COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por NAZARÉ OLIVEIRA

AS ALCUNHAS (Continuação) - II

GRUPO CORAL SACRO (da esquerda para a direita): Zeca de Moldes, Zé do Pico, Amadeu Teles (Barão da Agulha), Dr. Abel Poças, Manuel de Oliveira e António Teles.

O BARÃO-DA-AGULHA: Chamava-se Amadeu Correia Teles mas aceitava e até se ufanava da alcunha, que provinha do facto de ser proprietário e mestre de uma alfaiataria no começo da Rua Serpa Pinto. Fez escola e dali saíram bons alfaiates que vieram a estabelecer-se em vários pontos do país e até além-atlântico, caso do meu amigo de infância José Soares que veio a ser costureiro da alta sociedade no Rio de Janeiro, além de músico e director de orquestra. De quantos com o BARÃO-DA-AGULHA aprenderam a arte destacou-se o seu filho Fernando que viria a suceder-lhe como mestre, quando o pai resolveu deixar a agulha, a tesoura e a fita métrica. O Fernando herdou o cargo e a baronia. Passou a chamar-se FERNANDO BARÃO. Com especial vocação para o corte, deu à alfaiataria um toque de modernidade, com clientela de outras terras, nomeadamente de Viseu. Já começara a invasão do pronto-a-vestir, mas ainda havia muita gente que preferia o alfaiate. E o Fernando Barão também algumas vezes me assentou as costuras.

Mas voltemos ao AMADEU, BARÃO-DA-AGULHA, simplesmente BARÃO para os amigos. Além da arte de alfaiate, tinha como hobby outra arte: a música. Fazia parte das orquestras que se improvisavam para acompanhar os teatros de amadores locais: eram o Álvaro Duarte ou a Fernandinha Miranda (ao piano), o Oliveira Pinto (ao violino), um saxofone e o Amadeu Barão na bateria.

Era também um dos componentes do GRUPO CORAL SACRO, formado por seis homens com formação musical: o Zeca de Moldes, o Zé do Pico, o Amadeu Teles (Barão-da-Agulha), o Dr. Abel Poças, Manuel de Oliveira (meu pai) e António Teles. Todos cantavam, o Dr. Poças tocava órgão e o meu pai, flauta. Noutras crónicas já me referi a este Grupo que desempenhou importante papel na vida religiosa e cultural de São Pedro do Sul, nos anos 40 e 50. Nas cerimónias religiosas, especialmente da Páscoa (endoenças de quinta-feira santa, Miserere das procissões) a Igreja enchia-se. E nem todos só por motivos de fé. Havia quem fosse só para os ouvir cantar. Até o Quinato, ateu confesso, gostava de ouvir o Grupo Coral Sacro desde que não fosse dentro de uma igreja.

O MANUEL DA HORTA: Já me referi a ele numa crónica de há quatro anos sobre o Bairro da Negrosa. Mas de uma personalidade tão rica como o MANUEL DA HORTA fica sempre muito por dizer. Chamava-se Manuel da Silva e ele próprio acrescentou ao seu nome DA HORTA, por ser hortelão. Se alguém perguntasse pelo Manuel da Silva, ninguém conhecia. Se perguntassem pelo Manuel da Horta, toda a gente sabia quem era, tal a sua popularidade. Trabalhava a rogo para vários patrões. Pelo menos um dia por semana era para cultivar o quintal dos meus pais.

No princípio dos anos 40, em que por ali ainda não havia boîtes e discotecas, o Manuel da Horta animava os carnavais: uma carroça puxada por uma jumenta ornamentada com mimosas da época, transportando o Manuel da Horta a descarregar pandeirada no bombo e o Nascimento a tocar flauta; começavam a chegar os mirones e, quando o auditório era bastante, parava o bombo e a flauta e o Manuel da Horta começava o seu repertório em verso que a sua memória prodigiosa arquivara e reproduzia sem uma falha. Eram estórias picarescas, maliciosas, com a sua pitada de erotismo, intercaladas com o estribilho cantado por todos “Tira a mãozinha Maria / Tira a mãozinha João / O meu corpo se arrepia / Quando sinto a tua mão”. O estribilho pegou e transmitiu-se de geração em geração. Estórias engraçadas como a “Confissão do Vicente Marujo”, cheia de ambiguidades e trocadilhos a que o Marujo, quando o padre lhe pergunta se sabe o que é preciso para um cristão se salvar, responde: “Para um cristão se salvar / Quando cai da embarcação/ É preciso ter bom fôlego / E nadar como um cação”. E tantas outras!

As personagens centrais da pantomina eram o Manuel da Horta e a Jumenta. Ele tinha artes de a fazer dar pinotes e zurrar a propósito em certos momentos da recitação. E se a burra não respondia ao apelo, arranjava sempre um improviso jocoso, às vezes em verso, num saboroso diálogo com a besta.

