COISAS E GENTE DA MINHA TERRA de Nazaré Oliveira
A MATA DO MIRA-VOUGA
A Mata do Mira-Vouga ficava em frente da casa onde nasci e morei até aos 27 anos. Apenas a estrada separava o alto muro da mata da minha casa. Um largo portão verde, sempre fechado, ficava em frente do meu quintal. Desde miúdo, o cheiro dos eucaliptos e o chilrear da passarada exerciam sobre mim uma forte atracção. A garotada mais velha saltava o muro e lá ia, armada de fisgas, aos pássaros e aos ninhos. Um dia, quando comecei a sentir mais força nas pernas, saltei também.
Na Mata havia três grandes tanques. Dois lá para o fundo, próximo da casa dos caseiros. Um já estava parcialmente entulhado. Por razões óbvias não serviam para nós. O terceiro ficava ao cimo da mata, num ponto mais alto, próximo do portão. Não tinha água, era grande e todo cimentado. Fizemos dele o nosso rinque de patinagem sem patins, que não tínhamos. Era o tempo em que Portugal ganhava todos os campeonatos do mundo de hóquei em patins. Saltávamos para o tanque, uma bola, uns stiques feitos de galhos de eucalipto, três troncos em cada topo a servir de balizas e era o jogo de hóquei a butes e alguns a pé descalço. O Orlando era um dos guarda-redes. Mais tarde, veio a ser guarda-redes a sério, na equipa de Hóquei em Patins da União Desportiva Sampedrense.
Ao fundo da mata, viviam duas personagens importantes: o velho Valentim e o seu filho João, caseiros do Dr. Trinta, proprietário da mata e médico residente em Lisboa. O João tocava na Filarmónica e era conhecido por João do Mira-Vouga. Era bom homem, mas o pai Valentim era de gancho. Quando sentia a garotada, lá vinha ele, com a sua tosse de gato engasgado, a manquitar com a perna fanfa. Quando ele chegava, já nos tínhamos raspado.
Um dia, a coisa fiou mais fino: no auge do jogo, sentimos o portão a abrir. Era o Dr. Trinta que chegava de Lisboa no seu automóvel. Ouvindo a garotada e já antes alertado pelo Valentim, aproximou-se do tanque. Não disse nada. Puxou da pistola e disparou dois tiros para o ar. Nós, borradinhos de medo, saltámos o muro mais rápido do que se um bando de galgos viesse a perseguir-nos. Deixou o portão aberto e ninguém mais se atreveu a entrar.
E aqui está como o Dr. Trinta, com dois tiros, inverteu a lógica: quando uma porta está aberta, lógico é entrar. Agora, quando o portão estava aberto (sinal de estava cá o Dr. Trinta), lógico passou a ser não entrar, não viessem por lá dois balázios, à boa maneira do faroeste. O Dr. Trinta poderia ser um bom médico, mas era um bruto que não deixava alguém entrar na Mata.
Com o ciclone de 1941, a Mata do Mira-Vouga sofreu um desbaste. Alguns eucaliptos não resistiram à violência dos ventos. Foram vendidos aos madeireiros e para lenha. O meu pai também comprou um eucalipto derrubado e eu lá andei, com o meu avô materno e o Manuel da Horta, de serrote e machado nas mãos, a transformá-lo em cavacos para o fogão. A maioria das árvores ficou de pé e a Mata do Mira-Vouga lá ficou fechada a toda a gente.
