Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré de Oliveira
As Aulas da D. Adelaide Zagalo

A fotografia que ilustra esta crónica tem mais de 70 anos. Já aqui a publiquei, quando, em 1912, neste jornal, escrevi uma série de artigos, com o título “A Minha Relação com a Escola — As Minhas Vivências de Aluno e Professor”. Grande parte dos figurantes nesta fotografia já não estão entre nós. Para os que ainda vivem, ela há-de trazer saudades de um tempo carregado de significado, porque a ele estão ligados.
No início dos anos 40, ainda não havia Colégio em São Pedro do Sul. Era uma aspiração que só em 1949 viria a concretizar-se. Feito o exame da 4ª classe, só havia dois caminhos: ficar por aí ou ir para a cidade prosseguir os estudos. Mas ir para a cidade não estava ao alcance de todos. Os que não tinham essa possibilidade seguiam outros rumos: trabalhar na agricultura familiar, aprender um ofício (alfaiate, sapateiro, marceneiro, mecânico ou marçano no comércio), entrar como praticante numa repartição pública, com vista a um futuro concurso. Era o tempo em que ainda se podia concorrer a certos lugares apenas com a 4ª classe. Alguns desses funcionários conheci, às vezes mais competentes do que alguns com mais habilitações. Outros foram óptimos profissionais no comércio, na indústria e outras actividades, desempenhando papéis importantes na sociedade sampedrense, com a sua inteligência e honestidade. A Vida lhes ensinou o que, para além da Instrução Primária, não lhes foi possível aprender na Escola.
Mas voltemos à fotografia. Foi neste vazio escolar que, por volta de 1940, se vislumbrou um ténue raio de luz. A São Pedro do Sul chegou o casal Zagalo: ele, funcionário do Grémio da Lavoura; ela, professora particular. Instalaram-se no centro da Vila no edifício onde funcionava a Casa Barros, estabelecimento de fazendas geralmente designado por Chico Barros, e uma barbearia, onde um dos “fígaros” da terra, o Cardoso, escanhoava os fregueses. Na sua residência, o casal Zagalo abriu cursos de explicações de preparação para o 1º ciclo do ensino liceal (ainda não havia ciclo preparatório). Essas explicações começaram a ser bastante frequentadas. Não era um Colégio, nem sequer uma escola oficializada para poder inscrever alunos no Liceu. Havia quem ensinasse, mas não havia quem validasse o ensino. Os filhos de licenciados tinham o problema resolvido: estavam inscritos no Liceu como alunos do ensino doméstico; eram os próprios pais que lhes davam as classificações; era de lei. Os outros tinham de recorrer a subterfúgios, formas mais ou menos camufladas de contornar a lei. Eu e o Quintela, por exemplo, estudávamos em São Pedro, mas estávamos inscritos no Colégio da Via Sacra, em Viseu, com o compromisso de, mais tarde, lá prosseguirmos os estudos. Neste “arranjo”, andou a mão de Manuel Barros, de Carvalhais, que mais tarde veio a ser Tesoureiro da Câmara, mas ao tempo era professor naquele Colégio. Creio que com algumas meninas se passava o mesmo, relativamente ao Colégio Português. As aulas do casal Zagalo eram frequentadas por rapazes e raparigas da terra e até dos arredores. Eu e o Quintela só lá fizemos o 1º ano, porque o Colégio da Via Sacra exigiu a nossa presença nos anos imediatos. Eu lá fiquei interno até ao 6º ano. O Quintela é que pouco tempo lá esteve. Com saudades do metro e pouca vontade de estudar, lá voltou para a loja do pai, a medir fazendas.
Voltemos às aulas da D. Adelaide Zagalo que, com toda a paciência, lá ia deitando a mão às diversas disciplinas, ajudada no Francês pelo marido, que falava muito bem a língua. Nos intervalos, as meninas ficavam pelo exíguo quintal. Os rapazes dividiam-se: uns davam uma saltada ao café do Zé Caetano, a jogar uma partida de bilhar de buracos que abria com uma moeda de um escudo, até que o Mouzaco descobriu que também abria com um pataco, moeda antiga que ainda aparecia com frequência. Só que, quando o Zé Caetano abriu a caixa das moedas para fazer a colheita, descobriu a marosca e passou a exigir dinheiro à mão; outros ficavam-se a ver o alentado Inocêncio a tratar dos ferros; outros ainda subiam as escadas do Mário Batata e iam comprar o Mosquito ou o Tin-Tin, bandas desenhadas da época.
Acabado o intervalo, a D. Adelaide chamava e nós íamos de novo para as aulas. E, ao som dos malhos do Inocêncio, lá íamos aperfeiçoando o nosso Português, arranhando o Francês, digerindo a Geografia e as Ciências Naturais, esgrimindo com as expressões numéricas e domesticando a mão rebelde no Desenho Geométrico.
Era ainda pouco. Mas era melhor que o nada anterior, porque, dado o arranque, os pais deitavam contas à vida, faziam um esforço e acabavam por mandar os filhos para a cidade, para prosseguirem os estudos.
Após alguns anos, o casal Zagalo deixou São Pedro do Sul. Antes da partida, quiseram reunir os alunos que passaram pelas suas explicações, alguns ainda que episodicamente. Convidaram-nos para um lanche-convívio e foi então que Mestre Edgard fez esta fotografia. Não me é possível identificar todos os figurantes, mas identifico a maioria:
No primeiro plano: o Casal Zagalo.
Primeira fila: ?, Margarida Cacheta, Margarida Simões. Aldina Neves, Nini Vilar, Graciete Miranda, Lurdes Mouzaco, Alcina Neves, Loreto, ?, ?, Teresa Clemente, ?, Amélia Lagarteira, Helena Paiva, Maria Lagarteira.
Segunda fila: António Oliveira, ?, Ricardo Andrade, Quintela, Armando Miranda, Reinaldo Andrade, Armando (filho do Inocêncio), Paulino, Chico de Cotães, Graciano Figueiredo, Américo Cacheta, Rogério Andrade.
Terceira fila: ?, Zé Paiva ? Filho da D. Adelaide, Gui Paiva, Beatriz Paiva, ?, ?, ?, ?, ?, ?, Aloísio Paiva, Luís Rodrigues, ?, José Augusto Carvalho, Custódio Rodrigues, António Reis.
Nem todos os que estão na fotografia passaram pelas explicações da D. Adelaide: por exemplo, alguns mais velhos, como Ricardo Andrade e Armando Miranda, e algumas meninas mais pequenas que foram com os irmãos. Eram convidados.
As aulas da D. Adelaide acabaram, mas o Colégio estava prestes a abrir.
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