Carmo Bica e António Bica
A actual crise da economia Neoliberal – (parte 1)

O desenvolvimento tecnológico está a dispensar cada vez maior número de trabalhadores com o consequente despedimento progressivo dos que têm contrato de trabalho e grande redução da contratação dos trabalhadores jovens à procura do primeiro emprego. As grandes empresas são as que têm maior capacidade de adquirir tecnologia que possibilita reduzir o número de trabalhadores sem diminuir a produção. Reduzem os trabalhadores para diminuir o custo de produção, melhorando os lucros, e para levar as pequenas e médias empresas, que não têm a mesma capacidade de aquisição de tecnologia, a abandonar o mercado para ocupar o seu espaço de produção.
Quem estiver atento aos noticiários económicos internacionais verifica que frequentemente empresas internacionais anunciam que vão despedir uma dezena de milhar de trabalhadores, ou mais, sem reduzir a produção, como em Novembro de 2016 foi noticiado que a Volkswagen vai despedir 30.000 trabalhadores. Os trabalhadores das pequenas e médias empresas vão também sendo despedidos pela mesma razão, ou por encerramento por não poderem concorrer com as grandes empresas.
Embora os trabalhadores despedidos tenham, em regra, direito a subsídio de desemprego, o seu valor é inferior ao do salário que recebiam e é temporário. Os jovens trabalhadores acabados de chegar ao mercado de trabalho não têm direito a esse subsídio ou outro equivalente, tendo que viver do apoio de familiares, se puderem.
E porque o desemprego se generaliza e se vai agravando, os salários não sobem e frequentemente são reduzidos pelas empresas, pondo os trabalhadores na alternativa de aceitar a redução ou o encerramento da actividade. Em consequência a crise vai-se generalizando no mundo, com maior incidência nos países mais desenvolvidos.
Com o colapso da União Soviética no início da década de 1990 os trabalhadores de todo o mundo deixaram de ter perspectiva de modelo alternativo ao da economia neoliberal que, nas décadas de 1970 e 1980, eliminou o keynesianismo.
Com o colapso da União Soviética e o fim do liberalismo keynesiano o sistema capitalista não se preocupou mais em assegurar algum equilíbrio na distribuição da produção entre o capital e o trabalho, em estabelecer normas disciplinadoras das actividades económicas e financeiras, em contrariar a concentração excessiva do capital financeiro e do económico, em regular a actividade laboral para defesa dos trabalhadores e em assegurar serviços públicos de qualidade para a população.
Com o colapso da União Soviética, a mundialização do neoliberalismo e o grande desenvolvimento tecnológico que possibilitou a crescente redução do número de trabalhadores, os que vivem do seu trabalho passaram a sofrer forte redução das suas condições de vida sem ter projecto alternativo que os defenda.
A saída do Reino Unido em 2016 da União Europeia foi votada em parte significativa pela população que vive do seu trabalho por convencimento de que o agravamento das suas condições de vida são devidas à integração na UE e não ao crescente desemprego por razões tecnológicas com desregulação da banca e da economia e cada vez maior desequilíbrio na distribuição dos rendimentos entre o capital e o trabalho.
Os sindicatos e as outras organizações dos trabalhadores não estão a saber as razões da crise laboral actual, deixando a ideologia neoliberal defensora dos interesses das grandes empresas imputar demagogicamente as razões dela à entrada no mercado de trabalho de imigrantes de outros países.
Isso aconteceu também com a eleição do presidente dos EUA, em Novembro de 2016, levando ao poder o populista Trump que foi capaz de convencer muitos trabalhadores de que o agravamento das suas condições de vida resulta dos imigrantes do México e da redução das taxas de importação das mercadorias entradas de outros países nos EUA, que também beneficiam de taxas reduzidas nas suas exportações ao abrigo das mesmas regras.
Os sindicatos e as outras organizações dos trabalhadores não podem deixar de combater a atribuição oportunista e demagógica pelos defensores do neoliberalismo das razões do desemprego, da redução do nível dos salários e dos apoios sociais, do aumento da idade de reforma e da perda de qualidade dos serviços públicos, aos imigrantes que entram nos países.
Há que não esquecer que, depois da primeira grande guerra de 1914/18, os grandes interesses económicos, para combater a crescente reivindicação dos trabalhadores por melhores condições de vida, ao mesmo tempo que activamente promoviam a desordem pública, atribuíam essa desordem às organizações mais combativas dos trabalhadores e, na Alemanha, também aos judeus que então eram percentagem significativa da população alemã.
As organizações representativas dos trabalhadores não podem deixar de ter em conta que a crise económica resulta do subconsumo. Com a globalização económica criada pelo desenvolvimento das novas tecnologias e das que sempre vão surgindo cada vez mais aceleradamente não há países nem regiões económicas com mercados estanques. Cada país ou zona económica, tal como faz cada empresa, procura ganhar à custa dos outros, agindo de modo a reduzir os encargos laborais para produzir a menores custos, travar as importações e aumentar as exportações e assim as empresas acumularem maiores lucros.
A redução do custo do trabalho faz-se por diminuição nominal (quantitativa) dos salários e dos apoios sociais, que é método impopular e gerador de crise económica interna por diminuição da procura e aumento da dívida pública. Pode também fazer-se pelo modo normal, que é a inflação controlada, isto é por adequado aumento da massa monetária em circulação, o que gera preços mais altos, tendo como consequência a desvalorização da riqueza acumulada em dinheiro e dos rendimentos fixos (salários, rendas e semelhantes). A inflação tem a vantagem de ser socialmente mais equitativa, abrangendo alargadas camadas sociais e também de o aumento dos preços estimular a procura com dinamização da economia.
Mas, estando a economia globalizada, nenhuma destas soluções resolve a questão, que é de subconsumo, tendente a ser global em consequência do aumento da produtividade do trabalho gerada pelo acelerado desenvolvimento tecnológico sem haver aumento dos rendimentos distribuídos aos que vivem da venda da sua capacidade de trabalho de modo a haver procura para todos os bens crescentemente postos no mercado. Pelo contrário tem havido diminuição dos rendimentos distribuídos, porque o desenvolvimento tecnológico tem vindo a levar à diminuição do emprego com aumento do número de desempregados e agravamento da despesa pública resultante de maior valor do pagamento de subsídios de desemprego aos que vão perdendo os postos de trabalho no caso dos países que têm esse apoio social.
Em consequência, aumentando a quantidade de bens no mercado (mercadorias) sem haver aumento proporcional do poder de compra, antes havendo diminuição, há subconsumo. O sistema bancário reage a isso oferecendo crédito ao consumo, em regra a juros usurários, o que, embora temporariamente compense a diminuição dos rendimentos para aquisição dos bens postos no mercado (mercadorias), não soluciona a questão antes a agrava, que número significativo de devedores por crédito ao consumo deixa de poder pagar as dívidas correspondentes fazendo diminuir mais a procura. E os detentores do poder político, porque governam de acordo com os interesses dos donos dos grandes meios de produção, defendem o alargamento do tempo de trabalho semanal para tornar o trabalho mais barato para as empresas; e a redução dos apoios sociais com aumento da idade da reforma para diminuir os gastos públicos com as reformas.
(Continua na edição seguinte)
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