Concurso literário “Vouzela, um património a descobrir” premiou dois trabalhos

Sessão de entrega de prémios realizou-se no dia 30 de setembro

 

703_concursoliterario-01A galeria Leituras (In)esperadas recebeu, na passada sexta-feira, dia 30 de setembro, a sessão de entrega de prémios do concurso literário “Vouzela, um património a descobrir”, promovido pela ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões, em parceria com o Município de Vouzela, o jornal “Gazeta da Beira”, os Agrupamentos de Escolas de Vouzela (AEV), de Vouzela e Campia (AEVC) e a Escola Profissional de Vouzela (EPV).

Para além dos concorrentes, professores, familiares e amigos, marcaram presença no evento a vereadora da Cultura do Município de Vouzela, Carla Maia, e os diretores das escolas do concelho, Raquel Ferreira, José Lino Tavares e José Alberto Pereira.

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Satisfeita com a participação no concurso, a vereadora Carla Maia sublinhou a qualidade dos trabalhos apresentados. “Este é o momento para agradecermos aos concorrentes, enaltecermos a sua ousadia em participar e darmos os parabéns pelos trabalhos apresentados. É bom saber que temos pessoas atentas à nossa terra, à sua riqueza histórica, cultural e patrimonial e que, acima de tudo, a estimam e valorizam. Foi muito positivo sentir isso nos vossos textos”, salientou.

Participaram no concurso 10 trabalhos, tendo sido vencedoras Júlia Marques, estudante da Escola Profissional de Vouzela, que venceu na categoria alunos e Paula Lobo, de Oliveira de Frades, que venceu na categoria aberta à população em geral. Ambas receberam um prémio monetário de 150 euros.

Apenas foram premiados os trabalhos de texto narrativo, já que no entender do júri os trabalhos de texto lírico não apresentavam níveis de qualidade e/ou adequação às finalidades e natureza que a iniciativa literária pretendia distinguir.

Os textos vencedores estão publicados nas páginas eletrónicas dos promotores do concurso.

Carla Maia aproveitou a oportunidade para desafiar novamente a criatividade dos presentes, incentivando-os a participar na segunda edição do concurso. “Há muita gente a escrever bem e queremos que esses textos saiam da gaveta e venham a público. Por isso vamos dar continuidade a este projeto com uma segunda edição.”, adiantou.

O próximo concurso terá novamente como tema central “Vouzela, um património a descobrir” e decorrerá de 30 de outubro a 1 de abril. O certame divide-se em duas categorias, uma destinada a todos os alunos do ensino básico e secundário do concelho de Vouzela, dividindo-se em dois escalões: o primeiro para o 1º ciclo do ensino básico, 2º e 3º ciclos e o segundo para os alunos do ensino secundário, e outra aberta a todas as pessoas com idade superior a 18 anos.

Os vencedores serão conhecidos em maio, durante a realização da feira do livro “Folhas Soltas”.

Nota: Na próxima Gazeta da Beira  será publicado o segundo texto: “A Fonte da Nogueira” de Paula Lobo.

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Um dos dois textos vencedores

Um refúgio a descobrir…

• Júlia Marques, Escola Profissional de Vouzela (categoria A, texto narrativo)

Esta é a história de Joana, uma jovem de dezasseis anos, nascida na região algarvia, mais concretamente na zona de Tavira, numa pequena aldeia piscatória, Santa Luzia. A Joana tinha longos cabelos loiros, encaracolados, pele queimada e uns belíssimos olhos azuis. Por onde passava chamava a atenção, não só pela beleza física, mas pela simpatia e pelo sorriso que se abriam quando alguém a chamava. Era de uma delicadeza e de uma educação extremas que encantavam. Era feliz na terra que a viu nascer!

Mas, infelizmente, por motivos familiares, a Joana viu-se obrigada a sair da sua terra e vir para o norte de Portugal, região que lhe era completamente estranha, o que a deixava apreensiva e angustiada. Abandonar os seus amigos e o local onde desde sempre vivera não estava nos seus planos, mas a vida muda e, no seu caso, a mudança era mesmo muito grande. Habituada aos areais dourados de Ria Formosa, ao cheiro forte da maresia e ao mar azul, de águas límpidas e transparentes, dificilmente iria conseguir esquecer esse local que considerava seu. Teve dificuldade em habituar-se à ideia, mas com o apoio da sua irmã Andreia, que deixava para trás, Joana conseguiu perceber a decisão dos pais e abriu os braços ao que viria. À irmã prometeu contar as suas aventuras em terras nortenhas. Depois de se despedir dos seus amigos e da sua casa, Joana e os pais entraram no carro e fizeram-se à estrada, rumo à região de Viseu, a caminho de uma pequena vila, de seu nome Vouzela.

Vouzela apresentou-se, desde logo, como uma pequena vila, com uma paisagem bem diferente daquela a que Joana estava habituada. Era uma vila pacata, sem o bulício do sul. Mas, ali, não havia mar nem o cheiro a maresia que tanto apreciava. Triste, consumida pela saudade, demorou a aceitar esta nova vida que o destino lhe oferecia.

