COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré Oliveira
A EVA
A EVA nasceu no meu bairro da Negrosa que não era propriamente o Paraíso. Também não nasceu de uma costela de Adão e não foi mãe da humanidade. Mas foi mãe de um rancho de filhos. Tinha o seu Adão, sim, porque a Eva era casada com o JOÃO BICHO. Casada e bem casada! Com papel passado e abençoada no altar. E, quando vieram os filhos, levou-os todos à pia da água benta.
A Eva era uma mulher de estatura média. Nem alta nem baixa. Simpática, alegre, comunicativa, um autêntico andarilho, não tinha papas na língua. Não tinha emprego certo, mas nunca estava parada. Não perdia tempo no soalheiro. Sempre a cirandar. Botava a mão ao que calhava. Tanto vendia uns copos na tasca da irmã, como fazia uns biscates, uns recados, uma ajuda aqui, outra ajuda ali, e vendia coisas, às vezes à consignação. Nas romarias, Senhora da Guia, Santa Eufémia, S. Bartolomeu, Senhora da Nazaré, tinha sempre que vender: tremoços, amendoins, castanhas se era tempo delas, pirolitos e laranjadas, ajudava as doceiras a vender cavacas, abraços e beijinhos, sempre de olho na sua filha Rosa que estava uma mulherzinha e os homens começavam a olhar para ela. Até água ela vendia. No Campo da Pedreira, quando havia futebol em dias quentes, lá a víamos, sobraçando um grande cântaro de barro, com uma caneca de alumínio presa por um cordel e uma toalha no braço para limpar a caneca: “Quem quer água?”
A mãe da Eva assava e vendia castanhas. Sentada num caixote a servir de banco, sob uma das sacadas do solar das Paulas, fogareiro à frente das pernas, um caixote com brasas e outro com castanhas, estava montada a tenda para o negócio. Ali passava o dia, manejando o abano e a vender castanhas assadas: “quentes e boas”! Improvisava um cartucho afunilado, feito com uma folha de jornal, e lá saia mais um quarteirão e entravam mais uns patacos na algibeira presa à cintura, à maneira de alforge. A Eva, nas horas vagas, ajudava a mãe.
Um dia, a mãe Glória — paz à sua alma — deixou de assar castanhas. A Eva herdou-lhe o lugar, o fogareiro, o púcaro, o abano, e continuou com o negócio. Mas não era mulher para estar muitas horas sentada a dar ao abano. Andarilho, precisava de girar, falar, variar. Então, meteu a filha Rosa — que aprendera com a avó — na assadura das castanhas, enquanto ela circulava, nas suas andanças e palratório. De vez quando, vinha dar uma mão à filha e um impulso ao negócio, com o seu desembaraço: “ó freguês, quentes e boas!” Ao fim da tarde, arrumava a tralha na tasca da sua irmã Joaquina, a dois passos, perto da porta grande da Casa das Paulas.
A Eva tinha mais dois irmãos: o Fernando Porrinhas, também conhecido por “Número 1”, carrejão na estação do Vale do Vouga e tocador de caixa na Filarmónica; o outro era o António Porrinhas que cedo emigrou para o Brasil, mas vinha frequentemente à sua terra. Numa das minhas crónica, já tracei o perfil desta personagem e descrevi o espectáculo — o Entremez — que sempre apresentava. Amador teatral na capital carioca, António Porrinhas trazia a festa: nas malas, as indumentárias e as partituras das músicas; na cabeça, o espectáculo, que punha em palco com os rapazes e raparigas que ele próprio ensaiava, caracterizava e punha a cantar e a dançar, numa espécie de revista popular e gratuita, ao ar livre, numa mistura de Portugal e Brasil. E ele, um verdadeiro showman. A Eva era a sua relações públicas; ainda ele não tinha chegado, já toda a gente sabia que ele vinha, porque ela se encarregara de badalar aos quatro ventos: “Vem aí o meu irmão António, vamos ter festa”.
Já se disse que a EVA era casada com o JOÃO BICHO. Cardoso de seu apelido, poucos o saberiam. Era para toda a gente o João Bicho. Era padeiro na Padaria Estrela, a funcionar no edifício que faz esquina da Rua Serpa Pinto com a Avenida do Teatro. O senhor João Reis era o dono da padaria. Aos domingos, por volta da meia noite, acabado o cinema, eu, o Zé Dias e o Reis batíamos à porta da padaria. O pai João já sabia quem eram os fregueses: o filho e os amigos. Lá tinha o pão quente acabado de sair do forno e o pacote da manteiga. Ali nos deliciávamos com as saborosas torradas que, ainda por cima, eram de borla. Lá víamos o João Bicho, de mangas arregaçadas, a amassar o pão e a aquecer o forno. De resto, o João Bicho só sabia fazer duas coisas: fabricar o pão e fazer filhos. A primeira coisa muitas vezes o vi fazer; a segunda é que, por razões óbvias, nunca vi. Quando ele aquecia o forno da padaria sabia eu. Mas uma coisa me intrigava: quando é que ele aquecia o forno da Eva? De noite não podia ser, porque a passava na padaria; de madrugada, partia para as Termas, a empurrar o grande carro-cesto, cheio de pão; muitas vezes o vi passar de regresso, depois de mais de seis quilómetros palmilhados a butes. Após o almoço ia dormir: era a reprodução da velha história do guarda-nocturno e da mulher a dias. Ao fim da tarde a Eva desaparecia da circulação. João Bicho devia estar a acordar. Era provavelmente a hora das intimidades. Fosse ou não conforme as minhas conjecturas, certo é que os filhos iam aparecendo. Algumas vezes eu via a Eva com dois filhos: um pela mão, mais ou menos ranhoso, e outro na barriga empinada. Depois desaparecia por dois ou três dias: tinha ido aliviar-se. Parir era para ela um acto banal. Para os dois primeiros filhos, nem ao Hospital foi. Resolveu a coisa em casa com um parto artesanal: mandou um recado a Drizes, à Micas Gralheira, que os pôs cá fora em dois tempos. Depois, como já não havia Micas Gralheira, passou a ir ao Hospital a dois passos da sua casa e entregou-se às mãos da Irmã Parteira que, sob a batuta do Dr. Aloísio, fazia vir à luz os bebés. O Dr. Aloísio era um especialista na matéria. Ou não tivesse ele feito nascer os seus sete filhos!
A Eva viveu a maior parte da sua vida no Bairro da Negrosa. Ali procriou, criou os filhos, trocou novidades e discutiu com as comadres, cantou e dançou nos entremezes do irmão brasileiro.
Na segunda parte da sua vida, talvez por insistência do João Bicho, mudaram-se para o Bairro da Ponte, arrastando a sua prole. Instalaram-se numa casa na velha calçada romana que vinha da Santa Eufémia e desembocava na Ponte Nova. A rua não tinha nome. Mas passou a ter: “RUA DOS BICHOS”. Não sei se algum dia lá puseram placa. Mas também não era preciso. O nome da rua estava chancelado pela gente da Ponte e ficou para sempre, mesmo depois da morte daqueles que lhe deram origem.
Não sei como a Eva acabou os seus dias porque entretanto deixei São Pedro do Sul. Presumo que terá vivido sempre com saudade do seu Bairro da Negrosa. Penso que estará sepultada no Cemitério Antigo da Vila, onde tantas vezes a vi a pôr flores, no dia de finados.
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