COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré Oliveira

PARA A HISTÓRIA DO TEATRO AMADOR EM SÃO PEDRO DO SUL (parte I)

PARA A HISTÓRIA DO TEATRO AMADOR EM SÃO PEDRO DO SUL (parte I)

Na minha crónica anterior referi que, em 30 de Março de 1918, no Teatro Gil Vicente, o Grupo Cénico de São Pedro do Sul e o Orfeão apresentaram um espectáculo. Não tenho notícia de qualquer outro espectáculo teatral amador apresentado antes, mas é natural que isso tenha acontecido. Se havia um Teatro, certamente havia espectáculos. Relativamente ao Orfeão, não tenho dúvidas de que foi a primeira apresentação. Quanto ao Grupo Cénico, apenas sabemos que o ensaiador foi António Nunes Sobreiro, Chefe de Finanças do Concelho. Ignoramos quais os actores amadores sampedrenses, mas é de crer que entre eles estivesse a jovem Alda Rodrigues, uma vez que era filha do dono do Hotel em cujo rés-do-chão funcionava o Teatro Gil Vicente e porque ela vai aparecer, com o nome de Alda Borges (já casada com Manuel Borges), em vários espectáculos futuros, no anos 20 e anos 30. Deve também ter participado D. Esmeralda Correia, que irá ser actriz destacada em todos os espectáculos pelo menos até 1953.

O Teatro Gil Vicente encerrou e São Pedro do Sul ficou sem palco. O teatro amador só voltou à cena em 1927, dois anos depois da inauguração do Teatro São Pedro. A Gazeta da Beira de 30-2-2020 publicou um interessante artigo da série “Portugal é Mátria”, da autoria de Francisco de Almeida Dias, onde faz referência à inauguração do Teatro São Pedro pela Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro. Com a devida vénia, reproduzo o anúncio-programa do espectáculo inaugural que ficou perpetuado por um medalhão. O Teatro São Pedro passou a fazer parte do património cultural de São Pedro Sul. A partir dessa data, passou por ali a sociedade sampedrense, uns como actores amadores, outros como espectadores.

Mas voltemos ao espectáculo de 1927, o primeiro de actores amadores locais no novo Teatro. O jornal Povo da Beira (nº 1076, de 7 de Maio de 1927) anuncia a “RECITA DE CARIDADE EM BENEFICIO DO HOSPITAL DE NOSSA SENHORA DO AMPARO DESTA VILA / Promovido pelo Grupo Scenico e Orfeonico Sampedrense”.

 

Vejamos o PROGRAMA

 

Muita gente da minha geração e seguintes se lembrará ainda da maioria dos actores  amadores que então constituÍam personalidades destacadas da sociedade sampedrense:

ESMERALDA e DELFIM CORREIA, um casal, meus vizinhos. D. Esmeralda ensinou-me mais tarde a declamar, quando eu, com barba a despontar, participava no Saraus do Colégio da Via Sacra.

ALDA BORGES, esposa do Manuel Borges, tesoureiro da Caixa Geral de Depósitos.

GREGÓRIO MIRANDA, comerciante com estabelecimento na Praça e pai de numerosa prole.

JACINTO SOARES, proprietário da vivenda onde, mais tarde, se instalou a Escola Preparatória e hoje funciona a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo.

ANTÓNIO JOSÉ NUNES SOBREIRO, chefe de Finanças, que morava na Avenida José Vaz, na casa que, mais tarde foi adquirida por Amadeu Carvalho Homem.

AUGUSTO FRANÇA SOEIRO, filho do ensaiador.

HENRIQUE DE SOUSA PINTO, ponto, que foi Secretário da Câmara.

MARQUES GUIMARÃES, que regia o Orfeão.

Só não conheci PEDRO JOSÉ CÂNDIDO, possivelmente porque já tinha morrido. São figuras que permanecem vivas na minha memória e certamente de alguns leitores e tantas vezes nos deliciaram com a sua arte. Constituem a mais antiga geração de actores amadores sampedrenses ligados ao Teatro São Pedro.

Mas voltemos ao espectáculo de 8 de Maio de 1927. A apresentar a récita, proferiu uma conferência o Dr. Marques Loureiro, advogado e jornalista do Notícias de Viseu, que — diz o Povo da Beira de 21-6-1927 — “falou da preclarissima virtude da caridade (…) disse quadras lindissimas do nosso querido poeta Antonio Correia de Oliveira, (…) falou da Caridade e do Amparo, invocação da virgem padroeira do nosso hospital, e a tal proposito disse coisas lindas, um verdadeiro mimo”.

O Orfeão, regido pelo Dr. Marques Guimarães e constituído por 40 figuras, executou com mestria os números do programa. As duas peças de teatro foram representadas com êxito. Mas um número do programa ficou por cumprir: “Não puderam ser apreciadas as guitarradas e canções dos nossos amigos Srs. Rogério Valgode e seu filho Antonio, porque aquele se encontrava mal da garganta”.

E continua o relato: “A orquestra do Teatro, sob a hábil regencia do nosso vigario, executou um reportório primoroso (…) recebendo muitos aplausos”.

O produto líquido do espectáculo foi de 3.419$30, importância considerável para a época, até porque a casa esteve cheia e, como se lê no relato, “o preço dos bilhetes era elevado, dada a finalidade da récita”. “Bilhetes à venda na Casa Comercial do Exºmo Sr. FRADIQUE CARVALHAS”. Ainda o conheci. Era o pai do também Fradique Carvalhas que lhe sucedeu na gerência da Casa.

(Continua)

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