Carlos Vieira e Silva
Racismo e escravatura: as duas faces da mesma moeda colonialista, mal escondida no baú da História de Portugal

Em “Cada Homem é Uma Raça”, livro de Mia Couto, o narrador do conto “ O embondeiro que sonhava com pássaros”, João Passarinheiro, inquirido por um polícia, responde: “- A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.”
Este escritor moçambicano, um dos maiores da língua portuguesa, regressa ao tema no romance “Jesusalém”. O protagonista, Mwanito “o afinador de silêncios”, recorda como em menino, estranhando que ele e o irmão tivessem a pele mais escura do que o tio e o pai, perguntou a este: “Somos de outra raça?”. Respondeu o pai: “Ninguém é de uma raça. As raças são fardas que vestimos”.
Com efeito, se despirmos a farda, ficaremos todos iguais, já que biologicamente não há raças diferentes. A Humanidade nasceu em África (somos todos “afro-descendentes”) e ao longo de milénios espalhou-se pelos restantes continentes, aclarando a pele nas regiões menos bafejadas pelo calor do Sol. A mestiçagem alindou a paleta. A miscigenação cultural acompanhou a física. As culturas (etnias) são diversas, mas não estanques. Tal como a genética: se subtessemos os racistas a um teste de ADN, a maior parte curaria o preconceito ao vrificar que ninguém é de uma “raça pura”, somos todos uma mistura de genes das mais variadas e insuspeitas proveniências, mas 85% dos genes são partilhados por toda a “raça humana”. Os portugueses, segundo um estudo genético, são provenientes em 50,4% da Ibéria e Europa mediterrânica; em 25% das Ilhas Britânicas, Europa Ocidental ou Escandinávia (celtas, suevos e godos); 9,1% da Europa do Leste, do Centro e dos Balcãs; 4,2% do Norte de África (berberes, fenícios); 2,6% da Arábia e Nordeste de África (árabes);
2,5% de Chipre, Malta e judeus sefarditas; 1,2% da Etiópia e Somália; 1,9% da Rússia, Geórgia, Arméia, Azarbeijão, Irão e Turquia e 1% da Finlândia e norte da Rússia.
É certo que já existia escravatura em África, de que os árabes foram o principal veículo, desde o século VII, e que os genoveses e os venezianos escravizaram outros europeus e africanos, mas os portugueses que, com as viagens marítimas, deram um enorme contributo à Humanidade, aprofundando os conhecimentos científicos, com a ganância de explorar outros territórios e povos guindaram-se a campeões do tráfico negreiro que vitimou um total de 90 milhões de africanos. Só um quinto destes chegou à América, tendo os restantes morrido na captura, no cativeiro ou na viagem. A esperança de vida era de 5 ou 6 anos.
Desde sempre houve quem resistisse à escravatura e quem denunciasse a crueldade dos seus praticantes. O padre António Vieira, em pelo menos dois sermões, criticou a forma desumana como os colonos do Brasil tratavam os escravos negros, embora nunca tenha advogado a sua libertação, como fizera em relação aos índios, para quem conseguiu que fosse ordenada a libertação, em 1655, exceptuando, mesmo assim, os capturados em “guerra justa” e dos que impedissem a pregação do cristianismo (uma outra forma de prepotência do invasor). Perseguido pelos colonos e pela Inquisição, que o chegou a prender por defender os judeus e direitos iguais para os cristãos novos, Vieria não deixou de ser um homem de coragem, mas não a suficiente para condenar a escravatura dos negros (autorizada por bulas papais de 1425-1456) como fez o arcebispo do México, Alonso de Montufar, ou Frei Bartolomé de las Casas, que cem anos antes de Vieira, denunciou nas obras “Brevissima Relação da Destruição das Índias” e “História das Índias”, que incluía o opúsculo “Brevíssima Relação da Destruição de África”, a crueldade com que espanhóis e portugueses maltrataram índios e negros “injusta e tiranicamente escravizados”.
Os próprios jesuítas (e outras ordens religiosas) detinham escravos negros nas suas plantações de açúcar na colónias espanholas e portuguesas, bem como nos trabalhos domésticos.
Aqueles que vêm agora dizer que não se pode julgar personagens do passado com as ideias do presente, ou, como Valter Hugo Mãe, que “a purificação do passado é uma imbecilidade” só estão a chamar imbecis a todos os cristãos por acreditarem que há dois mil anos apareceu alguém que disse que todos os seres humanos eram iguais.
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