Conferências + Igualdade em S. Pedro do Sul

• Manuela Tavares (Investigadora no CIEG e membro da direcção da UMAR)

Mês de Março – mês onde em todo o mundo se comemoram as lutas das mulheres pelos seus direitos.

Do século XVIII até aos nossos dias foram muitas as mulheres que ousaram erguer a voz, reivindicar, enfrentar instituições e proclamar que a igualdade de direitos entre mulheres e homens é uma questão de direitos humanos e de justiça social. A isto se chama feminismo, palavra mal amada e tão mal interpretada, que faz com que, ainda hoje, existam mulheres que dizem defender os direitos das mulheres, mas que não são feministas.

Os feminismos são de várias correntes, cores e matizes e neles cabem todas aquelas e todos aqueles que pensam ser necessário continuar esta luta de séculos, porque afinal, nem tudo está conquistado e, mesmo quando os direitos existem nas leis, nem sempre são aplicados.

A Câmara Municipal de S. Pedro do Sul no âmbito do Projecto Cultural em Rede 5 municípios, 5 culturas, 5 sentidos, em parceria com a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta decidiram organizar a 17 e 18 de Março as Conferências + Igualdade, no auditório o Balneário Rainha D. Amélia nas Termas de S. Pedro do Sul.

Na abertura das Conferências participaram a Senhora Secretária de Estado da Cidadania e Igualdade de Género Rosa Monteiro, a Vereadora Teresa Sobrinho da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, assim como o Presidente da Câmara Municipal Vítor Figueiredo e o Presidente da Assembleia Municipal Vítor Barros.

De destacar na comunicação da senhora Secretária de Estado algumas questões importantes para a região como medidas de intervenção adaptadas aos locais, porque “as políticas para a igualdade têm a ver com a vida concreta e não são abstracções”. Referiu, ainda, que as políticas de proximidade se conseguem também com a ligação entre ONG e autarquias, tratando-se mesmo de uma “aliança estratégica”, realçando como um bom exemplo a realização destas conferências mediante a parceria entre a Câmara Municipal e a UMAR.

Na primeira conferência sobre “Igualdade é Desenvolvimento”, afirmou-se que o desenvolvimento de um país tem de ter em conta a igualdade entre mulheres e homens, porque as assimetrias geradas com as desigualdades são excludentes e minam a coesão social e económica. Sobre este tema fez uma comunicação Manuela Tavares, investigadora no CIEG, referindo-se também à Agenda 2030 sobre Desenvolvimento Sustentável lançada pelas Nações Unidas em 2015. Cristina Amaro da Costa docente no Instituto Politécnico de Viseu, destacou a sua experiência pessoal como agrónoma, falando do papel das mulheres na agricultura e na protecção do ambiente.

Outra das conferências “Como combater a violência, o que faz falta?”, contou com a participação de pessoas com larga experiência nesta área, Ilda Afonso, directora do Centro de Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência da UMAR no Porto; Tatiana Mendes, psicóloga com tese de mestrado sobre violência sexual nas relações de intimidade e, ainda, Manuela Antunes, professora e ex-membro da CPCJ de Viseu. Ilda Afonso com mais de uma década de experiência, no atendimento e acompanhamento a mulheres vítimas de violência, mostrou como são precisas respostas intermédias caso dos apartamentos de autonomia, pois as mulheres não precisam de ir todas para casas de abrigo. Destacando a experiência da UMAR nesta área, procurou explicar que, para além das respostas no dia-a-dia, a produção de conhecimento e o activismo são fundamentais. Ao falar da violência sexual nas relações de intimidade, Tatiana Mendes realçou que a maior parte das mulheres não denunciam por vergonha, medo e desconfiança no sistema judicial. Manuela Antunes, numa intervenção muito assertiva, afirmou que nascer mulher é ainda uma carga brutal, que as leis são boas, mas os passos para as concretizar são ainda muito pequeninos. Todas as intervenientes concluíram que o que faz falta é a prevenção nas escolas e que não há idade para começar a falar destas coisas.

Sobre “Mulheres e Poder”, tema da terceira conferência, o debate com Berta Nunes, presidente da Câmara Municipal de Alfandega da Fé, Margarida Azevedo, empresária de hotelaria, Rita Ferro Rodrigues destacada apresentadora de televisão e membro da Associação Capazes e a reconhecida jornalista Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas, foi extremamente interessante. Destacam-se algumas das frases proferidas, como mensagens a reter: “Como feminista, passo os dias a desconstruir os meus preconceitos”; Ter poder é ter voz”; Todas as mulheres com poder são consideradas mulheres perigosas” (Rita FR); “Já me senti discriminada tantas vezes, mas também aprendi a resistir”; “Um exemplo vale mais que mil palavras”; “Todos os homens têm interesse em ser feministas” (Berta N); “Diferenças salariais para trabalho igual no jornalismo são de 21%”; “É preciso que mulheres treinem outras mulheres para falarem e ganharem voz”; “É preciso formar novas gerações” (Sofia B); “É importante desenhar o mundo laboral mais equilibrado, ter uma cultura democrática que contribua para as boas práticas, mas fazer diferente dá muito trabalho”. (Margarida A).

Na última conferência, “Mulheres e Artes” tivemos a participação da cantora Isabel Silvestre, da escritora Ekaterina Malginova e da pintora Vanessa Chrystie. Isabel Silvestre falou dos trabalhos e dos cantares das mulheres de Manhouce, afirmando que o cantar tem a capacidade de sublimar sentimentos, destacando, ainda, que tudo o que conseguiu foi porque teve a seu lado gente com grandes capacidades, como foi o caso do professor António Alexandrino (director musical do grupo ARS NOVA). Ekaterina Malginova atribuiu à avó o seu gosto pela literatura, começando a escrever em português e não em russo, como seria normal dadas as suas origens. “Na arte temos de reflectir o que somos”, afirmou Vanessa Chrystie, assumindo que só se sentiu feminista, quando teve de conciliar as tarefas da maternidade com o trabalho no atelier. Interromper um trabalho criativo, porque se têm que fazer outras tarefas, como o jantar, é muito penoso.

A actuação dos grupos “Vozes de Manhouce”, ARS NOVA e “Adufeiras de Idanha-a-Nova” trouxeram a estas conferências uma intervenção cultural de excelência. De referir, ainda, que colaboraram como moderadoras das conferências Maria José Coelho, Vereadora da Câmara Municipal de Mangualde, Cristina Bandeira, Coordenadora do Projecto CAMI, UMAR Viseu e Rosário Pestana, Professora e Directora do Mestrado em Música na Universidade de Aveiro.

No encerramento, a Vereadora Teresa Sobrinho principal dinamizadora e organizadora destas conferências, referiu que esta tinha sido a primeira edição e que no próximo ano, novas conferências iriam acontecer.

Contudo, as actividades deste fim-de-semana pela Igualdade em S. Pedro do Sul, não se ficaram por aqui.

No domingo, 18 de março, na aldeia de Rompecilha, foi possível constatar a riqueza dos saberes das mulheres da aldeia no Ciclo do Linho a que se seguiu um almoço em sua homenagem. De tarde, aconteceu uma importante iniciativa que tinha sido adiada, devido ao mau tempo: A homenagem às mulheres assassinadas por violência doméstica com 17 magnólias plantadas pela Câmara Municipal com uma placa alusiva. “Por cada mulher caída, uma árvore erguida”, lema da UMAR m 2017.

Foi de muita emoção ver 17 mulheres e homens a atarem a cada árvore uma fita vermelha com o nome de cada mulher que foi assassinada.

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