Coisas e Gente da Minha Terra por Nazaré Oliveira
Espinho — Praia dos sampedrenses (2ª parte)
O autor desta crónica com a mulher e as filhas, em Agosto de 1965
Na sequência da minha crónica anterior, concluo as minhas recordações sobre a presença dos sampedrenses na praia de Espinho.
Ao domingo ia-se à Missa na capelinha da Senhora da Ajuda ou na Igreja Matriz. A abarrotar de fiéis, a Capela era pequena para tanta gente. Quem não fosse cedo ficava fora de portas a ouvir Missa pela transmissão sonora. A Senhora da Ajuda estava no coração dos espinhenses, venerada por todos, especialmente pelos pescadores, que, nas suas andanças pelo mar, a invocavam, sobretudo nos momentos de aflição. A sua festa começava a ser preparada nos fins de Agosto e realizava-se em princípios de Setembro. Era festa rija. Além da parte religiosa, com procissão solene e andores que desfilavam pelas ruas geométricas de Espinho, havia romaria, com barracas de venda de produtos variados: muita louça de barro, artefactos artesanais, brinquedos e divertimentos, onde não faltava o carrocel.
A tarde de praia de domingo era diferente, com a invasão de gente que chegava nos comboios e excursões. Havia quem trocasse a barraca da praia pela esplanada do café, piscina, rinque de patinagem, situado junto ao mar, onde às vezes se realizavam jogos hóquei ou os virtuosos do patim, entre os quais os sampedrenses irmãos Abranches, exibiam as suas habilidades.
À segunda-feira, a praia também tinha menos movimento. Era a FEIRA DE ESPINHO, uma das mais importantes do país. Ali vinham vendedores de todos os quadrantes com os produtos mais diversos. A Feira ficava no topo das ruas perpendiculares ao mar, num espaço extenso junto aos Paços do Concelho. Tudo estava geometricamente ordenado por zonas: fruta, carnes, peixes, legumes, vinhos e outras bebidas, vestuário e panos variados, chapéus, rádios, cassetes e relógios de contrabando, vendidos pelos ciganos e marroquinos. E tantas outras coisas. Ali nada faltava. Toda a gente ia à Feira.
Todos as noites, enchia-se a Avenida 8. Era o PICADEIRO. Ali caía gente de todo o lado: os que estavam a fazer praia, gente das terras vizinhas e muita do Porto. A estes duas coisas os motivavam: o Picadeiro e o Casino com a atracção do jogo. Da parte de cima da Avenida 8 ficava a linha férrea, onde a toda a hora passavam comboios (o Flecha, o Rápido e os compridos comboios de mercadorias). Na parte de baixo, os cafés com as esplanadas, os hotéis, o casino e algumas residências.
A partir das 10 horas da noite, a Avenida 8 era um mar de gente. Mas não era uma multidão desordenada. Os próprios passeantes, espontaneamente e sem que resultasse de qualquer acordo, organizavam-se. Era como se dois rios corressem paralelos e em sentidos contrários sem que as águas se misturassem: do lado do mar, a corrente de passeantes de norte para sul; do lado da linha, a corrente de sul para norte. Nos limites do Picadeiro, como num sistema de vasos comunicantes, as pessoas passavam de uma corrente para:a outra de sentido inverso. E não era preciso sinaleiro. Tudo certinho. Aquele rodízio, dizíamos nós, era como bois à volta do poço a puxarem à nora.
É claro que os trajes ligeiros tinham ficado em casa. O Picadeiro não era só lugar de passeio e conversa. Era também local de exibição. As senhoras alindavam-se com as suas toilettes, cosméticos e perfumes. Os homens vestiam os seus fatos completos. Alguns punham gravata. Até porque às vezes estava fresco. Estou a lembrar-me de duas loiraças que vinham do Porto exibir-se no Picadeiro de Espinho, com o interesse de alguns homens e o olhar de soslaio das mulheres, ciumentas da sua beleza e às vezes não só. O Jaime Aníbal, que era descarado e atrevido, uma noite dirigiu-lhes uns piropos. Elas responderam-lhe apenas com um olhar que queria dizer: “cresce e aparece”.
Espinho tinha Praça de Touros. Foi ali que assisti à minha primeira e única tourada. Meu tio António Nazaré, o homem da música, então oficial de diligências no Tribunal, e o jovem Manuel Barros Mouro que iniciava a sua brilhante carreira de funcionário judicial, vieram ao Porto tratar de um problema oficial. No regresso, vieram por Espinho e almoçaram em minha casa. Minha é um modo de dizer, porque era alugada. Meu tio regressou a São Pedro, mas o Manel, mais velho do que eu quatro anos, ficou a passar o fim de semana. No domingo havia tourada. O Barros Mouro era um aficionado. Foi e levou-me com ele. Lá vimos tourear os cavaleiros Simão da Veiga e Joao Núncio e as faenas do Manuel dos Santos. O meu amigo vibrou, Eu nem por isso. E nunca mais fui aos toiros.
O quadro que nestas duas crónicas acabo de traçar, sobre os sampedrense em Espinho, reporta-se ao ano de 1944. Nos anos seguintes da minha juventude, continuei a ir. E muitos sampedrenses também. Depois, já casado, Espinho continuou a ser a minha praia. Só faltei em 1959. Minha primeira filha tinha um ano. Por influência do Dr. Silvestre, fomos com ele e a jovem irmã, Isabel, para a Figueira da Foz, onde alugámos uma casa em comum. Mal diríamos nós que estava ali a futura Voz de Manhouce, Isabel Silvestre, que havia de encantar Portugal, o Brasil e outros países por onde tem andado a trinar.
Não gostei da Figueira da Foz e, nos anos seguintes, voltei a Espinho. Os sampedrenses já não eram tantos, o Algarve e outras praias foram absorvendo alguns, mas a maioria continuava a preferir esta praia. Entre eles a família do Prof. Tavares, de Carvalhais, o homem que deu a conhecer o Castro da Cárcoda. Fomos companheiros de praia durante vários anos. Dois meses antes, vínhamos a Espinho alugar casa e duas barracas pegadas. Em 1 de Agosto, fazíamos a viajem juntos. Depois, era um mês de convívio: as mães à conversa nas barracas; as filhas a brincarem na areia ou a tomarem banho; eu e o Prof. Tavares, além de amigos, tínhamos afinidades culturais e conversávamos ou dávamos grandes passeios pela praia e ruas de Espinho. Muitas vezes, aparecia na nossa barraca o Inspector Mouro, de Vila Maior mas com uma quinta e residência em Drizes. Mais velho do que nós, tinha sido director escolar distrital e era um bom conversador. Um dia apareceu mais um: o José Fernandes de Almeida, ajudante da Conservatória do Registo Predial e ponto dos teatros amadores. Eram quatro sampedrenses a cavaquear na praia.
Entretanto, as nossas duas filhas foram crescendo, tiraram os seus cursos, o Prof. Tavares adquiriu casa no Algarve e eu e a minha mulher continuámos a ir para Espinho, sozinhos e com a visita das nossas filhas. Até que, um dia, quando nos preparávamos para mais um ano, a fatalidade deixou-me só. Já lá vão quase trinta anos. Não obstante os convites insistentes de um casal amigo, os Rodrigues, que ali têm casa, nunca mais voltei a Espinho.
Ed. 802 (23/03/2021)

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