COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por NAZARÉ de OLIVEIRA

O MÁRIO BATATA

Chamava-se Amaro Mendes, mas toda a gente o conhecia por MÁRIO BATATA. Não sei porquê, mas era assim. Era o sacristão da paróquia. Ele já nem protestava. Aceitou o nome de Mário, desde que fosse sem Batata. Nesta crónica, sem menosprezo, vou continuar a tratá-lo pelo nome por que era conhecido. Era sacristão desde o tempo do Padre João Rodrigues Pereira que toda a gente tratava por Senhor Vigário, uma das poucas pessoas que o tratavam por Amaro.

Não vou dizer que o conheci na pia da água benta, mas o Mário Batata esteve lá a ajudar à cerimónia. Depois, conheci-o na catequese, na primeira comunhão e em muitas outras situações.

Na missa dominical, o velho Vigário, alto e imponente, subia ao altar, acompanhado pelo sacristão. A celebração ainda era em latim, que o Padre João ia arrastando, Dominus vobiscum, e a que o Mário Batata ia respondendo, com o latim a sair-lhe da boca aos tropeções, enquanto ia mudando o missal, chegando as galhetas, manipulando o turíbulo como um pêndulo, agitando a campainha no momento da consagração eucarística, segurando a bandeja para a comunhão, enquanto os fiéis estendiam a língua para receberem a hóstia, que ainda não era depositada na mão. Eram variadas as suas obrigações de sacristão: além de ajudar à missa, tocar a sinais, anunciando a morte de mais um que deixava este vale de lágrimas; tocar ao “Senhor-Fora”, quando o padre ia sair, acompanhado pelo sacristão e duas ou três beatas matutinas, a levar a extrema-unção a algum moribundo que estava prestes a partir para o Além; acolitar baptizados, casamentos e funerais; renovar a água da pia da água benta que, por mais benta que estivesse, não deixava de se evaporar, sobretudo no Verão, ou ficar imprópria para os baptismos; pia lavada, uma jarra de água da torneira e o resto era com o Padre: as cruzes sacramentais, uma latinada, e os casais sampedrenses podiam fazer filhos à-vontade, que o Vigário, acolitado pelo sacristão, encarregava-se de os fazer cristãos. Na Páscoa, o Mário Batata desdobrava-se em actividades, nas procissões, a desnudar os altares, na visita pascal que durava três dias — sábado aleluia, domingo e segunda-feira de Páscoa — a “tirar o folar”, na expressão popular que deslocava a sacralidade do acto para a materialidade profana; visitavam todas as casas da freguesia. O trio era constituído pelo Vigário com a sua estola, o Telo (de Pouves) e o Mário Batata, com as suas opas; o Telo levava a cruz e o sacristão levava a caldeirinha, agitando a campainha anunciadora da visita do Ressuscitado.

O Mário Batata vivia desafogadamente, até porque — como veremos — tinha outra fonte de rendimento. Não sei quanto recebia pelo seu ofício de sacristão. Mas o ofício era rendoso, porque tinha as suas mordomias: nos baptizados, primeira comunhão, casamentos e até funerais, geralmente pingavam umas gorjetas; nalguns casos era mesmo uma praxe tácita “dar alguma coisa ao sacristão”.

O Mário Batata não gostava das beatas, sempre a pregarem moralidade e a meterem o nariz onde não eram chamadas. Mas mantinha com elas uma relação de coexistência pacífica. Conhecia-as e sabia que elas eram perigosas quando desembainhavam a língua — não fossem elas fazer queixinhas ao Vigário. Se bem que este não era homem que emprenhasse pelos ouvidos e também não gostava muito de ratas de sacristia. O Padre tolerava-as, porque sabia que elas faziam parte da fauna humana paroquial e sabia que, naquele tempo, um pároco sem beatas era como um coxo sem muletas.

