Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré de Oliveira
AS PROCISSÕES (V) - A PROCISSÃO DA SENHORA DA CONCEIÇÃO

A SENHORA DA CONCEIÇÃO venera-se na Igreja do Convento.
O Convento de S. José foi edificado na segunda metade do século XVIII por frades franciscanos frequentadores assíduos das Caldas de Lafões, onde vinham anualmente e em número que justificou o pedido para a construção de um hospício ou casa de convalescença. Os frades acabaram por se radicar e, mais do que um hospício, fundaram um Convento. Isto escrevi eu no meu livro Termas de S. Pedro do Sul (Antigas Caldas de Lafões), publicado em 2002. Refiro-o, não vá ser acusado de plagiador por alguém que já tenha lido isto e não se lembre onde. Seria plagiar-me a mim próprio.
Mas vamos ao que interessa: a PROCISSÃO. Desde a fundação do Convento de S. José, ali se radicou o culto à Virgem Maria, com designação de Senhora da Conceição cuja festa se celebra no dia 8 de Dezembro, dia santo e feriado nacional. Noutros tempos era festa solene. Nada tinha a ver com as tradicionais romarias, com os seus arraiais numa mistura de sagrado e profano. Era uma festa exclusivamente religiosa. Havia uma mordomia anual exclusivamente feminina, com a sua reitora: senhoras da Vila e mesmo de lugares vizinhos. Algumas eram mordomas vitalícias, por promessa feita. Consideravam uma honra ser mordoma da Senhora da Conceição e mais ainda ser reitora, que geralmente era senhora de algum prestígio social, ainda que mais não fosse pelas posses materiais, para arcar com boa parte dos custos da festa. Cada mordoma contribuía dentro das suas possibilidades. Lembro-me de algumas reitoras: a D. Eurídice, a D. Conceição Bandeira e outras. A festa de Nossa Senhora da Conceição, com a sua procissão, para além do seu cariz fortemente religioso, era um acontecimento social da terra, com o seu quê de chique e exibicional. Fenómeno essencialmente feminino, havia mesmo quem preparasse indumentária nova para estrear no dia da festa. Nos dias antecedentes as costureiras não tinham mãos a medir.
Oito dias, começavam as NOVENAS, parte importante da festa. Ao fim da tarde, a Igreja do Convento era ponto de convergência de gente de vários quadrantes, especialmente da Vila, mas também de lugares vizinhos; Negrelos, Várzea, Termas e outros, a cumprir promessas. As Novenas eram muito concorridas. Havia gente que levava a devoção à risca. Tinham de ser nove dias seguidos. Por isso se chamavam novenas. Eu ia todos os dias. Verdade seja que não ia só e novenas e namoro nunca foram incompatíveis.
As Novenas consistiam na recitação do terço, com as cantorias, orações complementares e bênção do Santíssimo e o Mário Batata a queimar odoroso incenso no turíbulo pendular.
Chegava o dia 8. Era o dia grande. Da parte da manhã, Missa cantada. No coro da Igreja do Convento, o Grupo Coral Sacro abrilhantava a cerimónia. O velho órgão de tubos, pressionado pelos dedos do Dr. Poças ecoava como no tempo das frades, acompanhando o latinório da cantoria do Zeca de Moldes, Amadeu Teles, Zé do Pico, António Teles e Manuel Oliveira (meu Pai) que também executava uns solos de flauta. Eu ia sempre cedo, para apanhar um cadeirão dos frades. E, por momentos, a minha imaginação recuava dois séculos e via nos cantores do Grupo Coral os gordos frades do passado com o seu cantochão. Não sei porquê, eu imaginava os frades sempre gordos! E, relativamente ao Dr. Poças, nem era preciso grande esforço imaginativo. Pois lá gordo era ele. Só lhe faltava o hábito franciscano para parecer um frade.
No momento próprio, o Cónego Isidro, com o brilho da sua palavra, arrancava uma homilia de circunstância, dedicada à Imaculada Conceição. Os homens ouviam compenetrados. A Reitora e as mordomas comovidas e ufanas, as beatas deixavam escapar uma lágrima.
Depois da Missa, era o almoço, porque a fé, por maior que seja, alimenta a alma mas não alimenta o corpo. E a festa ia continuar.
Pelas 3 horas, era a Procissão, que os dias já eram pequenos. O Largo de S. Sebastião estava repleto. Enquanto esperavam, alguns jogavam à roleta na barraca das panelinhas. Outros bebiam uns copos no Palmilhante, na tasca do Salazar ou no Cantinho.
Começava a sair a Procissão. Na larga portaria do Convento aparecia a Cruz alçada ao alto, ladeada pelas opas das duas irmandades; no meio, os anjinhos tradicionais, os Andores e o Pálio de varas empunhadas por figuras gradas da terra e a cobrir o sacerdote paramentado de gala. Fazia-se silêncio total. Calavam-se os altifalantes da barraca das panelinhas e parava a roleta. Esvaziava-se o Palmilhante e as tascas vizinhas. O andor de Nossa Senhora da Conceição vinha especialmente ornamentado, iluminado e coberto de flores. As mordomas tinham caprichado. E as mulheres do Largo de S. Sebastião e da Rua Direita também. O Largo era um tapete de flores e a Rua direita uma passadeira. Alguns homens tinham dado um mãozinha: lá vi o Xalau, o Grão-de-Bico e outros.
A Procissão seguia, Rua Direita abaixo, ao compasso da música da Filarmónica Harmonia. Chegada à Praça, passava em frente à Igreja Matriz, contornava o Adro repleto, em direcção à estrada, flectia à esquerda, iniciando a marcha de retorno. Rua Serpa Pinto acima, entre colgaduras nas janelas, Bairro de Camões, e a Senhora da Conceição recolhia a sua casa na Igreja do Convento. A festa terminava com a celebração da última Novena, com destaque para o Sermão pregado pelo Cónego Isidro e nalguns anos por um pregador vindo de fora. Estou a lembrar-me de um belo sermão pregado pelo Padre Freirinha, sampedrense natural de Pinho e então a paroquiar Vouzela.
Recebida a benção do Santíssimo, era lida a lista das novas mordomas e reitora para o ano seguinte.
E assim terminava um dos dias mais solenes da vida paroquial sampedrense; o dia da IMACULADA CONCEIÇÃO.
28/10/2021

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