Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré de Oliveira
AS BEATAS

Noutros tempos, as beatas faziam parte imprescindível da vida paroquial. Eram as muletas dos párocos. Estou a reportar-me principalmente aos meus tempo de catequese, finais dos anos 30 e princípios dos anos 40, os tempos do Padre João Rodrigues Pereira que toda gente tratava por “O Senhor Vigário”. As beatas pululavam como cogumelos.
Não perdiam a missinha diária, uma novena, o terço diário no mês de Maria ou uma procissão. Deviam ter muitos pecados, a avaliar pela frequência com que se alapavam no confessionário, a aliviar a consciência que, pelos vistos, não andaria assim tão leve para quem tanto rezava; já fazia parte do ritual das beatas. E, quando o confessor (talvez farto de as aturar) lhes dizia “vai em paz, os teus pecados estão perdoados” saíam consoladas e convencidas que tinham trepado mais um degrau para o céu.
Quando o sino tocava ao Senhor-Fora a levar a Extrema-Unção a alguém que estava preste a deixar este vale de lágrimas, havia sempre meia dúzia de beatas matutinas que acompanhavam o Vigário, para o ajudar a encomendar a alma. Todas vestidas de preto, cabeça coberta por um lenço ou uma mantilha (cabeça descoberta nestes casos ou na igreja era sacrilégio), como se fossem para um funeral. Com a mão direita passavam as contas do rosário e com a esquerda faziam figas ao demónio, enquanto desfiavam padre-nossos e avé-marias, ao ritmo cadenciado de uma melopeia monótona. Só que, às vezes, o moribundo pregava-lhes a partida: arribava e, passado algum tempo, já estava cá fora a falar com elas. A encomendação da alma tinha sido feita antes do tempo. As beatas viravam o bico ao prego e procuravam chamar a si todo o mérito do milagre: “Deus ouviu-nos, porque rezámos muito por si para que Ele o salvasse”.
Havia várias espécies de beatas. Algumas, em que a beatice emparceirava com a tacanhez de espírito, misturavam crença com superstição, sagrado com profano: tanto rezavam e acendiam velas aos santos e outros bem-aventurados que povoavam a corte celestial, como iam à bruxa, resadeira, à Espanhola que botava as cartas ou à Amélia Farrapeira, que tinha o Livro de S. Cipriano, rezava o quebranto, erguia a espinhela e outros manigâncias que acabaram por pô-la a contas com a Justiça. Estas beatas tinham os seus grupinhos. Quando se encontravam, após uma beatífica beijoca, desembainhavam a língua, para fazerem o inventário das novidades, com a devida censura dos seus comentários salpicados de má língua. Em geral, eram as mais velhotas, cheias de rugas por fora e por dentro. O Quinato, avesso a tudo o que cheirasse a padres e beatas, chamava-as “ratas de sacristia”. Tinham adquirido o hábito de crer em Deus e rezar; almas fechadas, o que lhes sobrava em rezas, missas e confissões, minguava-lhes em humanidade e tolerância. Este era o tipo clássico de beatas tão bem retratadas por alguns autores da literatura portuguesa. Que o digam Eça, Júlio Dinis e outros. Na minha juventude, conheci algumas destas beatas. Um dos seus talismãs, além das medalhas e dos santinhos, era terem em casa uma jarra com água benta. Pediam frequentemente ao Vigário que lhes fizesse a benzedura.
A este propósito, não resisto a contar um episódio que deu que falar: a Maria Brás era uma mulher de reacções imprevistas (ou talvez previstas para quem a conhecia bem); era casada com o senhor Dionísio Vila Maior, um homem respeitável e muito respeitado na terra (já aqui tracei o seu perfil); já não eram novos e tinham netos. Pois meteu-se na cabeça da Maria Brás a ideia de que o marido teria uma relação com uma viúva que vivia lá para o lado das Moitinhas. Verdade? Corria o boato propalado pela língua destravada da Maria Brás que, não sendo beata, tinha “a sua fé”. Um dia, dirigiu-se à igreja e, à porta, esbarrou com a pretensa rival, que saía sobraçando uma jarra com água benta. A Maria Brás não esteve com meias medidas: foi-se a a ela, arrancou-lhe a jarra das mãos e disse: “sua desavergonhada, queres água benta, então vais levar água nas ventas”; e despejou-lhe a água pela cabeça abaixo. Tinha desabafado. A Maria Brás entrou na igreja, consolada, e a outra, encharcada e embiocada no seu xaile preto de viúva, esgueirou-se pelo Adro, Rua Direita acima, em direcção às Moitinhas. A cena foi presenciada por algumas pessoas, contada e recontada com chacota.
