a falar melhor, sem que pudesses ver como eu articulava os sons e tu pudesses imitar o modelo. Muitas estratégias tivemos de encontrar: imagens e vídeos a exemplificar, que partilhávamos com a mãe e com a professora. Fomos todos parceiros neste processo, em que tu estiveste sempre no centro.

Este foi um bom ano para ti e para nós. Fizemos um bom trabalho!

Despedi-me de ti, desejando-te boas férias e boa sorte. Não sei se nos voltaremos a encontrar para o ano, mas não escondo que guardo uma secreta esperança de que sim. Principalmente agora, que nos conhecemos sem máscaras.

13/07/2023


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