O Mário Batata tinha um sonho: ter um filho padre. E teve. O seu único filho varão, após a 4ª classe, com um empurrão do pároco, foi para o seminário. Mais velho do que eu uns três anos, conheci-o quando ele era seminarista. Algum tempo depois, já ordenado, o Padre João de Deus Mendes foi paroquiar. Não sei por quanto tempo. Cupido atraiçoou-o e ele não resistiu aos encantos de uma paroquiana. E renunciou ao sacerdócio. Mas fê-lo com dignidade. Frontalmente. De cabeça levantada. Assumiu o seu acto, casou e teve filhos. Matriculou-se na Universidade e licenciou-se em Clássicas. Dirigiu um Colégio no Sátão e, mais tarde, fomos colegas de docência na Escola Secundária de Emídio Navarro. Conterrâneos, amigos e colegas de trabalho, seus filhos foram meus alunos e uma das minhas filhas sua explicanda de Latim. Era um homem inteligente, trabalhador e honesto que soube assumir as suas opções.

O Mário Batata (sem menosprezo assim continuarei a tratá-lo), a princípio desiludido com a renúncia do filho ao sacerdócio, acabou por se sentir compensado com a nova carreira e lá continuou no seu ofício de sacristão, a mudar o missal, a chegar as galhetas, a manusear o turíbulo, a atropelar o latim, a tocar a sinais ou ao Senhor-Fora.

O Padre João Rodrigues Pereira, o Senhor Vigário, que paroquiava a freguesia desde 7 de Dezembro de 1907, morreu em 7 de Dezembro de 1943, precisamente no dia em que se completavam 36 anos após a sua entrada na paróquia. Para o substituir, veio o Cónego Isidro. A vida paroquial mudou. Velhas rotinas foram abandonadas. Novos processos, novos hábitos se foram introduzindo e o sacristão teve de adaptar-se e ultrapassar o ramerrão da igreja a que estava habituado. Compreendeu que os tempos eram outros.

Este era o MÁRIO BATATA SACRISTÃO. Outro era o MÁRIO BATATA DOS JORNAIS. Pois é verdade: o sacristão tinha o monopólio da venda de jornais e revistas. Todos dias lá estava ele, na estação do Vale do Vouga, à espera do comboio das onze, que trazia a remessa. O comboio chega, a cuspir faúlhas, os freios gemem, mais uns solavancos e o chefe Lopes levanta a bandeirinha, a assinalar a paragem. O Mário Batata recebe os pacotes que logo desfaz e enfia tudo numa grande bolsa de pano, suspensa do ombro esquerdo, para ir distribuindo os jornais com a mão direita. O primeiro é para o chefe Lopes. E lá vai ele, Avenida acima, deixando notícias frescas aos clientes certos. Eu esperava-o ao cimo da Avenida, para pegar O Primeiro de Janeiro que era o jornal da casa. Chegado ao Edgard já havia gente à espera. E nem precisava de lançar pregão, porque não tinha concorrentes. Depois, ia para casa e quem quisesse fosse lá. E as escadas da sua casa eram concorridas. Era O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, O Século, o Diário de Notícias, revistas e jornais desportivos… Para a clientela feminina, Modas e Bordados, a Flama, a Crónica Feminina, Simplesmente Maria… Para a clientela infantil e juvenil, era a banda desenhada: o Pim-Pam-Pum, o Tin-Tin, o Diabrete, onde avultavam as aventuras do Tarzan, o Cavaleiro Andante, o Mosquito, com espadachins, piratas e cowboys.

Mário Batata era o veículo que trazia aos adultos as notícias e às camadas juvenis a galeria de personagens que povoavam o nosso imaginário, num tempo em que não havia televisão, telemóveis e computadores. Em compensação, lia-se muito e trabalhava a imaginação.

O tempo foi passando e os jornais cada vez mais pesados. O Mário Batata sentia que já não tinha arcaboiço para tanto e arranjou um ajudante: o cauteleiro Arlindo Maneta.

Como sacristão, continuou a mudar o missal, chegar as galhetas, manejar pendularmente o turíbulo (já não atropelava o latim, porque a missa passara a ser em português), a tocar o sino a finados. Até que um dia, alguém tocou a finados por ele.

AMARO MENDES, para todos o MÁRIO BATATA, foi uma figura típica da vida sampedrense das décadas de 30 e 40 do século passado.

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