Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré de Oliveira

Cinquentenário da abertura da Escola Preparatória D. Joao Peculiar

O Ensino Secundário em São Pedro do Sul era uma aspiração que só ao cair da década de quarenta do século passado se concretizou, com a fundação do Colégio de S. Tomás de Aquino, em 1949. Durante 23 anos, o Colégio cumpriu — e bem — a sua missão de educar a juventude sampedrense. Honro-me de ter colaborado nessa tarefa, porque ali iniciei a minha carreira de Professor.

Na segunda metade da década de sessenta, a reforma educativa do ministro Veiga Simão veio trazer uma larga difusão do ensino oficial. Logo o Município de São Pedro do Sul, então presidido pelo Inspector Hildebrando Pinho de Oliveira, se perfilou e diligenciou no sentido de ser criada uma Escola Preparatória. Em 1971, foi criada a ESCOLA PREPARATÓRIA D. JOÃO PECULIAR.

O Presidente da Câmara e o Eng. Armínio Quintela, então Governador Civil, apelaram para a minha qualidade de sampedrense com experiência nas lides do ensino para montar e dirigir a Escola. Acabei por aceitar, com a ressalva de que não garantia a minha permanência por mais de um ano, uma vez que pretendia entrar no ensino oficial como professor efectivo. Comprometi-me, porém, a deixar a Escola devidamente montada e em pleno funcionamento. E assim foi. Em 1971 voltei à minha terra.

A Escola foi instalada no edifício onde hoje funciona a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, na altura sem o enxerto que posteriormente lhe fizeram. Marcada pelo Ministério a abertura para o dia 1 de Outubro, cinco dias antes, existia um edifício vazio, um director e uma professora nomeada, Raquel Iglésias. A proprietária do edifício emprestou-nos uma mesa e uma cadeira. As matrículas fizeram-se na Câmara Municipal. Setembro a despedir-se, chegaram do Ministério as carteiras, secretárias, quadros e outro material escolar. E as actividades iniciaram-se mesmo no dia 1 de Outubro, com uma reunião com os Encarregados de Educação. Começaram as aulas, embora faltassem alguns professores. Mas, poucos dias depois, o corpo docente estava completo, com 10 professores. Para despesas de montagem, foi anunciada pelo Ministério uma verba de 50 contos, que tardava a chegar, pelo que se foram fazendo despesas a crédito e tive de adiantar do meu bolso o pagamento da instalação do telefone. Nomeava-se um director e ele que se amanhasse. Se não houvesse funcionários e professores suficientes, ele que os arranjasse. Foi o que fiz. Verdade seja que recebi todo o apoio da Autarquia, presidida por quem lutara pela criação da Escola e, para mais, era um pedagogo. Apenas havia tês professores e um funcionária auxiliar nomeados por concurso, o resto era comigo. Segui o critério de propor, tanto quanto possível, gente de São Pedro do Sul ou da região de Lafões (caso do Prof. Martinho, de Oliveira de Frades). Propus duas funcionárias de secretaria e duas auxiliares (chamavam-se, então, contínuas). Tudo gente da terra. Completei o corpo docente e, nos princípios de Outubro, a Escola estava a funcionar em pleno. Abriu com 119 alunos, distribuídos por quatro turmas do 1º ano e uma do 2°. Ainda no mês de Outubro, realizaram—se os exames de admissão ao 2º ano para alunos oriundos da 5ª classe do Ensino Primário. Como a Escola não dispunha de instalações para a montagem de uma cantina, pensou-se numa solução provisória. Feita uma exposição ao I.A.S.E., foi concedido um subsídio e, numa barracão existente, improvisou-se uma cantina que passou a fornecer a todos os alunos, a meio da manhã, um copo de leite e um pão com manteiga e almoço para os não residentes na Vila. Porque a solução era provisória, elaborou-se um projecto para a construção de um refeitório, cozinha e todo o apetrechamento, plano que foi enviado à repartição competente e que veio a ser executado no ano lectivo seguinte.

Logo que se fizeram sentir os primeiros frios, foram todas as salas apetrechadas com aquecedores de gás, que vieram a ser pagos com um subsídio concedido pelo ministro Veiga Simão, aquando da sua visita à Escola, no mês de Dezembro, e que ainda chegou para ajudar os alunos mais necessitados, na compra de livros, material escolar e alimentação.

Para além das actividade lectivas curriculares, desenvolveram-se diversas actividades de caracter sócio-cultural. O magusto foi um agradável convívio, bem como o passeio à Serra da Estrela, largamente participado por familiares de alunos. Pelo Natal, professores e alunos montaram um interessante presépio. Assinalaram as datas de algumas efemérides, nomeadamente o Dia da Árvore, com a projecção de um filme. No plano da Educação Física, desenvolveu-se intensa actividade, com participação em torneios desportivos, em Viseu, Vouzela e Oliveira de Frades, e a Escola organizou mesmo um festival desportivo.

No final do ano lectivo, uma Exposição dos Trabalhos executados pelos alunos integrou-se no contexto da Comemoração do IV Centenário da Publicação de OS LUSÍADAS. A Exposição foi inaugurada pelo Governador Civil, com a presença de toda a Edilidade, Pais e Encarregados de Educação. Numa parceria entre a Câmara Municipal e a Escola, seguiu-se uma Sessão Solene, no Salão Nobre dos Paços do Conselho. Foi uma noite de gala, em que o professor da Escola Dr. Fernando Paulo do Carmo Baptista, proferiu uma brilhante conferência sobre o tema “OS LUSÍADAS PERANTE A ACTUAL CRISE DO HOMEM (ponto de reflexão crítica com abertura para a superação dessa crise…)”. Pelo conteúdo e pela forma, foi uma dissertação notável, prenunciadora de uma carreira de brilhante e fecundo intelectual que viria a fazer do Dr. Fernando Paulo actual membro da Academia Portuguesa de Ciências e da Academia Portuguesa de História.

Creio que terá pertencido à Câmara Municipal de São Pedro do Sul e à Escola Preparatória D. João Peculiar uma das melhores formas de comemorar o IV CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO DE OS LUSÍADAS, naquele 10 de Junho de 1972. E foi para mim particularmente grato, porque fui eu que levei o Dr. Fernando Paulo para São Pedro do Sul e o indiquei para ser o porta-voz da nossa comemoração camoniana.

O ano lectivo terminou com bom aproveitamento dos alunos. Ao exame do 2º ano submeteram ainda dois adultos que se autopropuseram: um de Viseu e outro, o Joaquim Ramalho, de Drizes, bem conhecido pela sua importante acção no fomento do Atletismo e que com a Escola colaborou, neste domínio.

No final do ano lectivo, deixei a Escola, de acordo com a ressalva da minha aceitação, e segui outro rumo. Mas deixei-a em pleno funcionamento e depois de ter sido nomeado, por minha indicação, outro Director.

Cinquenta anos depois da abertura da Escola Preparatória D. João Peculiar, esta é uma análise retrospectiva feita por quem a viu nascer e a orientou no seu primeiro ano. Meio século depois, ela aí está, pujante de vida, com novas instalações e nova designação — ESCOLA BÁSICA INTEGRADA SÁO PEDRO DO SUL — determinada pela nova nomenclatura oficial.

29/07/2021


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *