Cerca de dois milhões de pessoas manifestaram-se contra o terrorismo
Vinte pessoas morrem em Paris, na sequência de atentados terroristas
No passado domingo, dia 11 de janeiro, Paris foi o centro do mundo. Mais de um milhão de pessoas deslocou-se à capital francesa para dizer não ao terrorismo e ao extremismo e sim à liberdade de expressão e de imprensa. Depois do atentado ao Charlie Hebdo, um jornal satírico francês, têm sido muitas as manifestações de solidariedade. Nos últimos dias, Paris foi alvo de vários atentados terroristas, o primeiro, foi no passado dia sete, na redação Charlie Hebdo, nos dias seguintes destaque para a invasão de uma gráfica e um sequestro num supermercado. Vinte pessoas morreram.

“Je suis Charlie” ou, em português, eu sou Charlie. Esta tem sido, nos últimos dias, uma das frases mais ouvidas por todo o mundo. Uma frase simples, mas que diz muito entrelinhas. Diz estar solidária com as vítimas dos atentados, diz, ainda, que a Liberdade de Expressão é um direito fundamental de que ninguém abdica. Depois de dois atentados terroristas que ocorreram em Paris, o mundo uniu-se e prova não ter medo.
Os ataques terroristas, passo a passo
Dia 7 de Janeiro de 2015. Era dia de reunião editorial no Charles Hebdo. Dois homens armados entraram na redação deste jornal satírico e mataram dez pessoas, a maioria jornalistas. À saída, no confronto com polícias, os dois terroristas fazem mais dois mortos. Os dois assassinos terão dito que vieram vingar Maomé. “Vão pagar por terem insultado o profeta”, terão dito. Em causa alguns cartoons do jornal satírico sobre o Islão e o extremismo religioso. O Jornal, inclusive, já tinha sido alvo de ameaças e outros ataques (em 2011, na sequência de outro cartoon sobre Maomé as instalações do Jornal foram incendiadas). Os terroristas fugiram. Logo, foram identificados: Cherif e Said Kouachi, dois irmãos franceses de origem argelina.
Com os dois irmãos a monte, o terror estava patente nas ruas de Paris. A passada sexta-feira, dia 9 de janeiro, França acordou com uma perseguição policial, em Dammartin-en-Goële, a cerca de 40 km a norte de Paris, aos dois terroristas. Nesta sequência, os dois irmãos invadem uma gráfica. Um colaborador da empresa conseguiu esconder-se e terá orquestrado com a polícia a invasão.
Em sintonia, Amedy Coulibaly entra armado num supermercado e faz vários réfens. Informa que têm ligações com os irmãos Kouachi e deixa uma ameaça: se os dois jovens forem presos ele mata os reféns.
Depois de cerca de 8 horas barricados na gráfica, a polícia avança com a invasão e mata os dois terroristas. Em resposta, Amady Coulibaly começa a atirar. A polícia decide invadir o supermercado e mata o sequestrador. O rapto causou mais cinco mortes, entre as quais, mais um polícia.
Hayat Boumeddiene é, agora, a mulher mais procurada, alegada namorada de Coulibaly. Acredita-se que esta, esteja, também envolvida na mesma rede terrorista e que estará, inclusive, envolvida na morte de um polícia em Paris. Pensa-se que a jovem já deve estar na Síria.
“Lapís respondem de pé”
No passado domingo, 11 de janeiro mais de um milhão de pessoas, dezenas de líderes de todo o mundo, tomaram a cidade de Paris e marcharam contra o terrorismo. “A cidade da luz” mostrou através da adesão, que o terrorismo não deixou ninguém na escuridão. Máximas como “Liberdade”; “Igualdade” e “Fraternidade”, foram mais uma vez entoadas naquele que foi o palco da Revolução Francesa, em pleno século XVIII.
Desde do massacre em Charlie Hebdo têm sido muitas as manifestações contra o terrorismo e em prol da liberdade de expressão. Muitos cartoonistas usaram o lápis para homenagear os colegas assassinados, criando desenhos elucidativos; um pouco por todo mundo, jornais usaram a primeira página para se associarem a esta causa. As condenações públicas destes atos terroristas foram constantes. Os principais líderes mundiais marcaram presença.
A Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa) também veio manifestar o seu “repúdio pelo bárbaro atentado esta manhã perpetrando em Paris contra a redação da revista Charlie Hebdo”.
