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Mãe, quando é que eu vou brincar?

Em conversa, questionei uma das mães presentes sobre a experiência da entrada do seu filho no 1.º ano, com cinco anos na altura. Esta pergunta surgiu com base na própria ansiedade sentida por mim, uma vez que também a minha filha era “finalista” e poderia vir a ingressar no 1.º ciclo com apenas cinco anos. Tal como eu esperava, a resposta da outra mãe inquietou-me ainda mais, uma vez que me foi dito que, durante cerca de um mês, o seu filho, chegado a casa, depois da escola, colocava sempre a mesma pergunta: “Mãe, quando é que eu vou brincar?”
O que responder a esta questão?
Esta mãe assumiu que lhe foi difícil gerir esta adaptação, embora a criança tenha conseguido atingir os objetivos académicos com sucesso. Mas será isso o mais importante? O que terá ganho esta criança? E o que terá perdido? Acabar o pré-escolar implica deixar de brincar?
Sabemos que o brincar potencia a exploração e a construção do conhecimento, facilita a assimilação das regras e dos papéis sociais, o desenvolvimento moral e a transformação de valores, assim como o pensamento. Para alguns autores, o brincar é uma forma de desenvolvimento intelectual e assume um valor terapêutico, na medida em que é capaz de preparar a criança para a vida social e para os desafios da esfera emocional.
A nossa experiência tem-nos vindo a mostrar salas de aula quase sempre iguais: crianças sentadas em filas, nas suas mesas, em frente ao professor, por longos períodos de tempo; meninos ou meninas que, por vezes, nem têm altura para lhes permitir tocar com os pés no chão; formas de ensinar iguais para tantas cabecinhas diferentes; reduzido número de experiências no exterior; um “shh” constante a sair da boca do adulto que acabaram de conhecer; regras sem fim à vista; preocupação com as crianças que em dezembro ainda não sabem ler; intervalos demasiado curtos e com pouca liberdade de movimento; materiais que se resumem a livros, cadernos e canetas…
Se olharmos para os princípios da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, está bem explicito no princípio 7.º que “a criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a atividades recreativas, que devem ser orientados para os mesmos objetivos da educação” e é função da sociedade e das autoridades públicas “esforçar-se por promover o gozo destes direitos”. Será que o fazemos?
Apesar do documento de 2017 – Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória – preconizar princípios como a adaptabilidade, a ousadia e a flexibilidade, valores como a liberdade, a curiosidade e áreas de competência como o desenvolvimento pessoal, a autonomia, o pensamento criativo e o relacionamento interpessoal, consideramos que não tem existido a valorização suficiente de estratégias pedagógicas que aliem a aprendizagem ao brincar, no sentido de alcançar estes objetivos.
Àquela criança, gostaríamos de responder que aprender e crescer podem ser sempre uma forma de brincar e que temos esperança de que a brincadeira volte a ocupar o lugar que lhe tem vindo a ser roubado no espaço escolar.
15/06/2023

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