COISAS E GENTE DA MINHA TERRA de NAZARÉ OLIVEIRA
QUANDO A DIVINDADE TREME…
Contava-se em São Pedro do Sul um episódio passado com um beberrão, que ficou na memória das gentes e está na origem do título desta crónica. Há 30 anos, aproveitei esse episódio para escrever um conto que está publicado (in Contos-Antologia, ed. da Câmara Municipal, 1992). Vou reescrevê-lo, reformulado e reduzido à dimensão das minhas crónicas. Porque não conheci esse homem, criei para protagonista uma personagem inspirada numa figura da minha infância: um sapateiro próximo da minha casa e que muitas vezes vi bater a sola e manejar a sovela. Tinha cumprido o serviço militar na marinha. Chamavam-lhe “O Marujo”. Um conto, além das personagens, precisa de um contexto. Foi o que imaginei, servindo-me de várias figuras que contracenam com o protagonista. São todas personagens reais sampedrenses, com os seus verdadeiros nomes. Os cenários são igualmente reais e fazem parte da vida local da época. Vamos lá então ao Conto:
Domingo de Lázaro amanheceu soalheiro. Mesmo a calhar para o Senhor dos Passos dar o seu passeio anual. O Marujo começou o dia com um copito de aguardente na tasca da Adelina, na Negrosa. Foi descendo até à Companhia e parou no Diamantino. Comeu uma bucha, bebeu um copo e foi andando até à Praça. Passante dos sessenta, o maldito reumático é que não o largava, a lembrar-lhe a promessa que iria fazer ao Senhor dos Passos, quando Ele saísse em procissão. Foi encostar-se à ombreira da Casa das Paulas, junto à loja do Lininho, a mirar o panorama. No Edgard, os frequentadores habituais tomavam o seu café ou esperavam vez no graxa João Manco. No Adro, grupos a cavaquear e fazer horas para a Missa. O Marujo não era homem de missas e ali ficou a ruminar o passado: via-se a deixar São Pedro do Sul, quarenta anos antes, de saco aviado, para assentar praça na marinha. Aquilo é que tinham sido tempos! Qual reumático, qual carapuça! Correra mares, vira terras, granjeara amigos! E alguns inimigos, que o vinho e as mulheres sempre lhe tinham arranjado sarilhos. Ainda pensara em seguir a carreira de marinheiro. Chegara mesmo a meter os papéis. Que tinha a caderneta suja! Tivesse tido juízo e talvez fosse hoje um sargento reformado e não o borra-botas que ali estava a congeminar. Cumprido o serviço, voltara à terra. A alcunha de Marujo nunca mais o largou. A Marinha abrira-lhe os olhos. Botara corpo. Alto e desempenado, cheio de proa, como se fosse o capitão do mundo. As raparigas davam-lhe trela. Mas nunca se deixou amarrar. Não era pássaro a quem cortassem as asas. Fizera várias tentativas de arranjar emprego. Meteu empenhos, mas, como quem não tem padrinhos morre moiro, que remédio tivera senão agarrar-se de novo à sovela. Algum tempo depois, o patrão quis passar a oficina. O Marujo vendeu a última belga e passou de empregado a patrão. Andava pelos trinta. Tinha uma saúde de cavalo. Bebia-lhe bem. Que tinha mau vinho! Que armava em valentão! Que culpa tinha ele de que o provocassem! Nunca as cortara e nas romarias lá estava de peito feito para o que desse e viesse. E às vezes havia bordoada rija, como naquela Senhora da Guia em que andava de despique com um safardana de Carvalhais que lhe disputava a Luísa, uma moça desenxovalhada, de fazer perder a cabeça a um homem. Arrancou para a festa, de parceria com o Zé da Moita, seu companheiro de valentias. Bebidos uns copos, topou com a Luísa, que saía da capela, de rezar à Santa. Despediu-se do Zé da Moita, que nisto de namoros um é pouco e três é demais. Compraram umas cavacas e acamparam à sombra dos pinheiros. A Luísa trazia farnel. Comeram, beberam e ficaram a namorar. Regressaram ao arraial. Foi então que deu de caras com o de Carvalhais a rondar-lhe a moça. Piada daqui, piada dali, o outro começou a levantar a grimpa e chamou-lhe gabarola. Aquilo buliu-lhe com os brios. Pegaram-se. O safado puxou de navalha e ele não esteve com meias medidas: deitou a mão a um fueiro do carro das pipas e, em menos de um fósforo, o outro malhava no chão com a cornadura a esguichar sangue. Uma carga de trabalhos! Veio o Silvério Cara de Aço com a patrulha e lá foi para averiguações. Acabou por sentar o cu no mocho. Valeu-lhe o Dr. Zé Pelico, que sabia da poda e, com a conversa da legítima