COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por Nazaré Oliveira

AS PROCISSÕES (II e III)

II – PROCISSÃO DO ENTERRO DO SENHOR

Na minha crónica de 12 de Outubro de 2017, com título “Do Sermão do Padre Carola aos sermões do Cónego Isidro”, por razões de contexto, referi-me à Procissão do Enterro e ao Sermão do Encontro. Na crónica de hoje, em razão do tema, hei-de necessariamente repetir partes do que então escrevi.

SEXTA-FEIRA SANTA! A Procissão do Enterro saía da Igreja do Convento pelas nove horas da noite. Rua Direita abaixo, à luz das tochas e ao compasso da marcha fúnebre tocada pela Filarmónica. A Praça estava repleta à espera da procissão. Na embocadura da Rua, entre o Palácio de Reriz e a Capela de Santo António, surgia a grande Cruz de madeira, despida de imagens e com uma tarja negra, erguida ao alto pelas mãos firmes do Vasco Badalo ou do Otelo de Pouves, de capas negras e pés descalços. A Cruz era um símbolo, como um grito ao céu pela grande tragédia consumada. Já se ouviam os acordes da Banda. A seguir à Cruz, as irmandades. No meio o Esquife com o Senhor morto transportado aos ombros de homens descalços, com capas negras e encapuzados. A Procissão começa a descer a rampa da Praça. Todas as atenções se centram no Esquife, atrás do qual vinha o Pároco e o andor da Senhora da Soledade, seguida pela Verónica com o santo sudário e as Três Marias com lencinho na mão para enxugar as lágrimas. A seguir vinham os anjinhos.

No Adro, num plano superior à estrada, em frente do Café Edgard, o Pregador, dissimulado entre a multidão do Adro, esperava o momento de entrar em cena. Tinham-se apagado as luzes nas casas que circundavam a Praça: palácio de Reriz, solar das Paulas, Café, Clube e outras residências; apenas a luz bruxuleante das velas. Quando o Esquife chegava frente ao Edgard, o Pregador subia ao seu púlpito do Adro, avultando entre a multidão, estendia o braço de mão aberta, num gesto teatral e trovejava em voz forte que parecia vir do Alto: “PARAI! PARAI!” Parava tudo. A Banda silenciava. O Pregador parava por momentos a fazer suspense. E, no silêncio expectante da noite, ecoava a sua voz. O tema da morte de Cristo era propício ao sentimento e fácil exploração da sensibilidade dos fiéis, especialmente das beatas, que tinham sempre umas reservas de lágrimas para as ocasiões.

A Procissão, além de uma manifestação de fé, era também espetáculo. Para alguns seria mesmo apenas espectáculo. Para outros, manifestação de fé. Na realidade, era as duas coisas. Mas espectáculo era para todos: crentes e não crentes. Cada qual privilegiava um dos aspectos, de acordo com as suas convicções. O SERMÃO DO ENCONTRO era espectacular mas curto, porque daí a pouco havia mais dentro da Igreja. O Pregador abrira com “PARAI! PARAI!” Agora fechava com “CONTINUAI! CONTINUAI!” A Filarmónica voltava à marcha fúnebre e a Procissão retomava o andamento, rumo à Igreja Matriz, onde o Senhor ficaria sepultado, Mais um sermão, agora dedicado especialmente à Mãe do Cristo morto que se despedia do Filho à beira do sepulcro. Era, uma vez mais, a tónica do sentimento a ser tocada. Acabado o sermão, a Igreja esvaziava-se e passava a ser o túmulo do Senhor. Fechada, só voltava a abrir-se no sábado, quando, pelas 11 horas, os sino tocassem a ALELUIA, anunciando a RESSURREIÇÃO.

Quanto à Procissão, voltava a formar-se, agora só com o andor de Nossa Senhora da Soledade e todas as outras personagens, Verónica, Três Marias e anjinhos, e a Filarmónica a tocar a marcha fúnebre. E lá seguia, Rua Serpa Pinto acima, a caminho do Convento. Estava encerrada a SEXTA-FEIRA SANTA!

 

III

A PROCISSÃO DO DOMINGO DE PÁSCOA

DOMINGO DE PÁSCOA! Repicam os sinos a anunciar a Ressurreição. É dia de festa para os crentes e não crentes. Porque também estes festejam a Páscoa, quando mais não fosse com um almoço de ementa especial: leitão ou cabrito, vinhos generosos, doçaria, não faltando as amêndoas da Páscoa.

Na Igreja Matriz eram as cerimónias religiosas. A meio da manhã, começava a Missa da Ressurreição. Os homens tinham envergado os melhores fatos e muitos até botavam gravata. As senhoras, a sua melhor toilette e ricas mantilhas de renda. Quando não se estriava mesmo fato novo! Era Domingo de Páscoa!

No coro da Igreja, o órgão mais uma vez obedecia às mãos do Dr. Abel Poças que dirigia a cantoria do Grupo Coral Sacro, a abrilhantar com o seu latinório a cerimónia. No altar, o Cónego Isidro proferia a homilia de circunstância, com a eloquência e o brilho de sempre.

Acabada a Missa, saia a Procissão que iria percorrer as ruas da Vila. A Banda tocava agora uma marcha compassada que traduzia a alegria da Ressurreição. Sob o pálio a cujas varas se iam revezando figuras gradas da terra, o Sacerdote erguia a Custódia com a hóstia consagrada. Ao lado, o Mário Batata, oscilando pendularmente o turíbulo. A procissão saia da Igreja, descia a pequena rampa até à estrada, contornava o Adro, Rua Serpa Pinto e Bairro de Camões, saudada pelas colgaduras às janelas e sacadas. Entrava na Igreja do Convento, onde o Cónego Isidro proferia uma breve alocução dirigida à Mãe do Cristo Ressuscitado. E a Procissão retomava a sua marcha, Rua Direita abaixo, até à Igreja Matriz. A tarde, recomeçava a Visita Pascal, iniciada no Sábado Aleluia e continuada pelo domingo e segunda-feira. E assim terminava o ciclo pascal. Para além da vivência religiosa e do espectáculo, a única coisa material que ficava eram os ramos bentos que se colocavam nas paredes interiores das casas, porque eram muito eficazes contra as trovoadas e até para os maus olhados.

30/09/2021


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