Algum tempo depois — estava-se em plena Guerra Mundial — o Dr. Trinta abriu uma excepção e autorizou a que na Mata se efectuasse um ACAMPAMENTO DA LEGIÃO PORTUGUESA. E, num sábado, lá vieram os legionários. Tinham saído do seu quartel, no Jardim de Camões, desfilaram Rua Serpa Pinto abaixo, Praça, Companhia, subida para a Negrosa. O batalhão passou em frente da minha casa, comandado pelo Manuel Almeida Barros, comandante de lança, que era um nacionalista ferrenho. Analisei a tropa: gente de várias condições sociais e idades, nem novos nem velhos; alguns com sinais de prosperidade barrigal; outros, magros, com o corpo, a bailar-lhes dentro da farda, aspecto rural de quem estava mais habituado a manejar a enxada do que a espingarda; parecia-me um desfile de manequins fardados de verde, levando ao ombro uma arma; à frente, a bandeira da Legião Portuguesa, um tambor a rufar e um clarim tocado por um corneteiro do Regimento de Infantaria 14. Uns haviam-se inscrito por opção política; outros porque eram funcionários públicos e tinham sido pressionados pelo seus chefes para se inscreverem “voluntariamente”; outras ainda porque ser legionário era a melhor maneira de arranjar uma cunha para um emprego.
Passada a minha porta, esquerda volver, e entraram no portão do Mira-Vouga . E lá foram armar barraca. No dia seguinte, domingo radioso de Agosto, o portão da Mata foi aberto e os sampedrenses convidados a visitar o acampamento onde o patriotismo ressonara toda a noite. Lá fui eu também. Aquilo estava bem montado. Vim depois a saber que dois cabos de Infantaria 14 tinham vinda dar uma mãozinha na montagem das barracas.
Pelo meio da tarde, numa viatura da Legião, chegou o Comandante Distrital, Major Engrácia. Devidamente fardado de legionário, medalhas chapadas no peito e insígnia da Legião no braço, parecia-me Mussolini fardado de verde. O comandante de lança Barros bateu o tacão, fez continência e acompanhou-o ao fundo da Mata, onde estava formado o batalhão, frente à casa do Visconde de Mira-Vouga.
Duas cornetadas, o Major Engrácia passou revista à tropa de potenciais defensores da Pátria e iniciou alocução. Com a fronte humedecida de suor cívico e a destilar patriotismo, foram os chavões habituais. Terminou o seu inflamado discurso com o grito de guerra da Legião Portuguesa: “LEGIONÁRIOS, QUEM VlVE?” E os legionários: “PORTUGAL, PORTUGAL, PORTUGAL!” “LEGIONÁRIOS, QUEM MANDA? — “SALAZAR, SALAZAR, SALAZAR!”.
Saí de lá mais confortado: tínhamos ali quem nos defendesse!
Terminado o Acampamento, o portão do Mira-Vouga voltou a fechar-se e a Mata interdita, até que, em 1949, tudo mudou com a criação do Colégio de São Tomás de Aquino, a funcionar na casa do Visconde de Mira-Vouga, ao fundo da Mata. Lá passou também a residir o Dr. Sales Loureiro, um dos fundadores e directores do Colégio. O portão da Mata passou a estar aberto, para circulação dos alunos e automóveis dos professores, por uma estradita que conduzia ao Colégio. E eu voltei à Mata, agora numa nova relação. Já não era para mim local de brincadeira, mas de trabalho. Eu tinha-me matriculado na Universidade como aluno voluntário e, como tal não frequentava as aulas. A partir da Primavera, a Mata era o meu preferido local de estudo. Lá passava a maior parte do dia, a digerir as sebentas e a esgrimir com os filósofos, tendo por fundo a sinfonia dos gaios, dos melros, o arrulhar das rolas e o canto do cuco da ramalheira. Mas não estava sempre a estudar. Regulava-me pelos toques da campainha do Colégio e passei a conviver com alunos e professores. Ao toque de entrada, os alunos iam para as aulas e eu ia estudar; ao toque de recreio, misturava-me com os alunos a dar uns pontapés na bola. E assim fui carpinteirando várias cadeiras da minha formação académica.
Após três anos, o Colégio deixou de funcionar na Mata. Passou para a casa lá no alto comprada ao Dr. Trinta. O acesso passou a fazer-se pela Avenida José Vaz. Foi nessa altura que fizeram de mim professor, convidando-me a trabalhar no Colégio. O portão da Mata do Mira-Vouga voltou a fechar-se e eu nunca mais lá entrei.
Mata do Mira-Vouga da minha infância, da minha juventude, da minha saudade!
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