Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré Oliveira*
Mais vale o jeito do que a força
Meu avô (de pé), meu tio António (de boina), o Rei (figura típica antigo cocheiro das diligências), eu e minha irmã Delmira
*Professor
Nas minhas crónicas, várias vezes me tenho referido ao meu Avô materno: episódios, estórias, intervenções públicas, influências que em mim exerceu. Vivia num casarão ao lado da casa de meus pais. Por baixo, era a oficina com duas secções: serralharia e carpintaria. Quando ficou viúvo — era eu criança — passou a tomar as refeições em minha casa. Apenas ia dormir ao casarão. A certa altura, também eu passei a ir lá dormir para lhe fazer companhia. E, durante o dia, enquanto ele se ocupava nas suas tarefas e engenhocas, eu espiolhava-lhe as gavetas e os papéis. O meu avô era um homem polivalente com preocupações sociais e humanitárias. Lá encontrei uma série de cadernetas com o rótulo Associação Humanitária de Socorros Mútuos, de que tinha sido dirigente e talvez um dos fundadores. Serviram-me essas cadernetas para apontamentos na escola. Em 1925, um grupo de dissidentes dos Bombeiros Voluntários — José Rodrigues Pereira Nazaré (meu avô), José Nazaré Júnior (seu filho), João Jorge de Lima, Manuel Viegas de Carvalho e António Teles Júnior — havia fundado uma nova corporação de bombeiros: o CORPO VOLUNTÁRIO DE SALVAÇÃO PÚBLICA. Meu avô liderava o grupo e seu filho José Nazaré seria o comandante e alma da corporação durante mais de três décadas. Meu avô foi bombeiro activo enquanto pode e eu via entronizado numa mesa o seu capacete de bombeiro. Para além das suas actividades profissionais, o meu avô tinha jeito para tudo. Sem ser agricultor, cultivava o seu pequeno quintal. Era um artista a podar videiras e a sulfatar. Nós os dois fazíamos a vindima, pisávamos o vinho num pequeno lagar de madeira por ele construído e metíamos o vinho no pipo. Com ele fui pela primeira vez à Feira Velha comprar sementes de cebolo e couves para plantar.
Sem ser magarefe, matava, desmanchava e salgava porcos como um profissional. Eu acompanhava-o sempre nas matanças em casa de familiares e de alguns amigos. Na minha crónica “O Porco” já descrevi ao pormenor essa operação. Assisti a tantas matanças que já me sentia capaz de matar um porco, se para isso tivesse força e coragem.
Boa parte da minha infância foi passada na oficina, a dar ao fole e a carpinteirar. Adorava fazer piões ao torno. Dos trabalhos que ali se efectuavam, um dos mais importantes e a que gostava de assistir era a ferração das rodas dos carros de bois: faziam-se os aros de ferro, de perímetro ligeiramente inferior ao das rodas; os aros eram aquecidos na forja até ficarem dilatados e, quando estavam ao rubro, eram pegados por grandes tenazes e enfiados nas rodas que estavam no chão; imediatamente era regados, para provocar a contracção que os apertava contra a roda a que era aparafusados. Era uma operação complicada que requeria a intervenção de três a quatro homens. Eu limitava-me a dar ao fole e assistir à distância. O meu tio António era especialista nesta operação. Outra especialidade do meu avô era fazer portões de ferro. Em trabalhos mais simples, o meu avô ia apelando para a minha participação, talvez na esperança de que eu viesse a ser seu continuador. E eu até tinha jeito e gostava. Mas fui para os estudos e adeus oficina. Entretanto, o meu tio António, que também era meu padrinho, deixava a serralharia e ingressava no Tribunal como oficial de diligências. Ficou por toda a gente mais conhecido como Regente da Filarmónica Harmonia, até à sua morte.
Meu avô ficou sozinho e passou a limitar-se a uns biscates. Tinha engenho e era um homem de espírito. Tinha como habilitação a instrução primária. Mas tinha a escola da Vida. Lia, escrevia e falava bem, argumentava com argúcia e às vezes com ironia. Tinha a sua filosofia e as suas máximas: um dia, estava eu, entrado na adolescência, a tentar abrir uma porta que não estava pelos ajustes e resistia aos meus esforços. Eu bem metia a chave, tentava rodá-la, virava ao contrário, empurrava, tomava a tentar, mas o raio da porta não se deixava convencer, como se atrás dela estivesse um tesouro. Lembrei-me do Ali-Babá e dos 40 ladrões. E, como eu não tinha o dom do “Abre-te Sésamo”, estava prestes a desistir, quando surgiu o meu avô: — Que estás a fazer? Dei-lhe conta das minhas tentativas frustradas. E ele: — Dá cá a chave!
Meteu-a na porta, deu-lhe um jeitinho e a porta abriu. E, antes que eu lhe pedisse qualquer explicação, logo ali me presenteou com a moralidade da história: — Nunca te esqueças disto: “HÁ DUAS COISAS PARA AS QUAIS MAIS VALE O JEITO DO QUE A FORÇA: PARA ABRIR PORTAS E PARA LIDAR COM MULHERES”!
Para abrir portas, estava elucidado. Para lidar com mulheres, a vida se encarregou de me mostrar que o meu avô tinha razão.
24/06/2021

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