defesa, lá o safou. A Luísa gostava dele e quase o levou ao altar, mas, como ele não se decidia, acabou por casar com o de Carvalhais. Belo preço para uma fueirada! Tinha-a visto há dias na Feira Velha, tão acabada como ele. Mas isso eram águas passadas! Nos últimos tempos, a saúde começara a atraiçoá-lo. Por volta dos cinquenta, estivera mesmo às portas da morte. Valera-lhe o Antoninho Enfermeiro, um artista o botar as bichas. Arribou, mas nunca mais foi o mesmo homem. O reumático começou a apoquentá-lo. Foi ao Hospital. O Dr. Aloísio receitou-lhe menos vinho e banhos nas Termas. Vinho… fez ouvidos de mercador. Os banhos fizeram-lhe bem. O pior é que a figadeira também começava a dar sinal. E lá tornava o Dr. Aloísio: “Pois é, os banhos fazem-te bem, mas os vinhos fazem-te mal”. Continuou a beber e foi rareando os banhos. Já estava farto de pôr o cabedal de molho. Com o rodar dos anos, as coisas foram-se agravando. E o Doutor sempre a seringá-lo: “Se continuas a beber dessa maneira, arranjas uma cirrose que vais desta para melhor”. Aí, a palavra cirrose começou a martelar-lhe o cérebro. Foi então que uma ideia fulgurou no seu espírito: a Promessa. Sempre tivera uma fé com o Senhor dos Passos. Logo, quando Ele passasse em Procissão, havia de prometer-lhe que, a partir daí, passaria a beber menos. E ali estava, naquela manhã de Domingo de Lázaro, à esquina da loja do Lininho, a botar contas à vida.
O relógio da Torre batia, compassadamente, as 11 badaladas. O Marujo voltou ao presente. Eram horas de visitar os Passos. Arrancou direito ao Convento. Lá estava o Senhor dos Passos carregando a cruz. O Marujo puxou pelas suas reminiscências e lá arrancou um padre-nosso. Segundo Passo, na Capela de S. Sebastião. E lá saiu mais mais um padre-nosso. Em frente, ficava o Palmilhante. Entrou e abancou. Mandou vir uns torresmos, uma litrada e comeu como um príncipe. Uma cigarrada e ficou-se numa preguiça sorna. Começou a dar-lhe a soneira. Prestes a passar pelas brasas, foi impedido pela voz roufenha do Calombro que pregava o seu eterno sermão. Olhou as horas. Era tempo de abalar. E lá vai, Rua Direita abaixo, a pensar nos alcatruzes da vida que lhe tinham arruinado o cavername. Na Capela de Santo António, terceiro Passo e mais um padre-nosso. Igreja Matriz e quarto padre-nosso.
Segui-se a Capela das Paulas. Mas, à saída, deu de caras com a taberna da Joaquina. Mais uns copos. Rumou para a Ponte. Na Capela de S. Bartolomeu, armava-se o Passo que mais o encantava: os Judeus de papelão em tamanho natural, Cristo em frente de Pilatos que lavava as mãos, Judas a contar os 30 dinheiros… Engrolado o último padre-nosso, iniciou o regresso à Vila. Mas à entrada da ponte ficava o Barreto. E o Marujo parou a filosofar: que culpa tinha um homem que à saída de cada capela pusessem uma taberna? Parecia que o céu e o inferno andavam ao desafio! Depois, não ia ele daí a pouco fazer a Promessa? Que mal tinha mais um copo? Entrou e acabou de encher a vasilha. Aproximava-se a hora da Procissão. E lá vai o Marujo, a cambalear. Parou no portão da Caldeiroa, para verter águas. Ensarilhavam-se-lhe as pernas, mas lá chegou à Vila. Encostou-se à parede do Adro, frente à Capela de Santo António, com a Promessa engatilhada. A Praça estava repleta. Já se ouviam os acordes da Filarmónica. A Procissão descia a Rua Direita e, à esquina da Casa do Marquês, aparecia a Cruz, seguida pelas irmandades com os anjinhos. E, na embocadura da rua, surge o ANDOR DO SENHOR DOS PASSOS. A música calou-se e a Procissão parou. Só o andor continuou a avançar para a Capela de Santo António. Ia cantar-se o miserere. O Marujo tinha os olhos no Senhor. Mas, porque os homens que transportavam o andor não eram todos da mesma altura e porque o piso era irregular, o Senhor dos Passos oscilava. O Marujo começou a ficar perplexo. Já não sabia quem cambaleava: se era ele ou o Senhor dos Passos. Arrimou-se mais à parede do Adro, firmou-se bem, abriu o compasso das pernas e olhou de novo. Estendendo o braço, apontou o Senhor e, em alta voz, quebrou a religiosidade do silêncio; “QUANDO A DIVINDADE TREME, NÃO ADMIRA QUE A HUMANIDADE CAMBALEIE!” Estavam justificadas todas as bebedeiras. As passadas e as futuras.
10/06/2021

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