“Aos editores do Charlie Hebdo e às famílias dos jornalistas e dos agentes de segurança tão barbaramente assassinados bem como às Associações Francesas de Editores de Jornais e Revistas, a APImprensa vem manifestar a sua solidariedade e apoio na luta contra todos os que, por razões políticas, religiosas ou étnicas atentam contra a vida humana e põem em causa o direito à informação e à expressão de opiniões seja por que meio for”, começa.
“Este atentado tem tal dimensão que só uma firme e global condenação pode assegurar que os valores democráticos sairão vitoriosos de ataques como o que o Charlie Hebdo foi vítima, sem qualquer justificação ou compreensão”, acrescentam.
Charlie Hebdo o Jornal dos sobreviventes
Charlie não morreu. Uma semana depois dos atentados, está nas bancas, como uma tiragem de três milhões de exemplares. A edição está também à venda em Portugal.
Na capa da revista pode ver-se Maomé, com uma lágrima no olho, segurando um cartaz com a emblemática expressão “Je suis Charlie”. A cor predominante é o verde, a cor do Islão. Os sobreviventes cumpriram o que prometeram e depois da morte do diretor e de algumas das figuras mais proeminentes, continuam. As justificações estão no site do jornal: “porque o lápis estará sempre acima da barbárie; porque a liberdade é um direito universal…”
Numa onda de solidariedade na classe jornalística, a imprensa francesa já conseguiu mobilizar meio milhão de euros para garantir a continuação do Charlie Hebdo. O “Le Monde” ofereceu cinco computadores, uma impressora e um scanner, já o “Libération” cedeu as instalações.
Os mártires da Liberdade de Expressão e de Imprensa
Não é inédito morrer por defender valores como a Liberdade de Expressão e de Imprensa, antes pelo contrário. Segundo relatório publicado pelos “Jornalistas sem Fronteiras”, no ano de 2014 foram assassinados 66 jornalistas, 119 foram raptados, 178 presos; 853 detidos; 1846 ameaçados ou agredidos e 134 foram obrigados a exilar-se. O massacre em Charlie Hebdo, os repórteres, recentemente decapitados no Iraque, são os exemplos mais mediáticos de uma realidade adversa. Em pleno século XXI, a Liberdade de Expressão continua a ser posta em causa. Jornalista de todo o mundo garantem preferir “morrer de pé do que viver vergados”. Como se fez ouvir, por estes dias, a classe, “terão que nos matar a todos” para conseguirem aniquilar um direito teoricamente assegurado.
Humor tem limites?
Outro dos debates em causa é até que ponto o humor tem ou não tem limites. Há quem garanta que “je ne suis pas Charlie” (Eu não sou Charlie). Ou seja, apesar de condenar o atentando, nunca justificável e o extremismo religioso, acreditam que a revista tem contribuído para propagar sentimentos racistas e colonialistas.
“Não me identifico com a representação degradante e “caricatural” faz do mundo islâmico em plena época da chamada “guerra contra o terror”, com toda a carga racista e colonialista que isso traz. Não posso ver com bons olhos essa constante agressão simbólica que tem como contrapartida uma agressão física e real, mediante os bombardeios e ocupações militares a países pertencentes a esse horizonte cultural”, defende José Antonio Gutiérrez no “Semanario Voz.”
Extrema-direita avança
Estes atentados foram para Frente Nacional, em França, uma oportunidade de propagarem algumas ideias extremistas. Marine Le Paine considerou que estes ataques foram previsíveis e defendeu que a França deve fechar as portas a cidadãos que tiverem combatido nos países islâmicos. Defendeu, ainda, o encerramento imediato do espaço Schengen, ou seja, a livre circulação de pessoas dentro do espaço europeu. Depois de ter prometido em novembro de 2014, referendar a saída da França da União Europeia, a Eurodeputada vem agora prometer novo referendo, desta vez sobre a Pena de Morte regressar a França.
Este discurso ditou a exclusão do partido na marcha do passado domingo. Uma iniciativa que apelava aos valores da República entre os quais a tolerância. Em reposta, François Holande pediu para não haver generalizações, assegurando que os atentados nada tem que ver com a religião islâmica.
Este facto verifica-se um pouco por toda a Europa. Destaque para a manifestação na Alemanha, organizada pelo movimento Pegida (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente) que contou com mais de 500 pessoas.Redação Gazeta da Beira
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