Mas havia outro tipo de fiéis devotas, mais esclarecidas e úteis, que colaboravam com o Vigário na vida da igreja e da paróquia. Eram uma espécie de “zeladoras do templo”. Comandava-as a D. Eurídice, “manda-chuva” da igreja, em tudo ouvida e em tudo achada. As mais preparadas ministravam a catequese, organizavam a primeira comunhão, o crisma, ajudavam a preparar as cerimónias da Páscoa, do Natal, o Presépio… Outras tratavam da limpeza da igreja, das toalhas dos altares, limpavam as castiçais das estalactites de cera pendentes, abasteciam a pia da água benta, colhiam as esmolas das caixinhas dos santos. Um dia, num intervalo da catequese, vimos duas devotas, de espanador na mão, a limpar o pó aos santos. E o Zé Dias, gozador: “lá estão elas a fazer cócegas aos santos”. Nós rimos da graça. Os santos é que não riam, nem com cócegas. As fiéis devotas faziam tudo. Menos tocar o sino e ajudar à missa. Isso era com o sacristão Mário Batata. O Padre João Rodrigues Pereira, que toda a gente tratava por “O Senhor Vigário”, veio paroquiar S. Pedro do Sul em 1907. Faleceu em 7 de Dezembro de 1943, precisamente no dia em que se completavam 36 anos da sua entrada na paróquia. Trinta e seis anos é tempo bastante para que a vida de muitas gerações a ele ficasse ligada. A quantos ministrou o baptismo, a primeira comunhão, casou, deu a extrema-unção e encomendou a alma! Mas eu não queria deixar aqui a simples imagem do pároco reduzida à sua função litúrgica. Ele foi muito mais do que isso. Para além da sua actividade pastoral, desempenhou um importante portanto papel no campo social e cultural, com destaque para o domínio da Música, a sua grande paixão. Deixou marcas que ainda hoje permanecem. Numa altura em que a Banda, então pertencente aos Bombeiros Voluntários, estava prestes a extinguir-se por falta de executantes, o Vigário deitou-lhe a mão e não a deixou morrer. Não havia músicos mas ele “fabricou-os”. Assumiu regência, fez escola e ensinou os jovens sampedrenses (naquele tempo só os rapazes) a solfejar e tocar instrumentos. A avaliar pelas idades do meu tio e do meu pai que por ele foram ensinados (e, mais tarde, vieram a ser regentes) foi isto há mais de um século. Ao Senhor Vigário se deve a sobrevivência da Filarmónica Harmonia que ainda hoje desfila com a sua música.
Com a morte do Padre João, o Senhor Vigário, em 1943, veio substituí-lo o Cónego Isidro dos Santos Faria. Ao herdar a paróquia, herdou também as beatas. Mas a a vida paroquial mudou. Outros tempos, outra mentalidade. O beatério perdeu terreno. As “ratas de sacristia”, não obstante a sua tacanhez de espírito, compreenderam que já não tinham lugar. O Cónego Isidro não tinha tempo nem pachorra para as aturar e não gostava delas. Tinha coisas muito mais importantes para fazer. Aproveitou as fiéis devotas que, não sendo propriamente beatas, eram úteis e mesmo necessárias à paróquia, bem como a colaboração de homens católicos e movimentos de juventude de ambos os sexos. E a vida paroquial ganhou novos contornos. O Cónego Isidro repartiu-se por múltiplas actividades, desde a Provedoria da Misericórdia à fundação do Colégio.
ACABOU-SE O BEATÉRIO! Das velhas beatas ainda ficaram alguns resquícios que em breve se extinguiram.
13/01/2022

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