Coisas e Gente da Minha Terra por Nazaré Oliveira
Um domingo sampedrense em meados do século XX — Continuação (2ª parte)
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Um domingo sampedrense em meados do século XX — Continuação (2ª parte)
A tarde era diferente. Se havia futebol na Pedreira, os amantes da bola lá estavam caídos. Mas o Edgard continuava a ser ponto de encontro. Após o almoço, voltava a encher-se, mas o panorama era diferente. O Café aburguesava-se com alguns casais da elite da sociedade sampedrense. A presença feminina era uma novidade recente. Algumas senhoras acompanhavam o marido e tomavam também a sua bica ou o seu carioca. Formavam mesa, em tertúlia: o Dr. Pinho Bandeira e a D. Conceição, o Dr. Abílio e a D. Maria Elisa, o Fradique Carvalhas e a D. Maria Rita, o António Silva e a D. Ascensão, o Gastão Carvalhas e a D. Olímpia, o Álvaro Duarte e a D. Aurora, o Edgard e a D. Lídia. Falava-se de tudo menos de política. Na hoste feminina, pontificava a D. Conceição Bandeira que estilhaçara alguns tabus relativos à mulher; na masculina, a inteligência brilhante e a palavra certa do notável jurista Dr. Abílio Tavares.
Noutra mesa, o Luciano, ajudante do Notário, e o Dr. Tavares, olhos no tabuleiro do xadrez, disputavam a eterna partida em busca do xeque-mate, tendo como mirone o teórico Dr. Arnaldo Guimarães. Mais além, o Dionísio Vila Maior, cabelo branco, lacinho de peito e o seu ar de senador romano, toma o seu café e medita, talvez no artigo que iria escrever para o próximo número da Tribuna. Chega o Abel Rocha, careca luzidia, com o seu sorriso e loquacidade habitual, senta-se na mesa do Dionísio, interrompe-lhe a meditação e lá ficam a conversar sobre o programa das Festas da Vila de que eram os principais obreiros. Entretanto, chega um grupo de amigos bem dispostos e palradores: o Gamaliel lança a sua habitual e abrangente saudação “salve”, o janota Prof. Virgílio com o seu ar de galã, o Augusto “Governador Civil de Baiões” e o Reis, dependurado no seu charuto. Pouco se demoraram. Tomaram a bica, mais umas lérias e desandaram. O Reis, que era dirigente do Sampedrense, foi para o Campo da Pedreira; os outros para o Clube dar umas caramboladas no bilhar, enquanto o Prof. Virgílio e o Augusto esperavam os parceiros para a tarde domingueira de póquer.
Ao Café, chega o Cabral, funcionário da Câmara. Pelava-se por ser o porta-voz de novidades. E logo os amigos: “ó Cabral, conta lá as últimas”. E ele despejava o saco. Coitado do Cabral! Teve morte trágica: juntamente com o Novais, morreu carbonizado num desastre de automóvel!
O Café Edgard era o barómetro social da terra, com o Zeca e o António, sempre solícitos, atendendo ao balcão ou circulando de mesa em mesa. Nas mais afastadas, jogava-se o dominó e as damas e cacarejavam-se, de vez em quando, gargalhadas surdas.
Pelas 3 horas, o ambiente mudava. A elite social debandava. Era o hora do futebol. Só ficavam os doentes da bola, a ouvir o relato. Entre eles o João Manco que ficava a mastigar todas as peripécias do jogo e a chamar gatuno ao árbitro, quando as coisas não corriam bem para o Benfica.
À noite, era o cinema que o António Zé e o Chico Barros teimavam em não deixar morrer. Uma hora antes, o altifalante do Cine-Teatro transmitia música. O público ia chegando e distribuía-se pela plateia, frisas, geral, camarotes e galerias, com o Ronca a controlar tudo. No cubículo com a velha máquina de projecção, o Lino, acolitado pelo Tim Chapeia, preparava a engrenagem. Se era uma coboiada, um filme de piratas ou de espadachins, predominava o público masculino. Se era um filme romântico a destilar amor e ciúme, abundava o público feminino. Às vezes, a meio de uma cena, quando o Gary Cooper corria os vilões à bala e ao sopapo ou o Clark Gable e a parceira se colavam num beijo demorado, partia a fita. Projecção interrompida, enquanto o Lino colava a película e rebobinava recuando um pouco. Recomeçava a projecção no início da cena e a pancadaria ou o beijo interrompido.
E assim se passava um domingo em São Pedro do Sul, em meados do século XX.
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