Coisas e Gente da Minha Terra de Nazaré Oliveira

O DR. JOÃO FERREIRA CORREIA DE PAIVA

Conheci o João na 1ª classe da Escola Primária. Ficámos companheiros de carteira. Ali nasceu uma amizade que ficou e se fortaleceu por toda a vida. Neto de médico, o Dr. João Ferreira de Almeida, patriarca da medicina e da política em São Pedro do Sul, e filho de médico, o Dr. Aloísio Correia de Paiva, o seu destino estava traçado.

Após o exame da 4ª classe, frequentámos explicações de preparação para o exame de admissão ao Liceu ministradas por uma jovem professora, D. Palmira Coutinho. Era um grupinho: o João Paiva, o Quintela, a Margarida — que mais tarde viria a casar com o Jaime Gralheiro — a Lurdes Mousaco, a Idalina Coelho — que viria a casar com o Barros Mouro — a Maria Arlete, prima da Margarida, e eu. A professora lá nos levou ao exame no Liceu de Viseu. Instalámo-nos numa casa da sua confiança, na Praça de Camões, junto da Sé. Eu e o João ficámos no mesmo quarto. Na véspera do exame, fomos visitar a Sé e o Camões. Eu nunca tinha ido à cidade. Habituado à pequena Igreja da minha terra, fiquei maravilhado com a Sé. Depois viemos ver o Camões. Eu só o conhecia em papel dos livros.

Agora, via-o ali em bronze maciço a olhar para mim com o seu olho. A Praça já não é hoje Praça de Camões. É a Praça D. Duarte e o Rei lá está em lugar do Poeta, o que historicamente até se justifica. O que não se justifica é o que fizeram ao Camões: empurraram-no para o Parque da Cidade, debaixo de uns carvalhos, quase no chão, rasteiro e escondido entre a folhagem. Duas dezenas de anos mais tarde, quando já vivia em Viseu, fui visitá-lo. Pareceu-me que o seu olho estava triste e lembrei-me da sua poesia “Perdigão perdeu a pena/ Não há mal que lhe não venha”. Alguém com sentido de humor tinha lá colocado uma tabuleta com os seguintes versos:

Que fazes aí, Camões,

Homem de grande valor?

— Estou a apanhar bolotas,

Para os grandes idiotas

Que me vieram aqui pôr.

 

Presentemente, encontra-se numa pequena rotunda frente à Escola Grão Vasco. Camões, que em vida andou por três continentes, depois de morto, já teve em Viseu três poisos.

Perdoem-me os leitores este desvio, provocado pelo nosso épico, e voltemos a 1941 e ao nosso exame, constituído por provas escritas (ditado, redacção e aritmética) e provas orais (leitura e interpretação, história, geografia e ciências naturais).

Nas horas vagas, dávamos umas voltas. Para mim era tudo novo. O João, mais desenvolto, era o meu cicerone. Há impressões de infância tão significativas que nunca mais esquecem: levou-me a comprar um sorvete num vendedor ambulante, coisa que eu nunca tinha visto e muito menos provado. Gostei e fiquei com ela fisgada: não havia de ir embora sem comer outro. No dia seguinte, sozinho, voltei lá e, com uns trocos que o meu pai me tinha dado, refresquei de novo a goela.

Aprovados nos exames, regressámos à parvónia. Nesse verão, participámos num teatrinho juvenil da Fernandinha Miranda. O João e eu fomos vedetas. O João era o rapazinho pobre, de calções rotos, vendedor de palitos, “cinco caixas de palitos dez tostões”. Eu era o menino rico e arrogante que o desprezava. E aí está como dois amigos a sério se transformavam em dois inimigos a fingir. E nós fingíamos bem! Teatro!

