Coisas e Gente da minha Terra de NAZARÉ OLIVEIRA
Um Sonho
Há pouco tempo tive um sonho: a manivela do tempo começou a rodar no sentido contrário aos ponteiros do relógio e andou 80 anos para trás. Vi-me na Escola Primária da Negrosa. Era uma manhã de inverno. Estava um frio de rachar. Através da vidraça, víamos cair a neve, como se um padeiro estivesse no céu a peneirar farinha e um boticário a lançar pedaços de algodão em rama. Numa fantasia onírica, ouvia-se, em surdina, um acordeão e a voz de Charles Aznavour a cantar “Tombe la neige”.
Na secretária, o Prof. Metelo, com as suas galochas e capote alentejano, de ponteiro em riste na direcção do quadro preto, onde um aluno fazia uma conta de dividir, com números decimais, atrapalhado com as vírgulas que lhe trocavam as voltas. O Prof. Metelo, com o ponteiro, agarrava uma vírgula, como se agarrasse uma lombriga que se escapava, e colocava-a no lugar certo.
O resto da classe, nas carteiras, dentes a bater castanholas, bafejava as mãos para driblar o frio. Os alunos mais abonados tinham luvas e bons agasalhos. Os outros tinham frieiras nas orelhas e nas mãos engatinhadas, com dificuldade para agarrar o lápis de pedra com que escreviam nas ardósias.
De repente e, como nos sonhos tudo é possível, surgiram belos aquecedores a gás que deram à sala um ambiente acolhedor.
Neste momento acordei quentinho entre os cobertores da minha cama. Tomei contacto com a realidade e não pude deixar de pensar: naquele tempo, aquecedores nas salas de aula das escolas, só em sonhos!
Não mais pude conciliar o sono e, agora em estado de vigília, a manivela do tempo continuou a andar para trás e, pela minha mente, desfilaram as imagens dos meus companheiros da Escola Primária:
O JOÃO PAIVA, meu companheiro de carteira. Entre nós nasceu uma amizade que havia de fortalecer-se com o tempo. Quando ele cursava Medicina e eu me deslocava periodicamente a Coimbra para exames, sempre marcávamos encontro e alimentávamos os nossos sonhos juvenis de bairrismo sampedrense. E lá lhe fiz uma versalhada para o livro de grelado da Queima das Fitas. Ainda conservo esse livro. Quando ele, já médico, foi destacado para Angola em cumprimento do serviço militar, mantivemos assídua correspondência epistolar em que eu lhe mandava notícias da nossa terra. Regressado a Portugal, fixou-se em Lisboa, como médico psiquiatra. Quando vinha de férias, encontrávamo-nos a recordar os bons velhos tempos.
O ZÉ DIAS. Era outro amigo do peito, companheiro de uma vida. Deixou-nos há pouco tempo. Recordei-o nestas páginas, por altura da sua morte.
O VENCESLAU FREITAS. Para todos nós, o XALAU. Veio a ser um elemento destacado na comunidade sampedrense, participando em várias actividades cívicas, desde bombeiro a Presidente da Junta de Freguesia, durante vários mandatos. Quando eu ia a São Pedro do Sul, visitava-o na sua chapelaria. Algumas vezes me forneceu dados úteis para os meus escritos. A última vez que o vi foi numa cama do Hospital de Viseu, já muito doente. Nessa altura, pensei que era a última vez que o via. E foi.
O ANTÓNIO RODRIGUES. Era de Negrelos. Após a instrução primária, ingressou no Seminário. Algum tempo depois, saiu para frequentar a Escola do Magistério Primário. Aposentou-se como Professor e instalou-se na Residência Rainha D. Amélia, em Viseu, onde passou os últimos anos da vida. Nas suas vindas à cidade, encontrávamo-nos nos bancos do Rossio, a recordar os tempos da Escola.
O JOÃO RODRIGUES. Também de Negrelos. Seguiu a carreira militar. Foi sargento da G.N.R. e comandou o posto de Águeda. Encontrávamo-nos uma vem por ano, no dia de finados.
O GRACIANO FIGUEIREDO. Filho do Barreto, da Ponte, foi funcionário da E.D.P. Quando veio prestar serviço para Viseu, passámos a ter um convívio assíduo, até porque ajudei o seu filho a preparar-se para o exame do 7º ano. O nosso convívio tornou-se diário quando, já ambos aposentados, nos tornámos comensais no mesmo serviço social. Acabou os seus dias num lar de idosos.
O AMÉRICO CACHETA. Era da Ponte. Jogava futebol muito bem e, mais tarde, fez parte da equipa do Sampedrense.
O FERNANDO CARDÃO. Iniciou a sua vida profissional na firma da família Silvas e Farrecas. Já não o vejo há muito tempo. Encontrávamo-nos às vezes em Viseu, quando ele, aos domingos, vinha dar um passeio com a esposa.
O LAUREANO. Os pais tinham uma taberna na Avenida do Teatro, onde ele ajudava a vender petiscos e copos de vinho. Saíram de São Pedro e nunca mais o vi.
O VIEGAS. Fixou-se muito novo em Lisboa. Raramente o via.
O MANUEL CLEMENTE. Era o aluno mais bem vestido da classe. Sua mãe, D. Alice Farreca, fazia questão de que os seus filhos fossem os mais elegantes. Já o mais velho, Hernâni, na 4º classe, era o Petrónio da escola. O Manuel fez o curso de Engenheiro Electrotécnico e perdi-lhe o rasto.
O JOÃO SIMÕES. Era um dos três alunos oriundos da família Silvas e Farrecas. Convivemos bastante na nossa adolescência, Ele comprava e lia muitos livros que me emprestava. Durante algum tempo, foi Comandante dos Bombeiros Voluntários. Por razões profissionais, fixou-se noutra localidade e raramente nos voltámos a ver.
O ANTÓNIO GOMES. Para todos nós, familiarmente, o TÓNIO BADALO. Nem ele nem eu sabíamos que, muito mais tarde, eu haveria de descobrir que ele era descendente de um famoso pegador de touros amador — o Manuel Badalo — que brilhou nas corridas de touros em São Pedro do Sul, em honra da Rainha D. Amélia, em fins do século XIX.
O António Gomes viria a ser o cauteleiro-mor de Lafões. Todas as semanas eu lhe comprava uma cautela. Só não lhe perdoo o facto de nunca me ter vendido a taluda.
O FERNANDO CAMBADA. Era o “AVÔ”, como o baptizara o Prof. Metelo, por ser o mais velho e repetente. Era de Pouves e não teve vida fácil. Quando, mais tarde, me encontrava, aproximava-se de mim, com a atitude humilde que sempre tivera, à procura de uma palavra amiga, que eu adivinhava como um pedido de ajuda para as suas necessidades. Sempre o pus à vontade, exigindo-lhe que nos tratássemos pelos nomes próprios. Sei que outros colegas o ajudavam também.
O MAÇAROCAS. Assim o tratávamos, porque era daquela povoação.
O ANTÓNIO FONSECA. Filho do Evangelista, seguiu a profissão do pai: funileiro.
O ANTÓNIO DE NEGRELOS. Há tempos, no Hospital de Viseu, encontrei um seu filho que me reconheceu e se identificou.
O PENEDO. Intencionalmente, deixei-o para o fim, porque vai ser objecto exclusivo da próxima crónica.
Se me esqueci de algum, onde quer que esteja, que me perdoe!
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