Coisa e Gente da Minha Terra por Nazaré Oliveira

AS PROCISSÕES (I)

A PROCISSÃO DO SENHOR DOS PASSOS

Noutros tempos, São Pedro do Sul era terra de Procissões. A primeira do ano era a Procissão do Senhor dos Passos que marcava o início das cerimónias da Páscoa. Saía da Igreja do Convento e ao Convento regressava, depois de um longo percurso com paragens em todas as igrejas e capelas, onde se armavam os Passos do Senhor.

Era o 1º Domingo da Paixão, também conhecido por Domingo de Lázaro. A Procissão abria com um grande painel com as letras S P Q R, erguido ao alto por um homem forte. Seguiam-se as irmandades: a do Santíssimo com opas vermelhas, a de S. Sebastião com opas brancas. No meio, os Anjinhos saídos a rigor das mãos da Liberata, especialista a vestir anjinhos. E todo o cenário da grande tragédia que se aproximava: o Andor com o Senhor dos Passos, com longos cabelos e olhos tristes, envolto no seu manto roxo, curvado e carregando às costas o madeiro com que havia de subir ao Calvário e crucificado; a Verónica com o santo sudário e as Três Marias de lencinho nas mãos a limpar lágrimas; o andor de Nossa Senhora, a acompanhar o Filho no seu martírio.

Descida a escadaria do Convento, andor do Senhor dos Passos parava na vizinha capela de S. Sebastião, para o Grupo Coral Sacro cantar o Miserere: o Dr. Abel Poças, o Zeca de Moldes, o Amadeu Teles (Barão da Agulha), o Zé do Pico, o António Teles, na cantoria em latim, e Manuel de Oliveira (o Meu Pai), acompanhando à flauta. Estava visitado o primeiro Passo. Depois, a Procissão seguia, Rua Direita abaixo. A Banda Filarmónica Harmonia marcava o compasso das irmandades, dos andores e dos anjinhos. Sob o Pálio de varas empunhadas por pessoas gradas da terra, que se iam revezando, o Sacerdote: nos primeiros anos da década de 40, o Senhor Vigário, alto e solene; a partir de 1944, o cónego Isidro. Duas figuras de que guardo gratas recordações; o primeiro, dos tempos da minha infância, baptizou-me, acompanhou-me na catequese e ministrou-me a primeira comunhão; o segundo casou-me e com ele trabalhei nas lides docentes.

Desculpem-me esta referência de carácter pessoal a que não pude furtar-me! Voltemos à Procissão. Chegada à Praça, nova paragem na Capela de Santo António, 2º Passo, para se cantar o Miserere. A seguir, na Igreja Matriz e na Capela do solar das Paulas, o mesmo ritual. Depois vinha a grande caminhada. A Procissão seguia para a Ponte, rumo à Capela de S. Bartolomeu. Ali se armava o mais espectacular Passo: judeus de papelão, em tamanho normal. Cristo preso em frente de Pilatos que lavava as mãos numa bacia. Judas a contar os trinta dinheiros, um feroz Herodes e um mal encarado Caifás. O Passo era armado, com mestria e imaginação, pelo Viegas.

Cantado o Miserere, a Procissão iniciava o longo regresso à Vila. Ponto estratégico para se ver passar a Procissão era o Jardim do solar de Palme, vulgarmente conhecido por Jardim dos Monizes, que esta família facultava. Situado num plano um pouco superior à estrada, era aí que eu me instalava. Já se ouviam os acordes da Filarmónica a tocar a marcha lenta que marcava o ritmo das irmandades, dos andores e dos anjinhos. Ultrapassada a curva da Caldeiroa, aparecia a Procissão que acusava já os efeitos da longa caminhada, sobretudo os anjinhos, estafados, derreados, as asas mais ou menos tortas, as mãos caídas, cansados de olhar para o céu, o olhar murcho, arrastando os pés a caminho do Convento como se fossem a caminho do Calvário: um Cristo menino imitação do Cristo grande do andor, um S. Sebastião a arrastar a seta, uma Santa Teresinha cabisbaixa… Coitadinhos dos anjinhos! Interrogam-se às vezes os homens sobre qual será o sexo dos anjos (do céu, evidentemente). Mas este eram anjinhos a fingir, da terra, de carne e ossos, com humanas necessidades, e já caminhavam havia horas.

A Procissão lá se arrastava, Rua Serpa Pinto acima, Bairro de Camões, até recolher ao Convento. O Cónego Isidro fazia uma prédica de encerramento muito breve, que, após tanto tempo e tão longo percurso, não havia devota, por mais beata que fosse, que não estivesse ansiosa por regressar a casa. O Senhor dos Passos, no seu andor, era colocado num nicho lateral, após o portal da entrada no Convento. E dali só voltaria a sair para a procissão do ano seguinte. Mas não lhe faltavam velinhas que algumas devotas, especialmente beatas que frequentavam a missa do Convento, lá deixavam.

Os anjinhos regressavam às mamãs e alguns voltavam a passar pelas mãos da Liberata, para reparar os estragos da longa caminhada que não tinha sido positivamente um passeio pelo Paraíso. A Liberata retocava-os, dava-lhes um segundo fôlego e os anjinhos, recauchutados, lá iam para o Edgard tirar o retrato para a posteridade familiar.

Eu nunca fui de anjinho em criança. Mas — como todos nós — fui algumas vezes “anjinho” em adulto.

(Continua com outras procissões)

16/09/2021


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