Depois, seguimos rumos diferentes. O João foi estudar para Lamego. Eu, para Viseu.. Numas férias de Verão, já em plena adolescência, voltámos a participar nos espectáculos da Fernandinha Miranda. Ali dançámos e cantámos com as raparigas e rapazes da nossa terra. Foi por esta altura que estudámos latim em conjunto. Uma das disciplinas do 2º ciclo era Português-Latim. O João, mais vocacionado para as ciências, estava com algumas dificuldades no Latim. O Dr. Aloísio pediu ao seminarista João de Deus, filho do Mário Batata, para lhe dar apoio e a mim para lhe fazer companhia, já que frequentávamos o mesmo ano. Pôs à nossa disposição uma sala e lá íamos todos os dias ao latinório. Para mim teve ainda outra vantagem: é que na sala havia muitos livros e o Dr. Aloísio pô-los à minha disposição para leitura. Desforrei-me!

Acabámos o curso liceal. O João matriculou-se na Faculdade de Medicina e foi para Coimbra. Eu, na Faculdade de Letras, mas fiquei em casa. Como era aluno voluntário, estava dispensado de ir às aulas. Mas deslocava-me periodicamente a Coimbra, para colher elementos de estudo, exames de frequência e finais. Sempre combinávamos encontros e falávamos da nossa terra. Foi por essa altura que, juntamente com o Zé Dias e os irmãos Carvalhas, Gastão e Orlando, e outros, formámos uma comissão angariadora de fundos para a construção de um rinque de patinagem no Largo da Cerca. O João foi o promotor e principal entusiasta. Não sabia patinar. Nem eu. Também não jogou futebol, mas era um fervoroso adepto do Sampedrense e colaborou em várias iniciativas a seu favor. Falávamos dos amigos comuns e sempre me perguntava pelo AVÔ, nosso companheiro de Escola. Era o Fernando Cambada, de Pouves, que o Prof. Metelo baptizara de Avô por ser o mais velho e repetente. Não teve vida fácil. Quando nos via, aproximava-se de nós com o sorriso triste e o ar humilde que sempre tivera, mais à espera de uma palavra amiga do que da parca ajuda que lhe dávamos. Por isso, sempre me perguntava: “Tens visto o Avô?”

Próximo do fim do curso, o João pediu-me uns versos para o livro dos “Grelados de Medicina”. Lá lhe fiz a versalhada:

Activo, generoso, idealista,

Tem um feitio de bonacheirão;

Com as suas ideias de bairrista,

A sua terra põe em revolução.

 

Já deu provas daquilo que é capaz,

Dificuldade alguma o amofina;

Tem dois amores na vida este rapaz

A sua terra amada e a Medicina.

 

Famoso médico há-de vir a ser,

Assim o querem poderosos Fados;

No seu caminho há-de saber manter

A tradição dos seus antepassados.

 

Ofereceu-me um exemplar Com a dedicatória: “Ao António Nazaré, companheiro firme nos ‘movimentos revolucionários’, auxiliar precioso nos combates e investidas contra o marasmo e preguiça sampedrense, sócio nos grandes sonhos quiméricos, dedicação e boa vontade sempre pronta, com um apertado abraço do amigo certo e grato JOÃO PAIVA, Coimbra, 26 de Maio de 1953 (imposição do Grelo).”

Acabado o curso, o João partiu para Angola, a cumprir serviço como médico militar. Trocámos correspondência epistolar assídua. Eu era o porta-voz da nossa terra. Ele falava-me de Angola e dos seus costumes. Regressado a Portugal, fez a especialidade em Psiquiatria e fixou-se em Lisboa, com actividade hospitalar e privada. Com uma vivência profunda da sua terra e da região, foi Presidente da Casa de Lafões em Lisboa. Nessa altura, convidou-me para ali proferir uma conferência. Por razões graves de saúde da minha parte, tal não foi possível, com grande desgosto para ambos. Raramente passámos a ver-nos. Eu também havia deixado São Pedro do Sul, por razões profissionais. Geralmente, encontrávamo-nos pelo Natal ou pela Páscoa. Mas havia um dia de encontro anual a três. No Verão, quando o João vinha de férias, ele e o Zé Dias vinham a Viseu para o nosso encontro. E, nos bancos do Rossio, à sombra das tílias, recordávamos os bons velhos tempos.

Recordar o JOÃO é o melhor preito que posso render à AMIZADE !

27/05/2021


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