Joana não tinha amigos, o seu olhar era triste, e a sua forma de ser era bem diferente daquela que se lhe conhecia em Tavira. E já só pensava em regressar…

As semanas foram passando e, embora tivesse muitas saudades da sua casa, da sua irmã e dos amigos, tinha de seguir em frente, fazer novos amigos, integrar-se…

E começava a gostar desta linda vila, dona de uma riqueza paisagística sem igual. Bastava-lhe olhar em redor para descobrir toda uma beleza natural, verdejante e exuberante. Através dos amigos, que entretanto conhecera, começou a descobrir os encantos desta bela terra e decidiu, tal como tinha prometido, contar à irmã as suas aventuras. Tinha tanto para contar!

“ Minha querida Andreia, sabes que me fazes muita falta? Devias ter vindo também, não imaginas o que estás a perder! Conheci o Pedro, um brincalhão, que me tem mostrado esta bela vila e numa coisa tem razão – isto é mesmo muito lindo! Visitei a Igreja Matriz, em estilo românico, e a Ponte do Caminho de Ferro. E que vista maravilhosa! Do alto da ponte, temos uma perspetiva lindíssima do Parque 25 de Abril, com os seus belos jardins, e do rio Zela que forma um espelho de água fabuloso. Há também umas casas antigas, com brasão, uma delas é a dos Távora, muito bonita, na Rua de S. Frei Gil, o padroeiro da terra.

Que dizes, Andreia, estou a ficar uma pro na matéria, não achas? Mas há mais! Um Museu, com exposições permanentes, uma Biblioteca Municipal e muito, muito mais…E os pastéis de Vouzela? São uma verdadeira delícia, mana! Tens de vir provar!

Tenho outra coisa para te contar! Ontem conheci um rapaz…É tão giro! É mesmo o teu género, mana. Encontrei-o a ler no parque. Sim, porque ali há silêncio, tranquilidade e, sobretudo, uma paz enorme que nos envolve e relaxa. Isto é incrível, Andreia! Começo a gostar…

Amanhã, vou até à Senhora do Castelo e estou muito entusiasmada. Vou dando notícias.

Beijinho grande ao João, à Inês e ao Rodrigo.

Adoro-te, mana!”

No dia seguinte, como combinado, acompanhou o Pedro e a Mafalda, à Sra. do Castelo e ao Parque de Campismo e a um local chamado Espelho D’Água, em Vila Nova, Sacorelhe.

No alto do monte, a jovem ficou fascinada com a paisagem que se abria à sua frente.

– Meu Deus, que visão maravilhosa! É o paraíso na terra! Estou rendida! Vê-se Vouzela e os arredores e este verde…este verde…É impressionante! Obrigada, amigos.

À noite, ao jantar, eufórica, contou aos pais a ida ao Castelo.

– Pai, mãe, a vista do alto da Sra. do Castelo é magnífica! Temos de lá ir todos. Soube que também há por ali vestígios de um castro, um antigo povoado da idade do cobre e do ferro. Podemos, um dia destes, ir fazer um piquenique ou ir até às piscinas no parque de campismo. O que acham?

Os pais ouviram-na atentamente e ficaram supercontentes e muito orgulhosos da sua pequena Joana. Afinal, a sua filha começava a interessar-se pela vila onde agora viviam e isso era muito bom.

– Pai, mãe, até amanhã! Estou muito cansada. Vou deitar-me.

Joana levantou-se, deu as boas noites aos pais e foi-se deitar. A ida ao Castelo tinha sido uma grande aventura e que aventura!

Mas havia ainda muito por descobrir e muitas histórias para contar.

A história, desta vez, era doce. Era a doce história dos famosos pastéis de Vouzela que ia criar, certamente, água na boca. Joana comprou uma caixa que levou para a sobremesa. Assim que o jantar está na mesa, Anabela chama a filha e pergunta-lhe:

– Que caixa é essa que trazes na mão, filha?

– É uma surpresa, mãe. Terás de esperar até ao final do jantar.

Joana faz mistério sobre o assunto, senta-se à mesa e começa a jantar. Durante a refeição, Fernando, o pai, pergunta:

– Então, filha, qual é a história de hoje?

– Tem calma, pai! Devagar se vai ao longe. Ouçam-me com atenção e deliciem-se.

A história que vos trago hoje não é nada mais, nada menos do que a dos famosos pastéis de Vouzela, um pastel de massa folhada, recheado de doce de ovos muito típico desta região! Em aspeto são muito parecidos com os pastéis de Tentúgal, mas, em sabor, são uma missão explosiva e deliciosa. Os pastéis de Vouzela foram criados nesta região. Diz-se por aí que a confeção deste pastel é um segredo de família que passou de geração em geração. E aqui estão os famosos pastéis para provarmos!

– Parabéns à família que criou tal manjar! São muito bons, que feliz ideia!

No fim da refeição, Joana ajudou a mãe a levantar a mesa e, quando se preparava para ir dormir, a mãe entregou-lhe um envelope.

– O que é isto, mãe?

– Vê, filha, é para ti!

No envelope estava um bilhete de autocarro cujo destino era Tavira.

– Mãe, pai, muito obrigada! Adoro-vos! Vou poder voltar a Sta. Luzia, passar as férias de verão com a Andreia e matar saudades da praia e dos meus amigos.

Feliz, Joana agradeceu uma vez mais aos pais e, nessa noite, teve dificuldade em adormecer de tanta excitação. Rever a irmã e os amigos era o que ela mais desejava! E Vouzela? A Vouzela prometia voltar para continuar a descobrir esta bela vila, o seu património e as suas gentes.

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