COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré Oliveira

A QUESTÃO DOS MÉDICOS

Na minha crónica de 28 de Abril de 2018, a propósito do perfil do Dr. Abel Poças, já aflorei este assunto, incluindo então a primeira quadra de uma paródia humorística da sua autoria e que a esta questão dizia respeito. Não a publiquei na totalidade, porque já não a tinha de memória. Mão amiga, ao ler a minha crónica, enviou-me, na íntegra, a versalhada do Dr. Abel Poças.

O caso dos médicos deu que falar, pelo que merece um tratamento mais desenvolvido.

Na segunda metade da década de 40, a Câmara de São Pedro do Sul foi presidida pelo Dr. Abel Poças de Figueiredo. No dia 1 de Julho de 1950, ainda ele me deu posse do cargo do cargo de Proposto do Tesoureiro Municipal, que desempenhei episodicamente, nos impedimentos do titular.

Pouco mais tempo duraria a presidência do Dr. Poças. Para o substituir foi nomeado o Dr. Sales Loureiro, há pouco tempo radicado em São Pedro do Sul, com a fundação do Colégio, em 1949. Naquele tempo, não havia eleições autárquicas. Num dia se exonerava um presidente e, no dia seguinte, se nomeava outro. E o Dr. Sales Loureiro tomou posse de imediato, ainda em 1950, tendo como vereadores: Prof. Manuel Almeida Tavares (Carvalhais), João Fernandes Cruz (Sul), Arnaldo Lino Santos (Termas) e Armando Soares (Vila).

À boa maneira portuguesa, os que saíram e os que entraram não ficaram a puxar todos para o mesmo lado, embora, a nível nacional, todos estivessem com a situação política vigente (União Nacional). Se assim não fosse, também não teriam passado por aqueles cargos. Mas, a nível local, se quiséssemos falar de partidos, havia dois: o Partido da Câmara Velha, e o Partido da Câmara Nova. Ambos tinham os seus apoiantes, embora alguns até fossem do reviralho a nível nacional. Mas isso era outra conversa.

Entre as várias quezílias dos primeiros tempos, a QUESTÃO DO MÉDICOS teve lugar de destaque. A nova Câmara pôs a concurso o lugar de Médico Municipal que, por inerência, viria a ser o Subdelegado de Saúde. Nove médicos se perfilaram como candidatos ao lugar: o Dr. Pinho Bandeira que, em 1947, tinha iniciado a sua actividade clínica em São Pedro do Sul, o Dr. Leitão de Castro, com residência e consultório em Santa Cruz da Trapa, e mais sete médicos de fora. Gerou-se polémica. Tomaram-se partidos. Apoios e pressões daqui, apoios e pressões dali, politizou-se o caso que se tornou numa história de vila, discutida à mesa do Café, na praça pública e até em conversas de família, como se estivesse em causa um problema de interesse nacional, talvez porque, a esse nível, em matéria de escolhas políticas, não havia muito que discutir.

O Dr. Poças encabeçava a oposição à Câmara Nova. No seu tempo de estudante em Coimbra, fora uma figura popular entre a academia, pelo seu cavaquinho e pela sua veia de poeta satírico. O escritor João Falcato, seu antigo condiscípulo, no seu livro Palácios Confusos, escrito depois da morte do Dr. Poças, dedica-lhe um capítulo, onde relata a história de uma serenata dedicada a umas meninas brasileiras, em que o jovem académico sampedrense foi protagonista: “quando a noite desse dia chegou, convocámos à pressa o Abel Poças de Figueiredo e o seu cavaquinho para uma serenata. Isto não ofereceu quaisquer dificuldades pois ele e a sua gordura e a sua bondade estavam sempre desejosos desse pretexto. (…) Chegados em frente da porta das musas, o Abel Poças de Figueiredo avançou, fez trabalhar o cavaquinho e zás, logo de chofre: ‘O amor quando aparece /Dizem que faz maravilhas /Eu nunca vi que fizesse/Mais do que filhos e filhas’. Mal ele tinha acabado de terminar o verso, e, dedilhando enlevado no cavaquinho, nada ouvia a não ser a poesia da sua música, a porta abriu-se sorrateiramente. O pai brasileiro, iracundo, de bengala em riste, apanhando o Poças desprevenido, descarregou-lhe duas bengaladas que desfizeram o cavaquinho e abriram brecha na cabeça do trovador.” E o estudante Poças deu às de vila-diogo, sobraçando um cavaquinho-escavacado.

Terminado o curso de Direito, com o seu cavaquinho restaurado, voltou para a sua terra, com a sua gordura e sua bonomia. Passou a ser o Dr. Abel Poças e, para além de outros cargos e intervenções na vida artística e cultural de São Pedro do Sul, Presidente da Camara até finais de 1950. Mas a sua veia poética e satírica não se esgotou em* Coimbra. Agarrou a QUESTÃO DOS MÉDICOS e parodiou-a na seguinte versalhada:

Dona Câmara de São Pedro

Nove médicos mandou vir;

Está farta de dar puxos,

Não há meio de parir.

 

Se o menino é António,

O parto é bem desejado.

Mete latim e sermão

Faz o Cónego o baptizado.

 

Pedra Azul na caldeirinha,

Bem o sabe toda a gente,

Veste o Armando a opa,

Toma a cruz o Presidente.

 

Há então grande banquete

E é comido o Leitão;

Também assiste um de Nelas,

Para ajudar o irmão.

 

Se o menino é José,

E é de Castro Leitão,

Estoira logo isto tudo

Com os gases do Feijão.

 

Então adeus, ó vindima,

Teixeira não fica em cima,

Não é rei da traquitana;

Acabou a sua treta

E vai tudo prá pantana.

 

E o Poças barrigudo,

A olhar pra isto tudo,

Diz-lhes com certa piada:

“Eu cá estou no meu posto,

Pois nunca mudei de rosto!”

E num ar de despedida,

Vai-lhes acenando então

E com uma gargalhada,

Mostra-lhes a mão fechada.

 

As pessoas daquela época facilmente identificam as personagens. Para as mais novas: o António era o Dr. Pinho Bandeira; o cónego era o Cónego Isidro, pároco da freguesia; o Pedra Azul era o Dr. José Augusto Almeida, então Presidente da União Nacional; o Armando era o Soares, vereador; o Leitão era o médico de Santa Cruz da Trapa e candidato; o Dr. Feijão era médico e sogro do Dr. Leitão; o Teixeira era o Dr. Marques Teixeira, que foi deputado e Governador Civil.

Pouco tempo depois, o impasse da Questão dos Médicos foi resolvido a favor do Dr. Pinho Bandeira. E o Concelho até ficou bem servido. Filho da terra, o Dr. Pinho Bandeira serviu-o com competência profissional e zelo que foi muito além da sua função de médico, durante mais de meio século. Um dia lhe dedicarei uma crónica!

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