CARMO BICA – MULHER DE IDEIAS, DE GRANDES PALAVRAS, DE FORTES CONVICÇÕES

UM EXEMPLO DE VIDA

CARMO BICA

MULHER DE IDEIAS, DE GRANDES PALAVRAS, DE FORTES CONVICÇÕES

UM EXEMPLO DE VIDA

• Paula Jorge (Diretora Adjunta)

A Gazeta da Beira perdeu a sua líder. Perdeu a sua capitã. Perdeu a mulher guerreira, que todos orientava e ajudava. Estamos incrédulos, com a mais profunda tristeza e dor irreparável.

Resta-nos o inigualável legado com que se bateu nas lutas ambientais e sociais. Foi, sem dúvida, uma das vozes que mais lutou pelo combate ao abandono do interior e a organização associativa em torno do desenvolvimento rural na Região de Lafões. Era conhecida pela sua combatividade, mas também por uma inesgotável energia e capacidade de trabalho. Ensinou muito sobre agricultura, silvicultura, florestas, sobre uma visão do mundo rural, baseada num desenvolvimento local com o envolvimento das populações. Feminista, porque, para ela, a força da mudança estava nas mulheres.

Carmo Bica, Engenheira Agrícola, ativista e dirigente associativa, desde sempre ligada ao desenvolvimento rural da Região de Lafões, também autarca e dirigente do Bloco de Esquerda. Seguiu para a Escola Superior Agrária de Coimbra, completando os estudos superiores com uma pós-graduação na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Lecionou a partir de 1986 e no início da década de 1990 começou a sua carreira como técnica superior no Ministério da Agricultura. Atualmente desenvolvia a sua atividade na Rede Rural Nacional, uma plataforma da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural para promover a participação e o trabalho conjunto entre os agentes de desenvolvimento rural em Portugal.

O percurso associativo de Carmo Bica levou-a a dirigir, durante 18 anos, a Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões e a presidir à Cooperativa 3 Serras de Lafões, em Vouzela. Foi também dirigente da Confederação Nacional de Agricultura, enquanto representante da Associação Regional de Agricultores de Viseu, a qual fundou e foi primeira presidente. Foi ainda dirigente da ANIMAR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local. O ativismo em defesa do mundo rural aliou-se, na vida de Carmo Bica, com o da defesa dos direitos das mulheres agricultoras e rurais. Em março deste ano, num artigo escrito para um livro editado pela associação UMAR, da qual fez parte, reconhecia que “está tudo por fazer” para promover a efetiva igualdade de género nos meios rurais. Carmo Bica mostrava muita sensibilidade aos problemas das mulheres rurais e às desigualdades no interior do país.

A atividade política de Carmo Bica passou pela militância comunista nos anos 1980 e 1990, passando pela UEC e pela direção da JCP. Foi deputada municipal em Vouzela entre 1989 e 1993 e candidata às legislativas de 1991 e 1995, protagonizando depois a candidatura do PCP à autarquia de Vouzela em 1997. A aproximação ao Bloco de Esquerda nasce com o convite de Miguel Portas para integrar a lista às eleições europeias de 2004, na qual o Bloco elegeu o primeiro eurodeputado. Carmo Bica integrou depois vários órgãos concelhios e distritais do partido, em Viseu e Lisboa, onde foi eleita autarca na freguesia de Campolide no atual mandato. Fez também parte da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda a partir de 2014 e das listas às últimas legislativas pelo círculo de Lisboa. Participou nas correntes internas bloquistas, no grupo “Manifesto” e na “Convergência”.

Na última década, Carmo Bica dinamizou o Grupo de Trabalho de Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento Rural do Bloco de Esquerda e coordenou o Grupo de Trabalho de Agricultura do Partido da Esquerda Europeia. No âmbito do Parlamento Europeu, participou ativamente nas atividades do intergrupo dos Bens Comuns e coordenou vários encontros sobre economia social e terceiro setor promovidos pelo GUE-NGL. Destacou-se também no movimento social pelo encerramento da central nuclear de Almaraz. No esquerda.net, assinou uma coluna de opinião onde tratava de temas ligados à agricultura, soberania alimentar e políticas para o interior, feminismo e direitos das mulheres.

Vai longo o currículo de Carmo Bica, mas muito haveria ainda para referir. Resta-nos lembrar o sorriso aberto e luminoso quando defendia as causas em que acreditava. O observar atento e sensível das injustiças e dos atropelos à democracia, com uma irreverência contagiante. Carmo Bica era mulher de ideias, de grandes palavras, de fortes convicções, mesmo que estas fossem difíceis de executar. O “baixar os braços” não fazia parte do seu modus operandi. Lembremo-nos, pois, do seu sorriso maravilhoso para encontrarmos a força necessária para seguirmos o seu grande exemplo de vida.

À família, o mais sincero e profundo abraço de solidariedade.

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