COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por NAZARÉ OLIVEIRA

O JOÃO MANCO

O JOÃO MANCO

Nascido nas Moitinhas, João Manco devia esta designação ao facto de ser um deficiente  motor. Só de muletas se deslocava. Paralisia infantil, quiçá de nascença. Graças aos desvelos de sua mãe, a Conceição Gaga, isso não o impediu de fazer a sua escolaridade. E tinha uma profissão: ENGRAXADOR. Toda a gente, ao falar com ele, o tratava por “João” ou “senhor João”. Mas, ao referir-se a ele para o identificar todos diziam o “João Manco”. O seu apelido devia ser Meneses, porque era irmão de António Meneses, que toda a gente conhecia por “o Artigo”, alcunha que lhe vinha da instrução primária, porque, nas aulas de gramática, via artigos na maioria das palavras.

Mas voltemos ao João Manco. Quando o conheci, já adulto, ainda se deslocava de muletas. Mais tarde — como veremos — arranjou uma cadeira-triciclo que lhe permitiu aumentar o seu raio de acção.

Saído das Moitinhas, descia a Rua Direita com a sua caixa de trabalho, expressamente confeccionada para ele: era uma caixa-carro envernizada, com quatro rodas, que lhe servia de assento quando trabalhava e onde guardava os instrumentos do ofício; presa por uma corrente que a ligava ao cinto, na parte de trás das calças, deslizava Rua Direita abaixo; os braços e as mãos eram para as muletas. Descida a rampa da Praça, abancava no passeio frente ao Café Edgard, seu habitual poiso de trabalho. Ali me atendeu variadas vezes.

Para ele, engraxar os sapatos tinha o seu ritual. No seu ofício, o João Manco era um perfeccionista. Orgulhava-se de ser o supra-sumo dos engraxadores: começava por colocar de cada lado do sapato uma pala de cartão para proteger a meia; entrava em acção a escova número um, de pêlo mais forte, para limpar o pó ou qualquer resquício de lama; a seguir, trabalhava o pincel embebido em tinta, pincelando com especial cuidado as viras do sapato; tirava da caixa a escova número dois, passava-a pela palma da mão e escovava com alma para entranhar a tinta, até que o sapato começasse a pedir pomada; então, abria a caixa adequada e passava os dedos pela graxa, como se fosse uma esteticista a tirar do boião o creme com que havia de besuntar qualquer quarentona que lutava contra o tempo à base de cosméticos, num salão de beleza. Mas estamos a falar de sapatos: e o João Manco deslizava os dedos pelo cabedal, como um namorado acariciando a sua amada (e, de certo modo, os sapatos eram a razão de ser da sua vida). Depois, entrava em acção a escova número três, a mais macia, que manejava com destreza, a dar lustro; o sapato começava a brilhar; faltava a última operação, o pano para puxar o lustro: uma mão em cada extremo de uma larga tira de um pano de linho, aperta, puxa de um lado, puxa do outro, uns estalinhos com o pano (fazia parte do ritual), toma a puxar, o cabedal geme e os sapatos brilham como um espelho. A operação está terminada e recebe o pagamento que enfia no bolso de peito do fato macaco. E venha o cliente seguinte.

Se o freguês era desconhecido ou pessoa de cerimónia, João Manco só falava quando era necessário à sua função ou respondia a alguma pergunta que lhe fizessem. Se o freguês era das suas relações, sobretudo seu amigo, a engraxadela era bem dialogada. Futebol era o tema da conversa. O João Manco era um doente do Benfica. Sofria de benfiquite aguda. Se o cliente era do Sporting, a conversa corria em tom de discussão. Sofrera muito com a hegemonia dos Leões, no tempo dos cinco violinos. Mas agora, com o Eusébio, e o Coluna, e o Zé Augusto e o Simões, cantava de galo. Aquilo é que era equipa! Campeões da Europa! Se o freguês era do Benfica e seu amigo, a conversa decorria em tom de concordância. Se o Benfica perdia, ficava doente: o culpado fora o ladrão do árbitro. E se o amigo, mais desbocado, corroborava “foi o filho da puta do árbitro”, logo o João Manco, moralista, “não metas a mãe do gajo na conversa; a senhora não tem culpa de ter um filho gatuno”. Sabia tudo sobre o Benfica: lia os jornais desportivos e ouvia os relatos.

O domingo era um dia diferente. Durante a manhã, abancado no passeio à porta do Café Edgard, ponto de convergência da sociedade masculina sampedrense, uns a fazerem horas para a missa das onze, outros que não eram homens de igrejas, não tinha mãos a medir. De tarde, dava descanso às escovas. Não havia graxa para ninguém. Ia ao Café mas não era para trabalhar. Era para ouvir o relato de futebol, feito pelo Artur Agostinho, que ele apreciava, por relatar bem apesar de ser “leão”. Tinha rádio em casa, mas o relato não era para se ouvir sozinho. Era para ser curtido com os amigos, discutido e refilado com os do clube adversário. Chegado ao Café — a caixa ficara em casa — sentava-se a uma mesa, de preferência onde houvesse benfiquistas, fazia sinal ao Zeca a pedir uma bica, e era um freguês igual a outro qualquer. Se jogava o Benfica, a coisa era séria. Lá ficavam agarrados ao rádio. Iam fazendo os seus comentários: foi penálti, não foi penálti, apreciava-se a decisão do árbitro, um cabrão para uns, um tipo sério para outros, conforme as simpatias clubísticas de cada um. Tudo de forma moderada, porque o senhor Edgard estava atento e não admitia discussões dentro do Café. E o João Manco tinha por ele especial respeito, porque o tratava bem e era um benfiquista ferrenho.

Quando conseguiu a cadeira-triciclo, a vida do João Manco mudou. Alargou o seu raio de acção e, especialmente no Verão, dividia-se entre a Vila e as Termas. A estância termal enchia-se de aquistas que procuravam, nas águas sulfurosas, alívio para os seus males. Entre eles, tornou-se figura conhecida e por muitos estimada. Na sua cadeira-triciclo, que tinha incorporada a caixa de trabalho, circulava pelos hotéis e pensões a dar à escova e a angariar mais uns cobres.

E agora demos um pouco de lugar à imaginação. Eis o cenário. Num dos bancos de jardim com o Balneário Rainha D. Amélia por fundo, está sentado um casal de meia idade. A senhora lê uma revista. O marido tem um pé no chão e o outro sobre a caixa de trabalho do João Manco, que maneja a escova, puxando o lustro ao sapato. Ao lado, o Nascimento (o Rão Kyao da época), tocando flauta. Em frente, o repucho das águas sulfurosas fumegantes.

Não sei se algum dia aconteceu esta cena ou se é imaginação minha. É muito possível que tenha acontecido. Se assim tiver sido, é pena que um pintor com os seus pincéis, ou Mestre Edgard com a sua objectiva fotográfica, não nos tenham deixado um testemunho material de um cenário com duas figuras típicas do panorama termal de meados do século passado.

O JOÃO MANCO foi um belo exemplo de como uma pessoa inteligente e voluntariosa pode superar as suas limitações físicas, tornando-se auto-suficiente.

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