O Manuel da Horta era um repentista. Era cego de um olho e fazia versos. Um dia andávamos a vindimar o quintal dos meus pais: eu, o Manuel da Horta e uma moça que trabalhava a rogo. A moça era atrevidota. Começou a entrar com ele e comparou-o a Camões. O Manuel da Horta atirou-lhe com esta: “Camões grande poeta / Foi um grande português/ Via mais só com um olho / Do que nós com todos três” . A moça soltou uma gargalhada mas continuou a mangar com ele: ” Ó sôr Manei, o senhor ainda era capaz de se atrever com uma moça como eu?» E o Manuel da Horta com um sorriso: “Se a menina me desse o que tem / E levasse o que eu tenho/ Ia ver como trabalhava o engenho *

Mas seria injusto, se deixasse apenas esta imagem do Manuel da Horta. Ele era mais do que isso. Sabia ler e escrever, mas o que lhe faltava em cultura sobrava-lhe em inteligência. Era um homem respeitado e respeitador, trabalhador e conhecedor do seu ofício, bom conversador, perspicaz, sabia utilizar a ironia. E era um homem de fé. Frequentador assíduo dos actos de culto, apanhava tudo o que ouvia ao sacerdote e lhe interessava. Quantas vezes o ouvi repetir quase na íntegra uma homilia, sem beatice e com seu comentário crítico nem sempre concordante com o sacerdote. Nunca faltava a velar os seus amigos ou vizinhos que a morte tinha levado. Várias vezes assisti a esta cena: no velório, as pessoas, depois de apresentarem as condolências, sentavam-se caladas ou a bichanar discretamente. Chegava o Manuel da Horta. Depois de uma breve meditação, tirava do bolso o seu terço e, em voz alta dizia: “Pela alma deste nosso irmão”. E começava a rezar. Momentos depois, toda a gente rezava com ele e respondia às sua jaculatórias.

Era assim o MANOEL DA HORTA: hortelão-filósofo, sério e grave nos momentos sérios, alegre e folgazão nos momentos de folgar, como no Carnaval.

O TÓNIO BADALO: Foi meu companheiro de Escola Primária. Chamava-se António Gomes, mas para nós era o Tónio Badalo e para as outras pessoas o António Badalo. Era uma alcunha de família. Havia o tio Vasco Badalo e o lugar onde moravam era conhecido por QUELHA DA BADALA, atrás da Igreja. Não era local de passagem e acabou por se tornar numa espécie de pista onde boa parte da miudagem aprendia a pedalar nas bicicletas que se alugavam na vizinha oficina do Sousa, que ficava na Casa Quinhentista, por baixo do Grémio da Lavoura. Também eu aprendi a andar de bicicleta na Quelha da Badala.

Mas voltemos ao TÓNIO BADALO da Instrução Primária. Naquele tempo, mal sabia ele que um seu antepassado tinha sido, em finais do século XIX, um valente pegador de touros. E eu também não sabia. Fiquei a sabê-lo meio século mais tarde, quando preparava o meu livro A Rainha D. Amélia em São Pedro do Sul (evocação centenária), que publiquei em 1996. A Rainha veio a tratamentos nas, então, Caldas de Lafoes, em 1894, 1895, 1896 e 1898. Entre os festejos que se faziam com a sua presença avultavam as touradas. São Pedro do Sul tinha praça de touros, situada acima da Ponte da Cerca, mais ou menos no lugar onde se construiu a cadeia. Na minha juventude ainda se chamava a esse lugar o Curro. Na imprensa da época são descritas ao pormenor as touradas em honra da Rainha. Logo no primeiro ano, uma tourada de gala em que brilharam três sampedrenses: o famoso cavaleiro Manuel Casimiro, nascido na Ponte, o Manuel Badalo e José Vinagre. A respeito do Badalo, escreve o cronista: “O Badalo, rapaz que dá por esta alcunha também fez o seu papel e vamos lá que apesar de não ir incorporado no grupo de forcados, fez uma valente pega, a melhor de todas. Pois tão grande o seu contentamento, que principiou a desbarretar-se de tal forma no redondel, que parecia que o contacto com o cornupto lhe tinha feito revoltar a mioleira” (O Commercio de Vizeu, 21 de Junho de 1894). Não sei quem era o José Vinagre, mas suponho que seria um antepassado do actual director da Farmácia Elvira Coelho. Foi isto há mais de um século. Mas voltemos ao António Badalo do meu tempo. Saído da Escola, começou a vender cautelas da lotaria e, em pouco tempo, tornou-se o cauteleiro-mor de toda a região. Era um homem sério e simpático. Meu pai era era seu cliente e jogava semanalmente com um número certo, o 16497. Número certo é uma maneira de dizer, porque foi sempre o número errado. A sorte nunca quis nada com com ele. Depois da morte do meu pai, fiquei eu com esse número, que continuou a ser o número errado, porque a sorte também nunca quis nada comigo. Normalmente, encontrávamo-nos uma vez por semana em Viseu, quando ele vinha buscar jogo à Casa da Sorte. Foram os últimos contactos com um amigo de infância!

(Continua)

28/04/2022


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