Coisas e Gente da Minha Terra de Nazaré de Oliveira*
O Campo da Pedreira e o Futebol (1ª parte)
O Campo da Pedreira atualmente
As minhas reminiscências levam-me a meados dos anos 30 do século passado. Teria eu os meus seis anos. Tenho a ideia de uma equipa de futebol e de alguns nomes que a constituíam: o Bernardino Canejo, guarda-redes e meu vizinho, o meu tio Alípio, o Zé Rezadeiro, o Fernando Farrusqueiro, o Avelino Gracindo, o Manel da Maria Delfina. Meu tio levava-me às vezes a assistir aos treinos. Camisolas amarelas, estavam ligados aos Bombeiros.
No início da década de 40, veio a Guerra Mundial e a febre do volfrâmio. Algumas terras onde o minério abundava enriqueceram. Foi o caso de Travanca de Bodiosa, entre São Pedro e Viseu. Travanca, numa manifestação de novo-riquismo, entendeu que havia de ter uma equipa de futebol a disputar campeonatos. Não tinha jogadores mas tinha dinheiro. São Pedro do Sul tinha jogadores mas não tinha um clube legalizado. Então o Travanca Futebol Clube veio buscar os jogadores de São Pedro. Por essa altura, eu estava a estudar em Viseu. Fiz-me adepto do Travanca e várias vezes ia vê-lo jogar no campo do Fontelo, contra o Académico e contra o Lisboa e Viseu. Os meus colegas admiravam-se de eu de São Pedro do Sul ser adepto do Travanca que nem sequer era do Concelho. Lá lhes expliquei que eu era apenas adepto dos futebolistas da minha terra. Enquanto houve dinheiro, houve Travanca futebolístico. Mas o Travanca foi o embrião do Sampedrense. Uma grupo de gente nova, liderada pelo João Pinheiro, fundou a UNIÃO DESPORTIVA SAMPEDRENSE cujos estatutos foram aprovados em 10 de Janeiro de 1946. Inscrito na Associação de Futebol de Viseu, o Clube passou a disputar campeonatos.
Os jogos eram no CAMPO DA PEDREIRA e a equipa era formada pelos que tinham jogado no Travanca e mais alguns. Usando a terminologia da época, originária da pátria do futebol, o keeper (guarda-redes) era o Quiparunga, corruptela de Keeper Húngaro, famoso guarda-redes magiar daquele tempo. O Quiparunga era rebelde e gaguejava um pouco — a falar e às vezes a sair da baliza — e tanto fazia defesas espectaculares como consentia uns frangos; os back (defesas) eram: o Silvério, sarrafeiro conhecido por “Arranca Pinheiro”, o Tum-Tum, capitão da equipa e grande senhor do futebol distrital, o Zé Gato; os halfs (médios) Toninho Cacheia, Armindo Madeira e Araújo; na linha avançada, o
Pilão a ponta direita, o Barriguinhas a interior, a avançado centro (ainda não se falava em ponta de lança) o Viriato ou o Heitor ou o Carlos, que alternavam, a interior esquerdo o Fernando Plaio e a ponta esquerda o Charló, outro artista da bola que acabou por ser pescado pelo Académico do Porto. Outros foram aparecendo: o Alfredo Salgueiro (o “Chora”), o Américo, que foi meu colega da instrução primária, o Roqueiro, o Charuto, o Jóia, o Caninhas… Off-side era fora de jogo, corner, livre de canto e outros termos do vocabulário britânico.
O CAMPO DA PEDREIRA era apenas o rectângulo do jogo e as balizas. Balneários não havia: apenas um barracão com divisórias para as duas equipas e os árbitros se equiparem. Bancadas também não havia. Ao cimo da rampa de acesso, uma porteira com um cacifo ao lado, onde se compravam os bilhetes. Num bufete improvisado, vendiam-se copos de vinho, pirolitos, laranjadas e sandes. A assistência distribuía-se por dois lados do campo: atrás da baliza próxima da entrada e num morro sobranceiro ao lado direito que funcionava como uma bancada natural, onde muitos se sentavam à sombra dos pinheiros; outros ficavam de pé ou levavam de casa um banquinho de lona. Os outros dois lados do campo não tinham condições porque eram em declive. A assistência era essencialmente constituída por gente da Vila e Ponte, freguesias vizinhas e acompanhantes da equipa adversária. Quando se tratava do derby lafonense, Sampedrense/Vouzelense, vinha muita gente de Vouzela. Era a velha rivalidade “ceboleiros/espicha-sapos”. A velar pela ordem, a GNR na forma de patrulha comandada pe Silvério “Cara de Aço”. Na assistência havia de tudo, desde os moderados circunspectos aos mais exaltados e desbocados. Lá estavam algumas figuras típicas da terra: o mulherio da Ponte, em peso, liderado pela Maria Piçuda, espécie de Maria da Fonte da claque feminina. Não levava pistolas na mão, mas levava a língua afiada. Não era a Maria da Fonte mas era a Maria da Ponte. Só diferença de uma letra. Era uma mulher estimada no seu bairro. Mais tarde, casou com meu tio José Nazaré, comandante dos Bombeiros, cujo perfil já tracei. Mas voltemos ao Campo da Pedreira. Algumas daquelas mulheres tinham no campo o seu filho, o seu marido ou o seu irmão. A Maria Piçuda era irmã do Charló; a D. Julieta, rainha do pão-de-ló, era mãe do Viriato. Eles lá andavam a suar a camisola. Era preciso apoiá-los. Na assistência masculina, lugar de destaque para o Adelino Pereira, sócio da Firma Adelino e Silva, homem simpático a rondar a terceira idade e que não percebia nada de futebol, mas fizeram dele Presidente da
União Desportiva Sampedrense, porque era entusiasta e lá ia escorregando com as massas. Só não estava na tribuna presidencial, porque tal coisa não existia. Outro entusiasta era o velho Manuel Farreca: quando o Quiparunga deixava entrar um golo, lançava um sonoro e arrastado “P O R R A” que se ouvia em todo o campo. E o Teles, sem bombo, a apoiar o seu filho Tum-Tum. E o Matias que deixava a sovela em casa, não fosse por lá ser tentado a furar o cabedal ao árbitro. E o velho Francisco Portelo, se o árbitro marcava penalty contra o sampedrense, “passa lá pela minha oficina que eu ponho-te um par de ferraduras”. E o Manuel Luizinho a apoiar o seu filho Fernando Plaio. E o Reis que, mais tarde, viria a ser dirigente destacado do Sampedrense e traria à Pedreira uma equipa do Futebol Clube do Porto. E tantos outros: o Asa Negra, o Granja, o Farturas, o Abel, que dava saltinhos quando o Sampedrense metia golo, enquanto o Nascimento soprava umas flautadas com acordes do hino da Maria da Fonte, e a Eva, abraçando o seu cântaro, “quem quer água!” Figuras típicas de São Pedro do Sul, em meados do século XX! Se o Quiparunga defendia um penalty, passava de frangueiro a herói. Às vezes por pouco tempo, porque lá vinha outro frango e lá se ia o heroísmo.
Acabados os jogos, como não havia balneários, só havia como solução ir tomar banho a casa ou, se era tempo quente, ao rio Vouga que corria logo abaixo. Alguns mais ousados, jogadores ou assistentes, lançavam-se de mergulho na Ponte Nova.
Com o tempo, o Campo da Pedreira foi recebendo beneficiações.
*Professor
(Continua)
15/04/2021
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