COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por Nazaré de Oliveira

Os Irmãos Maravilhas

Não eram sampedrenses. Naturais de Penude, para os lados de Lamego, eram PELEIROS. Vinham periodicamente a São Pedro do Sul. onde se instalavam, durante algum tempo. Aboletavam-se na Negrosa, numa loja pertencente ao prédio onde morava a mãe do Dr. Leitão, próximo da minha casa. Durante algum tempo, eram meus vizinhos. Anunciavam a sua chegada com o seu grito de guerra: “Cá estão os Maravilhas”; e a sua lógica: “uma coisa é uma coisa, outra coisa uma coisita”. Nunca percebi a tautologia, mas não há dúvida de que era uma lógica “maravilhosa”, uma vez que era dos Maravilhas.

Da Negrosa, partiam para os seus périplos pelas aldeias do Concelho. Manhã cedo,” ala que se faz tarde”, lá iam esquadrinhar todos os lugarejos, na compra de peles. Também compravam cobre, mas peles de cabrito e de coelho eram o seu negócio. Regressavam ao cair do dia, com os fardos às costas e o bucho cheio de vinho. Conheciam todas as tascas da região.

Recolhiam-se ao seu tugúrio, onde o ar chegava por favor e os raios de luz filtrados pelas teias de aranha. Lá dormiam, com a mercadoria a servir de travesseiro e cobertor, a cozer a carraspana, entre o fedor das peles e os vapores do álcool. No dia seguinte, abalavam de novo, a bater outras aldeias, e tudo se repetia.

Ao domingo, não havia negócio. E não era para irem à missa, “isso era coisa de beatas”. Era para uma almoçarada no Palmilhante: “era preciso escorar o estômago”. E, para isso, não havia melhor que o Palmilhante, que até era um dos seu habituais fornecedores de peles de cabrito.

Os Maravilhas inicialmente eram dois, mas logo passaram a ser três com a vinda do mais novo.

JAQUIM MARAVILHAS era o mais velho. Era o chefe do clã. Alto, magro, esgalgado, todo ossos, voz gosmenta e arrastada, bigodes à mosqueteiro, cigarro ao canto da boca, dedos envernizados da nicotina, assumia ares de comando. As estaturas correspondiam às idades. O do meio era o mais salamurdo, calado, macambúzio, sorriso sorna, guedelhudo, mais entroncado, sobre pernas de alicate. O mais novo, pequenito, um meio-alqueire, de bigodinho rufião, um ar chibante e caminhar de faia bazófia, gabarola, como se quisesse, com as suas farroncas, compensar o que lhe faltava em estatura, sorriso matreiro capaz de a pregar pela calada.

Quando estavam com os azeites, discutiam entre si, bacorejavam impropérios e ameaçavam partir-se o focinho uns aos outros. Mas ai de quem se metesse com eles. A voz do sangue falava mais alto. Eram capazes de dar a vida uns pelos outros. Alguém lhes tinha ensinado a divisa dos mosqueteiros: “um por todos e todos por um”. Lá brigas entre eles, ninguém tinha nada com isso. Eram questões de família. Eram gente séria e não admitiam que lhes faltassem ao respeito ou borrassem o nome da família. Estavam sempre de peito feito para o defender. Quando estavam separados, se alguém incomodasse um deles, repenicava uma assobiadela e logo os outros dois saltavam como uma mola em sua defesa.

Várias vezes os via sentados à porta da loja que lhes servia de camarata, a riparem as peles, com a navalhita que tanto servia para esfolar um cabrito como para furar o coiro a um indígena que lhes faltasse ao respeito. Ao mesmo tempo, iam cortando umas rodelas de chouriço ou umas lascas de presunto (belo presunto de Lamego!) que mastigavam com broa e regavam com uns copos na tasca fronteira. A navalhita era o seu instrumento multiusos: ferramenta de trabalho, talher e arma de defesa.

Reunida a mercadoria suficiente, enfardavam as peles e regressavam a penates. Lá iam eles, fardos às costas, para a camioneta dos Guedes, rumo a Lamego, onde transaccionavam as peles.

Durante algum tempo não apareciam: outros rumos, outras andanças. Depois, voltavam a São Pedro do Sul e tudo se repetia.

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