Carlos Vieira e Silva

Lições a tirar da eleição presidencial

Lições a tirar da eleição presidencial

Marcelo Rebelo de Sousa captou votos da direita à esquerda.  António Costa, ao decidir apoiar tacitamente a reeleição do presidente, trocou as voltas ao eleitorado do PS, que foi votar maioritariamente em Marcelo, e ao da direita que, descontente com o “desvio centrista” do seu “candidato natural”,  foi (a maioria talvez ingenuamente) sentar-se ao colo do candidato da extrema-direita racista, xenófoba e apoiada por fascistas e neonazis. É evidente que nem todos os que votaram Ventura são fascistas, mas provam que em Portugal há muita gente racista e xenófoba. Claro que a maioria que se deixou iludir pela “banha-da-cobra” há-de arrepender-se, num futuro breve, como aconteceu com muitos eleitores de  Trump e  Bolsonaro.

 

Ana Gomes, sem o apoio do seu partido, surgiu como a candidata da ala mais progressista do PS (muito minoritária), embora também tivesse apoios no extremo oposto, como  Francisco Assis. Nem a JS a apoiou directamente ao apelar ao voto nos três candidatos de esquerda, Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias.

 

Uma grande parte do eleitorado do BE, com receio de que Ventura ficasse em segundo lugar, votou em Ana Gomes e em Marcelo. O mesmo terá acontecido com eleitores do PCP. No entanto, ao contrário do que propalaram comentadores e “politolos”, não se verificou uma transferência de votos do PCP para a extrema-direita no Alentejo, uma vez que a votação de João Ferreira,  foi apenas ligeiramente inferior à de Edgar Silva e até maior em percentagem.

 

Também falharam os inúmeros augúrios que pressagiaram um castigo severo do BE pelos seus eleitores supostamente descontentes com o voto contra o Orçamento de Estado de 2021. A RTP fez uma sondagem à boca das urnas sobre as intensões de voto nas legislativas e os mesmos eleitores já dariam ao Bloco 8% dos votos, mais do dobro da percentagem obtida por Marisa. De resto, também não se verificou nenhum prémio ao PCP por ter votado a favor do OE 2021.  A esquerda fez o seu dever ao apoiar candidaturas alternativas aos projectos de direita e extrema-direita. Só o PS desertou desse combate.

 

Rui Rio é responsável pelo “branqueamento” da extrema-direita iniciado nos Açores, nos apelos para a moderação do Chega e no entusiasmo com o  alegado “esmagamento da esquerda”.

 

Como se derrota a extrema-direita? Com mais e melhor democracia, redução das desigualdades sociais e territoriais, melhores serviços públicos (mais investimento no SNS), cultura da cidadania e tolerância zero à corrupção, ao nepotismo, ao racismo, à xenofobia, à homofobia, ao machismo e a todas as formas de ódio, violência e discriminações preconceituosas proibidas na Constituição da República Portuguesa.

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